quarta-feira, 10 de abril de 2013

Don Calavera ataca outra vez


    
Quem acompanha este blog (se é que alguém acompanha), conhece a história de Don Calavera, meu profeta e guru espiritual, que já foi personagem de dois posts anteriores. Só que ontem ele resolveu aparecer completamente fora de hora. Quando dei por mim estava na mesa da taverna, as taças de vinho na nossa frente, e ele mais agitado do que o habitual;
            - Mira, vos, onde consigo um título de eleitor no Brasil?
            - Como assim, Don Calavera? Você não é nem brasileiro, vive nos sacaneando, e agora quer votar aqui?
            Na pressa de falar, ele quase se engasgou com o vinho;
            - Porque no te callas? Quiero votar neste tal Pastor Feliciano. Para qualquer cargo que ele se candidatar; deputado, senador, presidente... Feliciano es el cara!!
            Don Calavera nunca foi exatamente um sujeito normal, mas agora acreditei que tinha enlouquecido de vez. Tentei argumentar;
            - Vamos devagar, Don Calavera. Feliciano é um pastor radical, seguramente se soubesse que você é um espírito desencarnado e está conversando comigo já mandaria nós dois para a fogueira, no mínimo...
            Don Calavera quase pulou no meu pescoço;
            - Tu és um tonto, mismo! Viste o que ele disse ontem?
            - Até onde sei, ele disse que aceitava sair da comissão de direitos humanos se os mensaleiros do PT (Genoíno e João Paulo Cunha) também abandonassem a comissão de justiça...
            - Entonces!!! No conseguiste entender que esta es una sacada de gênio?
            - Desculpe, Don Calavera, mas achei que foi um golpe baixo...
            - Dios mio, tu és mesmo uma virgem en el cabaré... Existe algum golpe baixo na política brasileira? Como pode se falar em golpe baixo se o nível moral é zero? Existe alguma coisa mais baixa que zero?
            - Você quer dizer que...
            - Bueno, me voy a explicar bem devagar porque sei que tua inteligência é muy limitada...
            Realmente, a marra dele é insuportável.
            - Mira vos; Feliciano, Genoíno, João Paulo e todos os outros pertencem a la misma laia; a dos representantes legítimos del pueblo brasileiro. Em otras palabras; se o Feliciano está lá, é porque recebeu os votos de um monte de gente que é racista e homofóbica que nem ele, así como os outros são safados que representam milhares de safados que, infelizmente, nunca tiveram a chance de dar um grande golpe, e tem que se satisfazer fazendo “gatos” de luz, oferecendo dinheiro para o guarda não multá-lo, falsificando recibos médicos para não pagar impostos...
            - OK, entendo. Cada povo tem o governo que merece...
            - Fenômeno! Finalmente conseguiste entender alguna cosa...
            Eu já estava quase pedindo para sair, mas ele tinha que fechar o raciocínio;
            - Asi, mi amigo, Feliciano colocou finalmente a grande question que o povo brasileiro terá que responder, já que es impossible sonhar com um governo honesto, por la simples razon que ustedes acham que gente honesta é babaca e não deve ocupar cargos eletivos. Sobram duas opções; ou um fanático religioso, homofóbico e racista que, pelo menos, é sincero na hora de arrancar o dinheiro alheio (pede o cartão e a senha educadamente, em nome de Deus), ou um bando de lobos fantasiados de ovelhas “politicamente corretas”, cheios de ideologias e discursos bonitos, mas que meteram a mão no dinheiro público como “nunca antes se fez na história deste país” (creo que esta frase era de alguien ligado a eles, quien mismo?).
            Don Calavera parou para tomar um gole de vinho. Estava tão frenético que nem notou que já falava quase tudo em português. E aí veio o golpe final;
            - E Yo hice mi escolha; Feliciano - 2014!  Nada mais lógico!
            Sem me dar tempo de dizer nada levantou da mesa apressado, tomou o último gole de vinho já em pé e começou a desfraldar uma bandeira azul e grená;
            - Desculpe-me, mas estoy atrasado para el juego de Barça – vamos a ganar de estos franceses ridículos, principalmente o tal Ibra, com aquele penteado de maricón...
            E saiu entoando gritos de guerra em catalão, rumo ao Camp Nou.
            Fiquei aqui, com a conta na mão e pensando no que ele falou. E o mais triste foi ter que admitir que, lá no fundo, o raciocínio todo é bem coerente... Quem viver, verá.
            Hasta la vista, Don Calavera!

terça-feira, 19 de março de 2013

O “CAUSO” DO JAPONÊS INCONVENIENTE


Esta quem me contou foi meu amigo Diomedes Cesário da Silva, colega da velha guarda da engenharia básica do CENPES (Centro de Pesquisas da Petrobras), uma das pessoas mais inteligentes que conheço e que tem uma visão crítica e irônica do mundo corporativo com a qual eu me identifico muito.
O “causo” aconteceu lá pelo final dos anos 80. Estávamos no auge da “febre da qualidade total”, e este era o assunto único nas conversas dos gerentes da época.  Na Petrobras estávamos buscando todas as padronizações e certificações possíveis, as normas ISO eram a nossa Bíblia, e Juran e Deming os nossos profetas, os famosos CCQ (Círculos de Controle da Qualidade) funcionavam a todo vapor, enfim, qualidade era a palavra de ordem.
E aí alguém teve a brilhante ideia de chamar para uma visita ao CENPES um dos grandes gurus da qualidade – ninguém menos que o japonês Kaoru Ishikawa, o homem do diagrama causa-efeito, um dos mais conhecidos e respeitados nomes do ramo.
Pois o nosso bom Ishikawa passou o dia todo assistindo apresentações de diversas áreas da empresa, todo mundo fazendo questão de mostrar as suas padronizações, os seus procedimentos e aquele papo todo. O japa assistiu a tudo calado, com aquele ar enigmático que só um oriental consegue ter (na verdade, a gente nunca sabe se ele está profundamente concentrado ou se está dormindo, mesmo), até que, no final, pediram a opinião dele.
Diz o Diomedes que o cara olhou, pensou um pouquinho, e falou algo do tipo; OK, pessoal, muito bom tudo isto, mas...o que vocês apresentaram aqui eu já conheço, está nos livros, inclusive nos que eu mesmo escrevi. O que eu gostaria de perguntar é; qual foi a melhora nos resultados de vocês a partir da aplicação destas práticas?
Ainda segundo a narrativa do Diomedes, o que se seguiu foi um silêncio constrangedor. Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, alguém conseguiu emendar algo do tipo “estamos começando agora, ainda não foi possível aferir”, enfim, uma conversa estilo Rolando Lero, o imortal personagem da escolinha do não menos imortal Professor Raimundo, o grande Chico Anysio. Completando a história, diz a lenda que, durante muito tempo, os gerentes da qualidade do CENPES se referiram ao mestre Ishikawa como “aquele japonês inconveniente”...
Hoje, quando penso no “boom” do gerenciamento de projetos nos últimos anos, esta historinha deliciosa me parece mais atual do que nunca. Afinal, de uns dez anos para cá, a Petrobras passou de meia dúzia de PMPs (eu, que me certifiquei em novembro/2001, fui um dos pioneiros) para algumas centenas, tivemos no Brasil uma proliferação de cursos de MBA, pós-graduação, criamos dezenas de “chapters” do PMI, e quais foram os resultados? Projetos atrasadíssimos, orçamentos estourados, escopos mal definidos, enfim, estamos pagando mico perante o mundo todo, tanto nas novas refinarias como na Copa, Olimpíadas, e por aí vai.
Isto significa que esta história de gerenciamento de projetos e qualidade total não passa de uma papagaiada, destinada apenas a enriquecer alguns consultores? É claro que não. É provado que as boas práticas do PMI melhoraram os resultados de milhares de projetos no mundo todo, da mesma forma que a correta aplicação dos princípios da qualidade total transformou o destroçado Japão do pós-guerra em uma potência mundial de primeira linha em pouco mais de duas décadas.
Qual é o problema, então? Responder a esta pergunta vai exigir pelo menos um post inteiro, na verdade talvez uma tese de mestrado ou um livro. Numa visão simplista e resumida, acredito que nós, brasileiros, continuamos os mesmos índios de tanga, querendo bugigangas, que Cabral encontrou  há cinco séculos. Damos um valor imenso a quem é bom em fingir, enganar, falar bonito; adoramos enfeitar nossos nomes com títulos e certificações (você sabe com quem está falando? José Mané, PMP, IPMA, MBA, Msc, PhD e mais sei lá o quê). Só que nos sentimos mortalmente ofendidos quando alguém cobra resultados.  Isto nos diferencia profundamente dos povos "pragmáticos", como americanos, alemães e japoneses, por exemplo. E é só ver onde eles chegaram e onde nós estamos para ver qual das duas abordagens é melhor.
Enfim, pretendo ir mais adiante nesta análise em um próximo post, porque este já ficou muito grande.
Até a próxima!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Santa Maria e a minha dor

 Confesso que só agora, um mês depois da tragédia, consegui escrever alguma coisa sobre Santa Maria.
Quem me conhece há algum tempo sabe da minha relação afetiva com esta cidade, terra da minha mãe, da casa da Vó Tina (na rua André Marques, em frente à pracinha), do Sítio do Pinhal, dos melhores momentos da minha infância. E a cidade onde, mais tarde, voltei para disputar (e ganhar) dois torneios de vôlei, o primeiro em 1970 pelo Colégio de Aplicação, e o segundo em 1973, pela equipe da Escola de Engenharia da UFRGS. Não pensem que eu fui um grande jogador, muito pelo contrário, eu nunca passei de um medíocre esforçado. No  Aplicação-70 eu era um mero colaborador dos craques do time,  o “Nêgo” Ciro Sirângelo, o “Gordo” Renan Oliveira, Mauro Penter, Renato Futuro e outros.  Naqueles felizes tempos nem se sonhava com a neurose politicamente correta de hoje, e todo mundo tinha algum apelido depreciativo (antes que perguntem, o meu era “Caveira”). E a gente sobreviveu sem maiores traumas... Guardo com carinho esta foto, tirada pelo Roberto Giugliani, que só não foi fotógrafo profissional porque a vida o transformou em um médico dos bons. O magrelo de camiseta branca, tentando acertar a bola, sou (fui) eu. O time era comandado com mão de ferro pelo professor Jaime Werner dos Reis, o “Peixinho”, que me transmitiu lições sobre o valor da disciplina e do treinamento que utilizo até hoje nas minhas aulas e palestras.
Um pouco mais tarde, em 1973, já na escola de Engenharia, eu completava uma equipe onde brilhavam o Hugo Pinto Ribeiro, Duio Fossati, Ricardo Felizola e mais alguns. Foi esta a última vez em que estive em Santa Maria. Afinal, dois anos depois me formei engenheiro, passei no concurso para a Petrobras e vim parar no Rio de Janeiro, onde nasceram meus dois filhos e estou radicado até hoje. Não perdi contato com o pessoal de Santa Maria, encontrei em algumas ocasiões esparsas meus primos Walter, Marlene e Marta, que vivem lá até hoje, com seus filhos e netos. Mas a prometida volta foi sempre adiada...
Por coincidência, foi de Santa Maria que veio para o Rio de Janeiro um dos personagens mais importantes da história recente desta cidade; o secretário de segurança José Mariano Beltrame. Lembro da profecia da minha mãe, no dia em que ele tomou posse; “Agora o Rio vai tomar jeito. Chamaram um cara de Santa Maria...”. Na época a gente riu muito disto; eu só não esperava é que o “cara de Santa Maria” fosse tão bom. E sempre que converso com amigos e colegas sobre as melhoras evidentes da segurança na cidade nos últimos anos, nunca deixo de dizer, com orgulho; precisou chamar um cara de Santa Maria...
Mais uma; enganei vários amigos metidos a entender de futebol, perguntando qual o primeiro jogador gaúcho campeão do mundo com a seleção brasileira. E dava logo uma dica; era lateral esquerdo. “Foi o Everaldo, em 1970”, respondiam sempre. Errado, dizia eu, feliz da vida. E demonstrava meu teorema; quem era o lateral esquerdo do primeiro título do Brasil, em 1958? O grande Nilton Santos, todos sabem. E o reserva dele? Aí, normalmente, eles se atrapalhavam. E eu liquidava o jogo; era o Oreco, jogador do Corinthians, gaúcho de onde, mesmo? Santa Maria, é claro! Não chegou a jogar (afinal, ser reserva do maior jogador de defesa de todos os tempos não envergonha a biografia de ninguém), mas foi campeão do mundo. Doze anos antes do Everaldo.
Enfim, se existe um lugar que, na minha memória afetiva, sempre esteve associado à palavra “felicidade”, este lugar é Santa Maria. E o fato de não ir lá há quase quarenta anos na verdade até ajudava; afinal, as recordações traziam o gosto da juventude, e talvez fosse melhor mesmo que a cidade nunca conhecesse o sexagenário barrigudo e careca de hoje, guardando para sempre a imagem do jovem atlético e campeão.
Tudo isto acabou no trágico domingo da boate Kiss. As minhas melhores lembranças foram embora, para sempre; afinal, por mais anos de vida que Deus ainda queira me conceder, sei que nunca mais vou recordar Santa Maria com um sorriso feliz, como antes.
O genial Carlos Drummond de Andrade, no seu poema “Confidência do Itabirano”, descrevia assim a saudade de sua cidade; “Itabira é apenas uma fotografia na parede – mas como dói”. Hoje, posso dizer que Santa Maria é apenas uma imagem na tela do meu computador. Só que, pedindo desculpas ao poeta, tenho que dizer que a minha dor é muito maior. E é para sempre.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A VOLTA (TRIUNFAL) DE DON CALAVÊRA



            Em janeiro do ano passado publiquei, neste mesmo blog, um post com as previsões para 2012, ditadas por meu guru espiritual, Don Calavêra, um nobre espanhol contemporâneo de Don Quixote e Sancho Pança (para maiores detalhes favor ver o post, no link http://www.causosdoherve.blogspot.com.br/2012/01/previsoes-mal-humoradas-para-2012.html).
            Don Calavêra acertou em cheio duas de três previsões, o que é um índice muito alto para um profeta. Levando-se em conta que ele é marrento por natureza, fiquei com as piores expectativas para o nosso encontro deste ano – e elas se confirmaram.
            Ele já chegou falando alto, entornando a primeira taça de vinho, e garantindo que a única previsão que errou (sobre a queda do mercado imobiliário) ainda está no prazo de validade;
            - Te disse que no daria dos años para que los precios desabem... solamente pasó un año. Vai despencar, não tenha dúvida!
            Tive que admitir que meu guru acertou quase tudo.
            - É verdade. A Petrobras perdeu valor, e o nosso amigo Eike já não é mais nem o mais rico do Brasil. Não tenho porque duvidar dos teus dons de profeta. Pode deixar que não vou comprar apartamento, mesmo porque não posso...
            - E quieres saber más? Esto es solamente la pontita del iceberg... Realmente, foi uma pena para vocês que o mundo não tenha acabado em 2012.
            - A coisa vai ser tão feia assim, don Calavêra?
            Eu não devia ter perguntado. Don Calavêra só ficou calado o tempo suficiente para terminar um gole de vinho, e disparou logo sua metralhadora giratória;
            - Mucho peor! As obras da Copa vão atrasar mais ainda, e os custos subirão a la estratosfera! Ustedes van a pagar por estas brincadeiras até o século XXII. A classe emergente vai começar a perder o fôlego. El gobierno de los obreros vai tentar maquiar todos los índices de inflação. Los industriales van a parar de investir. Los mensaleros vão cumprir alguns dias de prisão, e logo estarán de volta, nos braços del pueblo. Ustedes não aprendem... Despues que España ganar la Copa de las Confederaciones e la Copa del Mundo, todas las ilusiones estaran acabadas.O caos é o limite...
            - Bom, tentei argumentar, ainda temos o pré-sal, os grandes projetos de infraestrutura, as Olimpíadas...
            Don Calavêra deu uma gargalhada tão forte que quase caiu no chão.
            - Usted es impagable! Nem Chaves e Chapolim juntos conseguem ser tão engraçados! Acreditas mismo que alguma coisa vai andar neste su pais? Lembre-se que, aqui, para cada organização que quer executar um projeto, existem pelo menos trinta órgãos do governo, ONGs e outros malucos que quieren parar tudo? Primeiro serão os índios, depois os defensores da natureza, depués os tradicionalistas... Toda a obra de vocês custa mucho más caro e leva mucho más tiempo que em qualquer outro lugar...
            Confesso que já estava ficando incomodado com a marra de dom Calavêra. Arrisquei uma provocação para ver se conseguia desestabilizá-lo um pouco, mas não adiantou muito;
            - Do jeito que falas, parece que tua Espanha está muito melhor...
            - Estamos nos recuperando! Temos milhares de años de civilização! Não puedes tentar comparar a nossa riqueza cultural com os teus emergentes endividados...
            Definitivamente, não tinha mais jeito. Senti que ele ia embora, e ainda tentei uma última esperança;
            - Escuta, don Calavêra, pelo menos para o meu Grêmio há alguma esperança?
            A resposta dele veio com a força arrasadora de um saque do seu conterrâneo Rafael Nadal;
            - Desculpa, amigo, mas agora não posso perder tempo falando de medíocres. Creo que teniemos um juego de Barcelona daqui a pouco... Ya me voy a el Camp Nou! Quando ustedes tiverem em campo quatro jugadores como Messi, Iniesta, Xavi e Fabregas me vuelvo para conversarmos sobre futbol...
            Disse isto e levantou correndo, deixando, mais uma vez, a conta para mim.
            Bem, estão são as previsões (péssimas, por sinal) de Don Calavêra. E o pior é que, no ano passado, ele não errou uma...
            Quem viver, verá!
            Hasta la vista, Don Calavêra!
           

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Cássio, o Corinthians, o Grêmio e as análises de riscos

As conquistas da Libertadores e do Mundial de Clubes pelo Corinthians fizeram de 2012 um ano especial para os malucos por futebol, como é o caso deste escriba. Esclareço, desde logo, que, embora todas as tormentas que frequentam o coração dos fanáticos, eu fiz a escolha pelo “bando de loucos” desde a eliminação do Vasco (para decepção do meu filho); senti que aquele time ia até o fim. E um dos fatores que me fez decidir torcer pelo Corinthians foi um personagem com uma história digna de um filme; o goleiro Cássio.

Cássio foi uma surpresa para boa parte dos torcedores brasileiros, mas os gremistas, como é o meu caso, já o conheciam de longa data. Cássio surgiu nas categorias de base do Grêmio lá por 2003, descoberto por acaso num amistoso dos juniores contra um time de Veranópolis, enfim, aquela típica história do menino pobre que de repente tem uma oportunidade de ouro pela frente. Ele logo se destacou, e foi titular de várias seleções brasileiras de sub-qualquer coisa. Profissionalizado em 2006, não chegou a se firmar como titular do time, mas seu potencial era tão grande que chamou a atenção de empresários europeus e, no final de 2007, o Grêmio ficou diante de uma típica situação de análise de riscos; recebeu uma boa proposta pelo jovem craque, à época com 20 anos.

Cheguei a usar este exemplo em sala de aula; um clube tem um ativo interessante, um jogador jovem, com um potencial enorme, que algum dia poderá valer muitos milhões; só que é preciso levar em conta todos os riscos da profissão (todo o torcedor conhece dezenas de histórias de jogadores que eram considerados gênios nas categorias de base e nunca se firmaram no profissional). De repente, surge uma oferta boa. Vender hoje, ou investir nele? Dá até para calcular o VPL disto tudo. Em tempo; antes que algum chato politicamente correto venha me dizer que estou tratando o jogador como mercadoria, eu aproveito e digo; gafanhoto, meu filho, o mundo real é assim. Não só jogadores de futebol; todos nós somos “commodities”, e temos nosso valor de mercado. Se você não sabia disto, só posso lamentar. Welcome to the jungle, my son. E, por favor, me deixe continuar contando o “causo”.

O fato é que o Grêmio escolheu vender, e ele ficou alguns anos no ostracismo em um time holandês. Confesso que eu nem sabia que ele tinha voltado para o Brasil, e estava como terceiro goleiro do Corinthians. Só que, quando eu soube que ele assumiria o posto de titular no perigoso jogo com o Emelec, comecei a apostar minhas fichas no Corinthians (é pena que não tenha testemunhas; só comentei com meu filho e alguns amigos). O resto é história. Belíssima história, por sinal.

O causo podia fechar por aqui; quanto vale o Cássio hoje? Quanto o Grêmio perdeu na decisão que tomou? Quanto o Corinthians ganhou? E se ele tivesse ficado no Grêmio, como seria a história? Enfim, dá para fazer várias análises. E, só para apimentar um pouco a discussão, o Grêmio agora resolveu investir num goleiro (Dida) que tem inegáveis qualidades, uma história de respeito, mas está com quase quarenta anos... Enfim, são estes “causos” que me fazem um fanático por futebol. E por análise de riscos, é claro.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O meu conto de natal

Pessoal, agora é hora de esquecer o gerenciamento de projetos, a política, a cultura, e até o futebol (como se isto fosse possível). E vou encher o saco de vocês com a minha visão do natal, num conto que escrevi há algum tempo. Pode parecer meio depressivo para alguns, mas é o que eu vejo. E contem uma mensagem de amor - meio sutil demais, vá lá, mas é uma mensagem de amor e fraternidade.
Um bom natal prá todos nós!

Um filho de Deus


- É preciso amar/ as pessoas/ como se não houvesse amanhã...

A voz de um morto. Um morto, no rádio do carro, dizendo que é preciso amar as pessoas - e ainda por cima como se não houvesse amanhã. Um maluco, drogado, que morreu de AIDS... Bom, este, pelo menos, já resolveu a vida dele. Para mim, existe amanhã. Infelizmente. E, pior ainda, amanhã é Natal.

Dirigir um táxi, no dia de Natal... Só pode ser coisa de corno. Além de corno, endividado. É preciso pagar o aluguel, pagar as contas, pagar a diária, pagar os remédios, pagar o presente dos filhos (e alguém agüenta olhar para a cara deles e dizer que está sem grana?). É preciso amar, as pessoas... Será?

Dirigir um táxi, no Rio de Janeiro... Eu devia ter estudado. Ou ter jogado futebol, ou ter feito alguma coisa na vida... Mas agora não dá prá pensar nisto. Correr perigo na Linha Vermelha, na Linha Amarela, no Aterro, em cada sinal, em cada passageiro... Aquela mão estendida pode ser o pão nosso de cada dia ou o fim da féria, o fim da vida... Precisava ter lido sobre aquele motorista de táxi que os traficantes executaram na Tijuca?

Mas agora não dá para pensar. Afinal, podia ser pior. Mais um sinal vermelho, mais daqueles meninos fazendo malabarismos, no dia de Natal, quem é que agüenta? As mãozinhas estendidas, meu filho, não tenho trocado, o passageiro se encolhendo no banco de trás e vociferando “são bandidos, vivem cheirando cola, onde está a polícia que não faz nada...”. Será que é possível amar estas pessoas? Aquele bando vindo ali, uma menina grávida no meio deles, quase uma criança carregando outra na barriga, ainda têm disposição prá sacanagem, os desgraçados...

Não dá para pensar muito. O dia vai raiar daqui a pouco, mal deu prá pagar a diária, hoje ainda tem o jantar na casa da sogra, com aqueles parentes chatos da mulher, toda aquela pentelhação... Gente que bebe demais, fala alto demais, gosta de pagode demais, no ano que vem juro que dou um jeito de juntar dinheiro para ir prá casa do meu pai, lá em Minas... Coitado do velho vai ficar naquela tristeza toda, desde que mamãe morreu ele sempre fica assim, no ano que vem vou lá, nem que seja sozinho, que se foda minha mulher e toda a família dela...Os meus filhos vão ter que entender... Sei lá...

De novo na mesma esquina. Os mesmos meninos, bandidos, infelizes, drogados. Só que tem alguma coisa acontecendo... Paro o carro num impulso. Deitada na calçada, a menina grávida, os outros apavorados em volta, mais meninos e menos bandidos do que nunca, será que ninguém vai ajudar? Tenho experiência, já levei muita mulher em trabalho de parto para o hospital antes. Só que agora não tem mais tempo para nada; o bebê já está saindo. Ainda ouço, no fundo da cabeça, a voz chata da minha mulher dizendo “porque você foi se meter nisto...” mas não posso mais parar. Tento pegar uma toalha no carro, mas o bichinho já está nos meus braços, berrando. Corto o cordão umbilical com um canivete velho, meus gestos são mecânicos, estou com sono, porque fui me meter nesta? Lembro de um médico que levei pro Miguel Couto um dia, me dizendo que este pessoal não pega infecção, tem imunidade completa, só que eu podia pelo menos ter limpado o canivete... Bem, azar, agora já foi. Serviço terminado, o dia clareando, o moleque berrando nos meus braços, porque me deu esta coisa de chorar de repente?

Mais um esfomeado no Mundo... prá nos assaltar, prá cheirar cola, prá ser vítima de bala perdida, prá perder pênalti em final de campeonato... Mais um filho da puta prá atrapalhar a nossa vida, prá ser avião de traficante, prá bolinar a professora, prá estuprar, matar, morrer...

Mais um filho da puta no Mundo! Sem fralda, sem teto, sem terra, sem vergonha, sujando minha roupa com esta porra deste sangue, minha mulher vai me matar quando eu chegar em casa, mais um desgraçado prá compartilhar da nossa sujeira, da nossa fome, da nossa injustiça...

Tudo, menos dizer que alguém pode olhar nos olhos desta coisinha de forma quase humana, querer pensar em se apaixonar por um filho da puta destes, e ficar aqui como um ridículo, abraçado neste filhote de coisa nenhuma, chorando feito um babaca...

Já é dia claro. Viro as costas para a cena. A vida não é um conto de Natal, não vai ter milagre nem presente, muito menos estrela de Belém, os reis magos não vão aparecer, nem se dignar a mandar um recado, dando a desculpa de que ficaram presos no engarrafamento. Quase jogo o moleque nos braços da mãe, que balbucia um “obrigado, moço”. Não vou levar ninguém para a porra de hospital nenhum. Deixo o filho da puta com a puta que o pariu, cercado dos filhos da puta que vão conviver com ele. E eu – o maior filho da puta de todos – vou voltar para casa, tirar esta maldita roupa suja do sangue fedorento deste filhote de coisa ruim, e ainda ouvir um sermão da minha mulher. Um bando de infelizes que a vida juntou num momento de merda, chafurdando na miséria humana, na desgraça de uma cidade desgraçada.

A música no rádio insiste em dizer que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Se eu não parar de chorar vou acabar batendo com o carro, e aí vai ser muito pior. Será que eu ajudei no parto do Menino Jesus? Deixa de ser burro, seu babaca, era só mais um filho da puta!

É dia de Natal. O locutor agora fala em amar o próximo como a si mesmo. Eu sei que é só uma propaganda a mais, mas de repente tudo começa a fazer sentido, na minha cabeça que já raciocina com dificuldade (preciso chegar logo em casa, tô morrendo de sono); é preciso amar as pessoas, amar o próximo - mesmo que ele seja um filho da puta. Sim, porque eu também sou um filho da puta. É o milagre de Natal; todos somos filhos de Deus. Inclusive – especialmente, talvez – os filhos da puta. Como este desgraçado, sem nome, sem teto, que eu ajudei a botar neste Mundo, e que talvez vá me assaltar e me matar um dia. Ter amor por quem a gente odeia, por quem odeia a gente. Como este filho da puta que acaba de cortar a minha frente – só faltava bater com o carro, agora!

O sol está forte, o calor já começa a incomodar. E eu vou ter que dormir suando, porque o ar condicionado do quarto está quebrado e eu não tenho dinheiro prá consertar. Pior que eu, só o menino Jesus e a mãe dele, que vão ficar ali pela rua mesmo. É dia de Natal. Na esquina, um cartaz qualquer fala em paz na Terra aos homens de boa vontade – e fico pensando se isto inclui todos os filhos da puta. Como eu e este moleque, e a mãe dele, e os outros do bando, e até a minha mulher, que vai me encher o saco quando eu chegar em casa, e toda a família dela. Todos nós.

Estou chegando em casa. Meus olhos estão vermelhos, de choro e de sono. Vou tirar esta roupa, vou dormir, a vida vai recomeçar. O menino Jesus vai passar o seu primeiro dia neste Mundo, nesta rua, neste calor. Não vai ser fácil para ele, não é fácil para mim. Mas é preciso amar, ter esperança, mais um ano vai, mais um ano vem... Não consigo nem pensar mais. O locutor no rádio começa a rezar a Ave Maria. Dentro da minha mente, as palavras se completam. Santa Maria, mãe de Jesus, rogai por nós, os filhos da puta. Os filhos de Deus.

Amém.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Quem não se comunica...



Um dos poucos elogios que lembro de ter recebido ao longo de minha vida profissional foi com relação a uma suposta habilidade que eu possuiria de me “expressar bem”, ou "comunicar bem". Não sei se fui merecedor dos elogios mas posso dizer que sempre tive uma grande preocupação com isto; acho que uma boa capacidade de comunicação é, hoje, uma vantagem competitiva importante, principalmente depois que a internet tornou tudo praticamente instantâneo.

Tentando estabelecer alguns conceitos sobre o assunto, vamos começar do começo; não custa lembrar que o verbo “comunicar” vem do latim “communicare”, que significa “tornar comum”. Assim sendo, uma comunicação pode ser considerada eficiente quando todos conseguem chegar a um entendimento comum sobre um determinado assunto. E qual o segredo para que todos cheguem a este entendimento? É claro que eu não tenho a resposta, mas estabeleci para mim mesmo quatro mandamentos que compartilho com vocês (ninguém precisa concordar comigo, mas posso dizer que funcionam).

1 – Evitarás erros graves de português – todo mundo comete erros, mas tem certas coisas que são inaceitáveis. Até no LinkedIn (que, é um site de relacionamento profissional e, portanto, deveria ter um nível melhor do que blog de torcida de futebol, por exemplo) eu vejo coisas assustadoras, de vez em quando. Não custa nada prestar atenção na “hortografia” e “nas concordância” antes de enviar sua mensagem para o universo.

2 – Não complicarás a vida do teu próximo – tão ruim quanto um texto cheio de erros crassos é um texto confuso. Seja prático e objetivo, não misture fatos com opiniões, comece pelo começo e termine pela conclusão, que deve ser expressa de forma clara. Simples assim.

3 – Não enganarás o teu próximo – escrever bonito é para quem é do ramo, como Zuenir Ventura, Luis Fernando Veríssimo e outros deste calibre. Tem gente que adora inventar, enfia um “outrossim” no meio da frase, refere-se a si mesmo como “o signatário destas mal-traçadas” e por aí vai. Muito cuidado; o seu texto, que deveria ser profissional, pode ficar ridículo. Guarde as prosopopéias filosóficas para quando quiser impressionar as moçoilas assanhadas no Facebook.

4 – Respeitarás o saco alheio – texto bom é texto curto. Seja sempre conciso. Aliás, na verdade, este já está ficando muito longo para o meu gosto. Melhor parar por aqui.

Até o próximo post!