Poucas discussões me parecem tão sem sentido como esta entre o campeonato de pontos corridos e o mata-mata. As emoções fortíssimas proporcionadas pela fase semifinal da Copa do Brasil deste ano fizeram com que muitos pensassem em ressuscitar o zumbi do campeonato brasileiro com finais eliminatórias, como era até 2002.
Pessoal; muita calma nesta hora. Ninguém discute que o mata-mata é muito mais emocionante, mas é preciso entender (se é que alguém ainda não entendeu) que este tipo de disputa só é boa para os clubes que sobrevivem até as finais. Neste momento, por exemplo, só os torcedores mineiros possuem um real interesse pela final da Copa do Brasil; os demais acompanham sem paixão, apenas por gostar de futebol. Já o “monótono” campeonato brasileiro ainda promete seis rodadas com diversos jogos decisivos envolvendo praticamente todos os vinte times da disputa. Ou seja; do ponto de vista financeiro, o campeonato de pontos corridos é melhor prá todo mundo, porque permite que o clube planeje a sua temporada até o final. Se os dirigentes são incompetentes e não planejam, o problema seguramente não é da fórmula.
Numa comparação poética, eu diria que o campeonato de pontos corridos é como o amor, e o mata-mata é a paixão. Amor é investimento de longo prazo, torna a vida mais sólida e feliz; a paixão é cega, e pode levar à ruína, mas enquanto dura, é capaz de proporcionar emoções inesquecíveis. O equilíbrio entre as duas coisas faz a vida completa e feliz, e quem acha que pode viver só de paixão, acaba sempre muito mal. Desta forma, entendo que a existência de um campeonato de pontos corridos e um mata-mata, conforme temos hoje, é a solução correta.
Aliás, não é por outra razão que os países europeus, onde temos os campeonatos mais organizados e rentáveis do mundo, usam esta fórmula com sucesso há muito tempo; um campeonato de pontos corridos e uma copa em fases eliminatórias. A emoção desenfreada dos grandes jogos eliminatórios, em paralelo com a solidez de uma temporada rentável para todos, que premia ao final o mais eficiente ao longo do ano. Simples assim.
O resto é invencionice de quem acha que brasileiro é mais “ixperto” que os outros.
domingo, 9 de novembro de 2014
sábado, 4 de outubro de 2014
SOBRE O RIDICULO DAS COTAS. DE NOVO
Todos os fanáticos por futebol do Brasil, entre os quais orgulhosamente me incluo, sabem que a seleção brasileira vai realizar um jogo amistoso contra a Argentina nos próximos dias. Como não existe jogo amistoso entre Brasil e Argentina, o clássico desperta interesse acima do normal. Nesta semana o Brasil teve duas baixas importantes, com as lesões do goleiro Jefferson e do meio-campo Ramirez. Para os seus lugares, o técnico Dunga convocou, respectivamente, o gremista Marcelo Grohe e o são-paulino Souza. E é aí que o chato do blogueiro aqui resolve meter a sua colher torta, como diria a minha avó lá de Santa Maria.
Para quem não se ligou no detalhe, os dois lesionados são negros, e os dois substitutos, brancos. Graças a Deus a doença do politicamente correto e seu terrível efeito colateral, as cotas raciais, ainda não chegaram à escalação da seleção brasileira de futebol. Já pensaram se as mentes doentias que andam dirigindo este país resolvessem que Jefferson só poderia ser substituído por outro goleiro negro (perdão, afrodescendente)? Felizmente Dunga não precisa passar por isto, pelo menos por enquanto. A sorte dele é que ninguém lê este blog, mesmo.
Falo isto para bater, mais uma vez, na mesma tecla que já me levou a colocar aqui outro post (ver; www.causosdoherve.blogspot.com.br/2010/11/e-la-vem-eles-com-as-cotas-de-novo.html); a única cota admissível em um país que quer crescer e chegar ao primeiro mundo é a de 100% das vagas para pessoas competentes. E o esporte nos dá uma bela lição disto; quando se trata de escolher os melhores jogadores, ninguém está preocupado se o cara é branco, preto, amarelo ou verde. A seleção alemã campeã do mundo é um exemplo belíssimo; num time de craques, que hoje é o grande orgulho de uma nação marcada até um passado recente pela xenofobia e intolerância racial, há lugar para o negro Boateng, os turcos Khedira e Ozil, os polacos Klose e Podolski, ao lado dos caucasianos Neuer, Schweinsteiger, Thomas Muller e outros. Tudo junto e misturado, como deve ser.
Resumindo; deixem a meritocracia fluir, e teremos sempre os melhores profissionais trabalhando. E entre estes melhores, naturalmente, haverá gente de todas as raças, religiões, opções sexuais, etc... Criar cotas é o melhor caminho para mediocrizar e depois desintegrar uma sociedade. O futebol prova isto.
Para quem não se ligou no detalhe, os dois lesionados são negros, e os dois substitutos, brancos. Graças a Deus a doença do politicamente correto e seu terrível efeito colateral, as cotas raciais, ainda não chegaram à escalação da seleção brasileira de futebol. Já pensaram se as mentes doentias que andam dirigindo este país resolvessem que Jefferson só poderia ser substituído por outro goleiro negro (perdão, afrodescendente)? Felizmente Dunga não precisa passar por isto, pelo menos por enquanto. A sorte dele é que ninguém lê este blog, mesmo.
Falo isto para bater, mais uma vez, na mesma tecla que já me levou a colocar aqui outro post (ver; www.causosdoherve.blogspot.com.br/2010/11/e-la-vem-eles-com-as-cotas-de-novo.html); a única cota admissível em um país que quer crescer e chegar ao primeiro mundo é a de 100% das vagas para pessoas competentes. E o esporte nos dá uma bela lição disto; quando se trata de escolher os melhores jogadores, ninguém está preocupado se o cara é branco, preto, amarelo ou verde. A seleção alemã campeã do mundo é um exemplo belíssimo; num time de craques, que hoje é o grande orgulho de uma nação marcada até um passado recente pela xenofobia e intolerância racial, há lugar para o negro Boateng, os turcos Khedira e Ozil, os polacos Klose e Podolski, ao lado dos caucasianos Neuer, Schweinsteiger, Thomas Muller e outros. Tudo junto e misturado, como deve ser.
Resumindo; deixem a meritocracia fluir, e teremos sempre os melhores profissionais trabalhando. E entre estes melhores, naturalmente, haverá gente de todas as raças, religiões, opções sexuais, etc... Criar cotas é o melhor caminho para mediocrizar e depois desintegrar uma sociedade. O futebol prova isto.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
DE ARANHAS, MACACOS E VEADOS – UMA REFLEXÃO SOBRE A IRRACIONALIDADE HUMANA
Existe uma frase, de autor desconhecido, que me agrada muito. Ela diz que os ingleses bem educados inventaram o tênis; os mal educados, o futebol. E o fato do futebol ser muito mais popular que o tênis prova que os mal educados são a maioria absoluta no mundo.
Sou gremista e fanático por futebol desde que me entendo por gente, e tenho sérias dúvidas sobre pessoas que me dizem que gostam de futebol, mas não têm time preferido. Não acredito que isto seja possível; a paixão tem que ter um objeto. E sempre achei que a parte interessante do futebol era justamente a malcriação que ele permite; na arquibancada você xinga, berra, enfim, solta todo aquele lado “baixaria” que todo o ser humano normal tem. Quem torce não precisa de terapia, dizia um amigo dos meus tempos de gremista de arquibancada, no saudoso Estádio Olímpico. Nada mais verdadeiro.
Recordei tudo isto em função do episódio recente envolvendo a torcida do Grêmio e o goleiro Aranha, do Santos. Em primeiro lugar, devo dizer que jamais defenderei a “Geral do Grêmio”, nem qualquer torcida organizada de qualquer time; entendo que estes lugares viraram antros de marginais, torcedores profissionais, que só querem saber de dinheiro e favorecimentos políticos, colocando seus interesses pessoais muito acima do futebol ou do clube. Alias, podemos dizer que, de certa forma, este microcosmo reflete o que temos de pior na sociedade brasileira como um todo, mas isto fica para um próximo post.
O que eu acho importante nisto tudo é; o racismo é uma praga, sem dúvida, mas será que o “politicamente correto” não é uma praga pior? É claro que chamar um ser humano de “macaco” é inadmissível, mas será que é caso de prisão perpétua, ou pena de morte? Lembro que há muito pouco tempo estive no Maracanã assistindo Alemanha x França, e cantei, junto com a multidão, a musiquinha que terminava com “Maradona cheirador”; além disto, já xinguei a mãe de vários jogadores, além de questionar a masculinidade de árbitros e adversários. Isto é bonito? Claro que não. Eu me envergonharia de ver isto na TV? Obviamente. Então vamos acabar com isto? Desculpem o mau jeito, mas acho que aí é melhor acabar com o futebol, e vamos todos brincar de Barbie e fazer terapia depois.
O mais triste nestes casos é que o tratamento dado pela mídia é o pior possível, sempre levando a questão para o lado emocional. Fiquei imaginando as filhinhas do Maradona olhando prá minha cara com lágrimas nos olhos e dizendo que o “papá” nunca cheirou nada, que eu era um monstro nazista (e o pior é que tenho sangue alemão, mesmo). Enfim, eu não teria onde me segurar; não sou negro, nem pobre, nem deficiente físico, nem homossexual... Talvez só o fato de ser idoso contasse como atenuante para a minha falta de educação.
Resumindo, penso o seguinte; racismo nunca, violência nem pensar, mas zoação sempre. E fico muito preocupado com a ideia que se proponha um tipo de “código de ética” nos estádios; macaco não pode, veado não pode, filho da puta pode ser, cheirador talvez, corno quem sabe... É claro que isto não faz o menor sentido. Crianças, creiam na palavra deste velho peladeiro; a graça toda está em não ter regras, apenas o mínimo de bom-senso. E não tem nada mais bonito e humano do que você chegar para o ofendido, pedir desculpas e ele aceitar. É assim que o ser humano se engrandece.
Uma frase para terminar; “Agora falando sério; a seriedade é anti-humana. O nazismo, por exemplo, era sério paca”. O autor é o humorista Jaguar, do saudoso Pasquim. Tenho certeza que a neurose do politicamente correto é muito mais nazista do que a saudável zoação entre torcidas. E que atire a primeira pedra quem nunca xingou ninguém.
Sou gremista e fanático por futebol desde que me entendo por gente, e tenho sérias dúvidas sobre pessoas que me dizem que gostam de futebol, mas não têm time preferido. Não acredito que isto seja possível; a paixão tem que ter um objeto. E sempre achei que a parte interessante do futebol era justamente a malcriação que ele permite; na arquibancada você xinga, berra, enfim, solta todo aquele lado “baixaria” que todo o ser humano normal tem. Quem torce não precisa de terapia, dizia um amigo dos meus tempos de gremista de arquibancada, no saudoso Estádio Olímpico. Nada mais verdadeiro.
Recordei tudo isto em função do episódio recente envolvendo a torcida do Grêmio e o goleiro Aranha, do Santos. Em primeiro lugar, devo dizer que jamais defenderei a “Geral do Grêmio”, nem qualquer torcida organizada de qualquer time; entendo que estes lugares viraram antros de marginais, torcedores profissionais, que só querem saber de dinheiro e favorecimentos políticos, colocando seus interesses pessoais muito acima do futebol ou do clube. Alias, podemos dizer que, de certa forma, este microcosmo reflete o que temos de pior na sociedade brasileira como um todo, mas isto fica para um próximo post.
O que eu acho importante nisto tudo é; o racismo é uma praga, sem dúvida, mas será que o “politicamente correto” não é uma praga pior? É claro que chamar um ser humano de “macaco” é inadmissível, mas será que é caso de prisão perpétua, ou pena de morte? Lembro que há muito pouco tempo estive no Maracanã assistindo Alemanha x França, e cantei, junto com a multidão, a musiquinha que terminava com “Maradona cheirador”; além disto, já xinguei a mãe de vários jogadores, além de questionar a masculinidade de árbitros e adversários. Isto é bonito? Claro que não. Eu me envergonharia de ver isto na TV? Obviamente. Então vamos acabar com isto? Desculpem o mau jeito, mas acho que aí é melhor acabar com o futebol, e vamos todos brincar de Barbie e fazer terapia depois.
O mais triste nestes casos é que o tratamento dado pela mídia é o pior possível, sempre levando a questão para o lado emocional. Fiquei imaginando as filhinhas do Maradona olhando prá minha cara com lágrimas nos olhos e dizendo que o “papá” nunca cheirou nada, que eu era um monstro nazista (e o pior é que tenho sangue alemão, mesmo). Enfim, eu não teria onde me segurar; não sou negro, nem pobre, nem deficiente físico, nem homossexual... Talvez só o fato de ser idoso contasse como atenuante para a minha falta de educação.
Resumindo, penso o seguinte; racismo nunca, violência nem pensar, mas zoação sempre. E fico muito preocupado com a ideia que se proponha um tipo de “código de ética” nos estádios; macaco não pode, veado não pode, filho da puta pode ser, cheirador talvez, corno quem sabe... É claro que isto não faz o menor sentido. Crianças, creiam na palavra deste velho peladeiro; a graça toda está em não ter regras, apenas o mínimo de bom-senso. E não tem nada mais bonito e humano do que você chegar para o ofendido, pedir desculpas e ele aceitar. É assim que o ser humano se engrandece.
Uma frase para terminar; “Agora falando sério; a seriedade é anti-humana. O nazismo, por exemplo, era sério paca”. O autor é o humorista Jaguar, do saudoso Pasquim. Tenho certeza que a neurose do politicamente correto é muito mais nazista do que a saudável zoação entre torcidas. E que atire a primeira pedra quem nunca xingou ninguém.
domingo, 20 de julho de 2014
E SE FOSSE A ARGENTINA?
A vitória dos alemães na Copa do Mundo mostrou, mais uma vez, aquilo que eu e todos os que entendem um mínimo que seja de gerenciamento de projetos já sabem há muito tempo; a importância do planejamento e da disciplina para que se atinja o sucesso. Não vou falar mais sobre o assunto, todos os meios de comunicação estão aí com reportagens, artigos, vídeos e mais o que seja para louvar a vitória alemã. O esporte como metáfora da vida, etc...
Chato como sempre, gostaria de levantar um pequeno problema; quem assistiu o jogo sabe que os alemães ganharam por 1x0, com um golzinho no final da prorrogação (golzinho é maldade minha; foi um golaço. A jogada foi muito bonita e a conclusão perfeita). Mas, independente da beleza do gol, foi só um a zero. E é preciso reconhecer que, durante os 120 minutos de partida, as melhores chances de marcar foram dos argentinos. Três vezes a bola do jogo esteve nos pés dos “hermanos”, mas as conclusões de Higuain, Palacios e Messi foram dignas de peladeiros da pior espécie, muito abaixo do talento reconhecido de qualquer um deles. O fantástico goleiro Neuer nem precisou usar sua categoria, os três chutes foram para fora.
Mas agora levanto minha tese; e se eles marcassem, e a Argentina fosse a grande campeã? Será que hoje diríamos que o modelo argentino deve ser imitado? Que dar calote na economia e estatizar o futebol é a grande solução? Para quem não sabe, o governo Kirchner tirou o campeonato de futebol das redes particulares de TV e hoje ele é uma ferramenta oficial de propaganda governista. Fiel ao espírito populista bolivariano, o próximo campeonato argentino terá trinta clubes e um regulamento complicadíssimo, visando evitar o rebaixamento dos grandes clubes. Enfim, quase quarenta anos depois eles estão repetindo a tática usada pelos governos ditatoriais do Brasil; onde a ARENA vai mal, entra um clube no nacional, era o que se dizia na época, referindo-se ao partido governista na pseudo-democracia que vivíamos então. Obviamente este modelo é perdedor; e não é a toa que os grandes clubes de lá, como Boca Juniors e River Plate, vivem hoje em situação muito pior do que os seus congêneres brasileiros, que nem são tão grande coisa assim.
Mas a seleção argentina, que não tem nada a ver com isto, porque todos os seus grandes jogadores jogam fora, mesmo, quase ganhou. Portanto, meus amigos, nunca esqueçam que o futebol pode ser uma metáfora para a vida, mas dentro de certos limites. O modelo alemão é o correto, e continuaria sendo mesmo que eles perdessem a final. Ainda bem que os deuses do futebol impediram a injustiça...
Chato como sempre, gostaria de levantar um pequeno problema; quem assistiu o jogo sabe que os alemães ganharam por 1x0, com um golzinho no final da prorrogação (golzinho é maldade minha; foi um golaço. A jogada foi muito bonita e a conclusão perfeita). Mas, independente da beleza do gol, foi só um a zero. E é preciso reconhecer que, durante os 120 minutos de partida, as melhores chances de marcar foram dos argentinos. Três vezes a bola do jogo esteve nos pés dos “hermanos”, mas as conclusões de Higuain, Palacios e Messi foram dignas de peladeiros da pior espécie, muito abaixo do talento reconhecido de qualquer um deles. O fantástico goleiro Neuer nem precisou usar sua categoria, os três chutes foram para fora.
Mas agora levanto minha tese; e se eles marcassem, e a Argentina fosse a grande campeã? Será que hoje diríamos que o modelo argentino deve ser imitado? Que dar calote na economia e estatizar o futebol é a grande solução? Para quem não sabe, o governo Kirchner tirou o campeonato de futebol das redes particulares de TV e hoje ele é uma ferramenta oficial de propaganda governista. Fiel ao espírito populista bolivariano, o próximo campeonato argentino terá trinta clubes e um regulamento complicadíssimo, visando evitar o rebaixamento dos grandes clubes. Enfim, quase quarenta anos depois eles estão repetindo a tática usada pelos governos ditatoriais do Brasil; onde a ARENA vai mal, entra um clube no nacional, era o que se dizia na época, referindo-se ao partido governista na pseudo-democracia que vivíamos então. Obviamente este modelo é perdedor; e não é a toa que os grandes clubes de lá, como Boca Juniors e River Plate, vivem hoje em situação muito pior do que os seus congêneres brasileiros, que nem são tão grande coisa assim.
Mas a seleção argentina, que não tem nada a ver com isto, porque todos os seus grandes jogadores jogam fora, mesmo, quase ganhou. Portanto, meus amigos, nunca esqueçam que o futebol pode ser uma metáfora para a vida, mas dentro de certos limites. O modelo alemão é o correto, e continuaria sendo mesmo que eles perdessem a final. Ainda bem que os deuses do futebol impediram a injustiça...
domingo, 6 de julho de 2014
De Maiakovski à vertebra do Neymar - causos de impunidade
“Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
- Maiakovski, poeta Russo.
Por algum motivo, o lance que vitimou Neymar no jogo de anteontem me fez lembrar este poema. E me fez refletir sobre o problema da impunidade como fator cultural, algo que, infelizmente, é costume na sociedade brasileira. E também me lembrou outra frase, aquela que diz que de boas intenções o inferno está cheio.
Explicando; tudo começou quando a FIFA, pretendendo “preservar os artistas do espetáculo”, orientou os árbitros dos jogos das quartas de final a economizar nos cartões amarelos, para evitar alguma suspensão automática. O próprio Neymar se enquadrava no caso, porque já tinha um cartão, que levou no jogo de estreia, contra a Croácia. A intenção era ótima, mas a impressão que tenho é que a FIFA é hoje tão preocupada com os aspectos financeiros do seu megaevento que esqueceu completamente o que é um jogo de futebol. Apenas para lembra-los, o futebol pode ser um belo jogo, mas também tem o seu lado sujo – faltas, simulações, e otras cositas mas fazem parte do espetáculo e nem sempre são devidamente punidas.
Qualquer um que tenha participado de algum jogo com arbitragem oficial (mesmo que tenham sido apenas torneios amadores, como é o meu caso), sabe como a coisa funciona; o jogo começa meio morno, vai esquentando e, lá pelas tantas, alguém resolve “roubar a primeira flor do jardim”, para usar a linguagem do poeta russo. Em linguajar mais rasteiro, um dos jogadores resolve dar a primeira porrada, só prá ver o que o juiz faz. Se a reação é forte (cartão, bronca, punição), o jogo fica controlado; se os atletas percebem que o juiz está intimidado, por qualquer razão, o caos se instala rapidamente. E é claro que profissionais experientes como os envolvidos no jogo Brasil x Colômbia entenderam logo que só haveria punição em último caso (algo parecido com tentativa de homicídio). O resultado foram mais de cinquenta faltas em um jogo de noventa minutos, algumas dignas de boletim de ocorrência. De parte a parte, diga-se de passagem.
E aí, no finalzinho do jogo, o tal Zuniga, de cabeça quente porque o time dele estava perdendo, pegou o Neymar de jeito. Foi desleal? Sim, sem dúvida. É um crápula? Na minha visão, não. Fez apenas o que todo mundo estava fazendo; e quando diz que “foi uma fatalidade”, não me parece cínico, foi azar mesmo. Poderia haver uma perna quebrada tanto do lado de lá como de cá. Sobrou para a vértebra L3 do Neymar.
Resumo da ópera; para qualquer coisa funcionar direito – seja um jogo de futebol, uma equipe de projeto, uma sociedade, um país – é preciso haver um sistema de causa e consequências claro, e que seja aplicado com rigor. No momento em que se é conivente com o jogo sujo, mesmo que a causa aparentemente seja nobre, abre-se a caixa de Pandora, e libera-se todo o mal. E aí até o mais fraco deles se julga no direito de dar porrada, porque não vai acontecer nada, mesmo. Nem um cartãozinho amarelo.
Na verdade, talvez esta seja uma boa explicação para todos os problemas da sociedade brasileira, mas este “causo” fica prá próxima...
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.”
- Maiakovski, poeta Russo.
Por algum motivo, o lance que vitimou Neymar no jogo de anteontem me fez lembrar este poema. E me fez refletir sobre o problema da impunidade como fator cultural, algo que, infelizmente, é costume na sociedade brasileira. E também me lembrou outra frase, aquela que diz que de boas intenções o inferno está cheio.
Explicando; tudo começou quando a FIFA, pretendendo “preservar os artistas do espetáculo”, orientou os árbitros dos jogos das quartas de final a economizar nos cartões amarelos, para evitar alguma suspensão automática. O próprio Neymar se enquadrava no caso, porque já tinha um cartão, que levou no jogo de estreia, contra a Croácia. A intenção era ótima, mas a impressão que tenho é que a FIFA é hoje tão preocupada com os aspectos financeiros do seu megaevento que esqueceu completamente o que é um jogo de futebol. Apenas para lembra-los, o futebol pode ser um belo jogo, mas também tem o seu lado sujo – faltas, simulações, e otras cositas mas fazem parte do espetáculo e nem sempre são devidamente punidas.
Qualquer um que tenha participado de algum jogo com arbitragem oficial (mesmo que tenham sido apenas torneios amadores, como é o meu caso), sabe como a coisa funciona; o jogo começa meio morno, vai esquentando e, lá pelas tantas, alguém resolve “roubar a primeira flor do jardim”, para usar a linguagem do poeta russo. Em linguajar mais rasteiro, um dos jogadores resolve dar a primeira porrada, só prá ver o que o juiz faz. Se a reação é forte (cartão, bronca, punição), o jogo fica controlado; se os atletas percebem que o juiz está intimidado, por qualquer razão, o caos se instala rapidamente. E é claro que profissionais experientes como os envolvidos no jogo Brasil x Colômbia entenderam logo que só haveria punição em último caso (algo parecido com tentativa de homicídio). O resultado foram mais de cinquenta faltas em um jogo de noventa minutos, algumas dignas de boletim de ocorrência. De parte a parte, diga-se de passagem.
E aí, no finalzinho do jogo, o tal Zuniga, de cabeça quente porque o time dele estava perdendo, pegou o Neymar de jeito. Foi desleal? Sim, sem dúvida. É um crápula? Na minha visão, não. Fez apenas o que todo mundo estava fazendo; e quando diz que “foi uma fatalidade”, não me parece cínico, foi azar mesmo. Poderia haver uma perna quebrada tanto do lado de lá como de cá. Sobrou para a vértebra L3 do Neymar.
Resumo da ópera; para qualquer coisa funcionar direito – seja um jogo de futebol, uma equipe de projeto, uma sociedade, um país – é preciso haver um sistema de causa e consequências claro, e que seja aplicado com rigor. No momento em que se é conivente com o jogo sujo, mesmo que a causa aparentemente seja nobre, abre-se a caixa de Pandora, e libera-se todo o mal. E aí até o mais fraco deles se julga no direito de dar porrada, porque não vai acontecer nada, mesmo. Nem um cartãozinho amarelo.
Na verdade, talvez esta seja uma boa explicação para todos os problemas da sociedade brasileira, mas este “causo” fica prá próxima...
sábado, 28 de junho de 2014
O “CAUSO” DA MULTIPLICAÇÃO DE ALUNOS
Este causo ocorreu comigo em Juiz de Fora, há alguns anos. Era uma aula de “Gerenciamento da Comunicação em Projetos”, que fazia parte de um curso de MBA, e era ministrada em dois dias; sexta-feira à noite e sábado pela manhã. Ocorre que era o fim-de-semana do dia das Mães, e eu já me preparei para o fato que muitos alunos iriam faltar na aula de sábado, por conta de possíveis viagens.
Não deu outra; na aula de sexta-feira tivemos presença maciça, mas no sábado era possível notar claramente que o número de alunos era bem menor. Como passei um trabalho para ser feito na sala, pude verificar com exatidão o número de alunos presentes; vinte e dois (o total de alunos na turma era de mais ou menos quarenta). Ao final do trabalho houve um coffee break, aproveitei o intervalo para dar uma olhada na lista de chamada que eles haviam assinado e levei um susto; eram exatas 37 assinaturas! Ou seja; tínhamos quinze alunos-fantasmas na sala de aula.
Eu tinha poucos minutos para tomar uma decisão; deixar prá lá, dar uma chamada, ameaçar com punição, enfim, muita coisa me passou pela cabeça. Acabei achando uma solução que, sem modéstia, recomendo para todos os colegas que venham a passar por algo semelhante.
Fui até a secretaria e pedi uma cópia da lista de chamada. Quando os alunos voltaram para a sala, fechei a porta e falei, no tom mais sério que consegui;
- Pessoal, ocorreu um problema aqui na sala, mas, por mim, este assunto não vai passar daquela porta.
Senti que eles ficaram preocupados, peguei a lista de chamada na mão e continuei o teatrinho;
- Vocês acabaram de fazer o trabalho e assinaram. Eu tenho uma prova, fornecida por vocês mesmos, que existem 22 alunos nesta sala. E esta lista tem 37 assinaturas.
O silêncio na sala era completo. Daria prá ouvir o zumbido de um mosquito. Peguei um copo com um restinho de água dentro, e dei o golpe final;
- Fui à secretaria e contei que, acidentalmente, eu derramei água em cima da lista assinada por vocês, e ela ficou inutilizada (neste ponto, joguei a água na lista assinada, rasguei-a e coloquei no lixo). Pedi desculpas pelo incômodo, eles me deram esta lista nova e eu solicito a vocês que façam o favor de assinar novamente. Se esta lista voltar com 22 assinaturas, o caso acaba aqui. Se voltar com mais de 22, vou ter que tomar outras providências. Depende só de vocês. Fui claro?
Não preciso contar que a lista voltou exatamente com 22 assinaturas, e ninguém saiu chateado. Lição aprendida; todo aluno, no fundo, é uma criança. E brigar com criança é besteira, o negócio é ensinar. E ser criativo, sempre.
Não deu outra; na aula de sexta-feira tivemos presença maciça, mas no sábado era possível notar claramente que o número de alunos era bem menor. Como passei um trabalho para ser feito na sala, pude verificar com exatidão o número de alunos presentes; vinte e dois (o total de alunos na turma era de mais ou menos quarenta). Ao final do trabalho houve um coffee break, aproveitei o intervalo para dar uma olhada na lista de chamada que eles haviam assinado e levei um susto; eram exatas 37 assinaturas! Ou seja; tínhamos quinze alunos-fantasmas na sala de aula.
Eu tinha poucos minutos para tomar uma decisão; deixar prá lá, dar uma chamada, ameaçar com punição, enfim, muita coisa me passou pela cabeça. Acabei achando uma solução que, sem modéstia, recomendo para todos os colegas que venham a passar por algo semelhante.
Fui até a secretaria e pedi uma cópia da lista de chamada. Quando os alunos voltaram para a sala, fechei a porta e falei, no tom mais sério que consegui;
- Pessoal, ocorreu um problema aqui na sala, mas, por mim, este assunto não vai passar daquela porta.
Senti que eles ficaram preocupados, peguei a lista de chamada na mão e continuei o teatrinho;
- Vocês acabaram de fazer o trabalho e assinaram. Eu tenho uma prova, fornecida por vocês mesmos, que existem 22 alunos nesta sala. E esta lista tem 37 assinaturas.
O silêncio na sala era completo. Daria prá ouvir o zumbido de um mosquito. Peguei um copo com um restinho de água dentro, e dei o golpe final;
- Fui à secretaria e contei que, acidentalmente, eu derramei água em cima da lista assinada por vocês, e ela ficou inutilizada (neste ponto, joguei a água na lista assinada, rasguei-a e coloquei no lixo). Pedi desculpas pelo incômodo, eles me deram esta lista nova e eu solicito a vocês que façam o favor de assinar novamente. Se esta lista voltar com 22 assinaturas, o caso acaba aqui. Se voltar com mais de 22, vou ter que tomar outras providências. Depende só de vocês. Fui claro?
Não preciso contar que a lista voltou exatamente com 22 assinaturas, e ninguém saiu chateado. Lição aprendida; todo aluno, no fundo, é uma criança. E brigar com criança é besteira, o negócio é ensinar. E ser criativo, sempre.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
O DIA EM QUE RECEBI UM RECADO DE DEUS
Embora seja um sujeito extremamente crítico, ácido e irônico por natureza, também tenho o direito a um momento de pureza tipo “encontrei Jesus”, ou algo assim. Este “causo” aconteceu quando fui dar uma aula em Fortaleza, há uns sete ou oito anos, mais ou menos. Cheguei lá numa sexta-feira, para ministrar um curso que ocuparia o sábado todo e boa parte do domingo. É claro que uma viagem destas não é exatamente de lazer, mas mesmo assim sempre se arruma um tempinho para dar uma caminhada pela beira da praia, comer um bom pastel de camarão, enfim, desfrutar destes pequenos prazeres que tornam a vida mais agradável.
O curso era no próprio hotel, o que é ótimo, porque economiza o tempo para deslocamentos e, quase sempre, é possível subir ao quarto e dar uma descansada no intervalo de almoço. Chegando ao local, desanimei um pouco; ficava lá pros lados da Lubnor (quem conhece Fortaleza sabe que ali não é o melhor pedaço da orla). Daí prá frente, só decepções; quarto precisando de uma boa faxina, ar condicionado barulhento, problemas com a água quente do chuveiro... Pior ainda; o hotel era vizinho de uma espécie de vila de pescadores cuja gente, vista na luz difusa do entardecer, me pareceu ameaçadora e mal-encarada. Abandonando a idéia da caminhada noturna pela orla e do jantar fora, pedi comida do próprio hotel. Só que não era mesmo o meu dia; o filé de frango esturricado, acompanhado de uma massa grudenta, só fez piorar o meu humor (e olha que não sou do tipo que reclama de comida). As más notícias continuaram quando resolvi inspecionar o “Salão de Convenções”, onde aconteceria o curso; a iluminação era péssima, as cadeiras desconfortáveis, o som não funcionou... Para completar meu dia de cão, o pessoal da organização do curso não apareceu e nem deu notícias.
Fui dormir maldizendo a vida, e jurando que nunca mais ia entrar em outra fria destas. Tive pesadelos com o curso, com a sala, com a avaliação dos alunos... Como sou madrugador por natureza, acordei bem antes do início do horário de café da manhã do hotel e fiquei remoendo meu mau humor (que, com a fome, ficou muito pior, é claro). De repente, um barulho ao longe, parecendo fogos de artifício, me deixou curioso. Eu não sabia, mas ia começar uma das maiores lições que recebi na vida.
Sonolento e rabugento, fiquei algum tempo parado na varanda tentando acostumar os olhos à claridade da manhã cearense. Quando finalmente consegui enxergar direito, o espetáculo que se ofereceu foi de uma beleza rara; num mar azul claro, diversos barquinhos e jangadas seguiam um barco um pouco maior, enfeitado com bandeirinhas, que carregava o que parecia ser a imagem de uma santa. Os fogos vinham dali. E a melhor parte veio quando olhei para a praia; aqueles caras que na noite anterior me pareciam estranhos e agressivos estavam lá, acompanhados das mulheres e filhos, todos vestindo suas melhores roupinhas, embarcando sorridentes para se juntarem à procissão.
A “viagem” que aconteceu comigo a seguir eu nunca consegui entender, e é ate difícil de contar. A visão das jangadas no mar começou a ser embalada por uma canção de Dorival Caymmi, que não sei se era cantada pelo pessoal ou se vinha do meu próprio delírio; “Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer”... Senti a recordação agradável que esta música sempre me trouxe, de um passeio com a minha turma do colégio na praia de Atlântida, lá pelos meus quinze anos de idade (esclarecimento importante; esta Atlântida fica no litoral gaúcho, não é o continente perdido. Minha viagem não foi tão louca assim). Ato contínuo, desandei a chorar. E foi então que ouvi, claramente, a divina mensagem; “Ta reclamando de que? Você veio aqui trabalhar, está sendo muito bem pago, e vai ficar de frescura porque a comidinha não está boa, porque a água está fria? Olha prá esta turma aí embaixo! Não sabem o que é ar condicionado, não ganham metade do teu salário, e ninguém ta com esta cara de babaca! Entendeu, sua bichinha mimada? Faz o teu trabalho direito e pára de reclamar, porra!”. Sem dúvida, era o meu mentor espiritual; afinal, um cara que nem eu jamais mereceria um mentor bonzinho, muito menos politicamente correto. O sacana estava me dando um esporro, o recado que ele trazia de Deus era curto e grosso, exatamente o que eu precisava ouvir naquela hora. Afinal, todo mundo sabe que Ele não erra.
Meu transe durou uns quinze minutos. Eu olhava a cena, chorava e me xingava, olhava de novo, chorava mais ainda e me xingava em dobro. Quando finalmente consegui readquirir um mínimo de autocontrole, o hotel, a vida e o mundo não eram mais os mesmos. Ainda citando o mestre Caymmi, a jangada voltou só; o sujeito insuportavelmente chato e reclamão que chegara naquela varanda minutos antes, afundou no oceano e foi despedaçado por tubarões (que devem ter tido uma baita diarréia depois). O novo “eu” voltou para o quarto, lavou o rosto e desceu para tomar café com a alma pacificada e feliz. Não me perguntem como, nem porque; só sei que foi assim, diria o impagável personagem mentiroso representado por Selton Mello no filme “O Auto da Compadecida”.
Nem preciso dizer que, dali em diante, tudo deu certo. Logo apareceu no hotel um anjo chamado Andréia, enviado pela organização do curso (e pelos céus, tenho certeza) que, com aquela doce simpatia das nordestinas, arrumou soluções para todos os problemas da sala; as aulas transcorreram bem, a turma era ótima. E o toque divino se estendeu até os cozinheiros do hotel, que acertaram a mão e fizeram um almoço elogiado por todos nós.
Domingo, antes de embarcar de volta para casa, fui me despedir da varanda que serviu de cenário para o meu pequeno milagre. E o verso que me veio à cabeça desta vez foi de Renato Teixeira, nosso querido caipira-Pirapora-Nossa Senhora de Aparecida; “cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz... E ser feliz”.
Tenho certeza que meu mentor estava satisfeito. Ele, com o auxílio dos poetas, estes grandes mensageiros de Deus, cumprira com louvor a sua missão; fazer com que este discípulo imbecil entendesse que ser feliz é uma opção, quase uma obrigação, no meu caso. Captei vossa mensagem, divino Mestre! E posso dizer que “hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe, e só levo a certeza de que muito pouco eu sei... Eu nada sei”.
Amém.
O curso era no próprio hotel, o que é ótimo, porque economiza o tempo para deslocamentos e, quase sempre, é possível subir ao quarto e dar uma descansada no intervalo de almoço. Chegando ao local, desanimei um pouco; ficava lá pros lados da Lubnor (quem conhece Fortaleza sabe que ali não é o melhor pedaço da orla). Daí prá frente, só decepções; quarto precisando de uma boa faxina, ar condicionado barulhento, problemas com a água quente do chuveiro... Pior ainda; o hotel era vizinho de uma espécie de vila de pescadores cuja gente, vista na luz difusa do entardecer, me pareceu ameaçadora e mal-encarada. Abandonando a idéia da caminhada noturna pela orla e do jantar fora, pedi comida do próprio hotel. Só que não era mesmo o meu dia; o filé de frango esturricado, acompanhado de uma massa grudenta, só fez piorar o meu humor (e olha que não sou do tipo que reclama de comida). As más notícias continuaram quando resolvi inspecionar o “Salão de Convenções”, onde aconteceria o curso; a iluminação era péssima, as cadeiras desconfortáveis, o som não funcionou... Para completar meu dia de cão, o pessoal da organização do curso não apareceu e nem deu notícias.
Fui dormir maldizendo a vida, e jurando que nunca mais ia entrar em outra fria destas. Tive pesadelos com o curso, com a sala, com a avaliação dos alunos... Como sou madrugador por natureza, acordei bem antes do início do horário de café da manhã do hotel e fiquei remoendo meu mau humor (que, com a fome, ficou muito pior, é claro). De repente, um barulho ao longe, parecendo fogos de artifício, me deixou curioso. Eu não sabia, mas ia começar uma das maiores lições que recebi na vida.
Sonolento e rabugento, fiquei algum tempo parado na varanda tentando acostumar os olhos à claridade da manhã cearense. Quando finalmente consegui enxergar direito, o espetáculo que se ofereceu foi de uma beleza rara; num mar azul claro, diversos barquinhos e jangadas seguiam um barco um pouco maior, enfeitado com bandeirinhas, que carregava o que parecia ser a imagem de uma santa. Os fogos vinham dali. E a melhor parte veio quando olhei para a praia; aqueles caras que na noite anterior me pareciam estranhos e agressivos estavam lá, acompanhados das mulheres e filhos, todos vestindo suas melhores roupinhas, embarcando sorridentes para se juntarem à procissão.
A “viagem” que aconteceu comigo a seguir eu nunca consegui entender, e é ate difícil de contar. A visão das jangadas no mar começou a ser embalada por uma canção de Dorival Caymmi, que não sei se era cantada pelo pessoal ou se vinha do meu próprio delírio; “Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer”... Senti a recordação agradável que esta música sempre me trouxe, de um passeio com a minha turma do colégio na praia de Atlântida, lá pelos meus quinze anos de idade (esclarecimento importante; esta Atlântida fica no litoral gaúcho, não é o continente perdido. Minha viagem não foi tão louca assim). Ato contínuo, desandei a chorar. E foi então que ouvi, claramente, a divina mensagem; “Ta reclamando de que? Você veio aqui trabalhar, está sendo muito bem pago, e vai ficar de frescura porque a comidinha não está boa, porque a água está fria? Olha prá esta turma aí embaixo! Não sabem o que é ar condicionado, não ganham metade do teu salário, e ninguém ta com esta cara de babaca! Entendeu, sua bichinha mimada? Faz o teu trabalho direito e pára de reclamar, porra!”. Sem dúvida, era o meu mentor espiritual; afinal, um cara que nem eu jamais mereceria um mentor bonzinho, muito menos politicamente correto. O sacana estava me dando um esporro, o recado que ele trazia de Deus era curto e grosso, exatamente o que eu precisava ouvir naquela hora. Afinal, todo mundo sabe que Ele não erra.
Meu transe durou uns quinze minutos. Eu olhava a cena, chorava e me xingava, olhava de novo, chorava mais ainda e me xingava em dobro. Quando finalmente consegui readquirir um mínimo de autocontrole, o hotel, a vida e o mundo não eram mais os mesmos. Ainda citando o mestre Caymmi, a jangada voltou só; o sujeito insuportavelmente chato e reclamão que chegara naquela varanda minutos antes, afundou no oceano e foi despedaçado por tubarões (que devem ter tido uma baita diarréia depois). O novo “eu” voltou para o quarto, lavou o rosto e desceu para tomar café com a alma pacificada e feliz. Não me perguntem como, nem porque; só sei que foi assim, diria o impagável personagem mentiroso representado por Selton Mello no filme “O Auto da Compadecida”.
Nem preciso dizer que, dali em diante, tudo deu certo. Logo apareceu no hotel um anjo chamado Andréia, enviado pela organização do curso (e pelos céus, tenho certeza) que, com aquela doce simpatia das nordestinas, arrumou soluções para todos os problemas da sala; as aulas transcorreram bem, a turma era ótima. E o toque divino se estendeu até os cozinheiros do hotel, que acertaram a mão e fizeram um almoço elogiado por todos nós.
Domingo, antes de embarcar de volta para casa, fui me despedir da varanda que serviu de cenário para o meu pequeno milagre. E o verso que me veio à cabeça desta vez foi de Renato Teixeira, nosso querido caipira-Pirapora-Nossa Senhora de Aparecida; “cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz... E ser feliz”.
Tenho certeza que meu mentor estava satisfeito. Ele, com o auxílio dos poetas, estes grandes mensageiros de Deus, cumprira com louvor a sua missão; fazer com que este discípulo imbecil entendesse que ser feliz é uma opção, quase uma obrigação, no meu caso. Captei vossa mensagem, divino Mestre! E posso dizer que “hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe, e só levo a certeza de que muito pouco eu sei... Eu nada sei”.
Amém.
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