sábado, 28 de junho de 2014

O “CAUSO” DA MULTIPLICAÇÃO DE ALUNOS

Este causo ocorreu comigo em Juiz de Fora, há alguns anos. Era uma aula de “Gerenciamento da Comunicação em Projetos”, que fazia parte de um curso de MBA, e era ministrada em dois dias; sexta-feira à noite e sábado pela manhã. Ocorre que era o fim-de-semana do dia das Mães, e eu já me preparei para o fato que muitos alunos iriam faltar na aula de sábado, por conta de possíveis viagens.
Não deu outra; na aula de sexta-feira tivemos presença maciça, mas no sábado era possível notar claramente que o número de alunos era bem menor. Como passei um trabalho para ser feito na sala, pude verificar com exatidão o número de alunos presentes; vinte e dois (o total de alunos na turma era de mais ou menos quarenta). Ao final do trabalho houve um coffee break, aproveitei o intervalo para dar uma olhada na lista de chamada que eles haviam assinado e levei um susto; eram exatas 37 assinaturas! Ou seja; tínhamos quinze alunos-fantasmas na sala de aula.
Eu tinha poucos minutos para tomar uma decisão; deixar prá lá, dar uma chamada, ameaçar com punição, enfim, muita coisa me passou pela cabeça. Acabei achando uma solução que, sem modéstia, recomendo para todos os colegas que venham a passar por algo semelhante.
Fui até a secretaria e pedi uma cópia da lista de chamada. Quando os alunos voltaram para a sala, fechei a porta e falei, no tom mais sério que consegui;
- Pessoal, ocorreu um problema aqui na sala, mas, por mim, este assunto não vai passar daquela porta.
Senti que eles ficaram preocupados, peguei a lista de chamada na mão e continuei o teatrinho;
- Vocês acabaram de fazer o trabalho e assinaram. Eu tenho uma prova, fornecida por vocês mesmos, que existem 22 alunos nesta sala. E esta lista tem 37 assinaturas.
O silêncio na sala era completo. Daria prá ouvir o zumbido de um mosquito. Peguei um copo com um restinho de água dentro, e dei o golpe final;
- Fui à secretaria e contei que, acidentalmente, eu derramei água em cima da lista assinada por vocês, e ela ficou inutilizada (neste ponto, joguei a água na lista assinada, rasguei-a e coloquei no lixo). Pedi desculpas pelo incômodo, eles me deram esta lista nova e eu solicito a vocês que façam o favor de assinar novamente. Se esta lista voltar com 22 assinaturas, o caso acaba aqui. Se voltar com mais de 22, vou ter que tomar outras providências. Depende só de vocês. Fui claro?
Não preciso contar que a lista voltou exatamente com 22 assinaturas, e ninguém saiu chateado. Lição aprendida; todo aluno, no fundo, é uma criança. E brigar com criança é besteira, o negócio é ensinar. E ser criativo, sempre.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O DIA EM QUE RECEBI UM RECADO DE DEUS

Embora seja um sujeito extremamente crítico, ácido e irônico por natureza, também tenho o direito a um momento de pureza tipo “encontrei Jesus”, ou algo assim. Este “causo” aconteceu quando fui dar uma aula em Fortaleza, há uns sete ou oito anos, mais ou menos. Cheguei lá numa sexta-feira, para ministrar um curso que ocuparia o sábado todo e boa parte do domingo. É claro que uma viagem destas não é exatamente de lazer, mas mesmo assim sempre se arruma um tempinho para dar uma caminhada pela beira da praia, comer um bom pastel de camarão, enfim, desfrutar destes pequenos prazeres que tornam a vida mais agradável.
O curso era no próprio hotel, o que é ótimo, porque economiza o tempo para deslocamentos e, quase sempre, é possível subir ao quarto e dar uma descansada no intervalo de almoço. Chegando ao local, desanimei um pouco; ficava lá pros lados da Lubnor (quem conhece Fortaleza sabe que ali não é o melhor pedaço da orla). Daí prá frente, só decepções; quarto precisando de uma boa faxina, ar condicionado barulhento, problemas com a água quente do chuveiro... Pior ainda; o hotel era vizinho de uma espécie de vila de pescadores cuja gente, vista na luz difusa do entardecer, me pareceu ameaçadora e mal-encarada. Abandonando a idéia da caminhada noturna pela orla e do jantar fora, pedi comida do próprio hotel. Só que não era mesmo o meu dia; o filé de frango esturricado, acompanhado de uma massa grudenta, só fez piorar o meu humor (e olha que não sou do tipo que reclama de comida). As más notícias continuaram quando resolvi inspecionar o “Salão de Convenções”, onde aconteceria o curso; a iluminação era péssima, as cadeiras desconfortáveis, o som não funcionou... Para completar meu dia de cão, o pessoal da organização do curso não apareceu e nem deu notícias.
Fui dormir maldizendo a vida, e jurando que nunca mais ia entrar em outra fria destas. Tive pesadelos com o curso, com a sala, com a avaliação dos alunos... Como sou madrugador por natureza, acordei bem antes do início do horário de café da manhã do hotel e fiquei remoendo meu mau humor (que, com a fome, ficou muito pior, é claro). De repente, um barulho ao longe, parecendo fogos de artifício, me deixou curioso. Eu não sabia, mas ia começar uma das maiores lições que recebi na vida.
Sonolento e rabugento, fiquei algum tempo parado na varanda tentando acostumar os olhos à claridade da manhã cearense. Quando finalmente consegui enxergar direito, o espetáculo que se ofereceu foi de uma beleza rara; num mar azul claro, diversos barquinhos e jangadas seguiam um barco um pouco maior, enfeitado com bandeirinhas, que carregava o que parecia ser a imagem de uma santa. Os fogos vinham dali. E a melhor parte veio quando olhei para a praia; aqueles caras que na noite anterior me pareciam estranhos e agressivos estavam lá, acompanhados das mulheres e filhos, todos vestindo suas melhores roupinhas, embarcando sorridentes para se juntarem à procissão.
A “viagem” que aconteceu comigo a seguir eu nunca consegui entender, e é ate difícil de contar. A visão das jangadas no mar começou a ser embalada por uma canção de Dorival Caymmi, que não sei se era cantada pelo pessoal ou se vinha do meu próprio delírio; “Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer”... Senti a recordação agradável que esta música sempre me trouxe, de um passeio com a minha turma do colégio na praia de Atlântida, lá pelos meus quinze anos de idade (esclarecimento importante; esta Atlântida fica no litoral gaúcho, não é o continente perdido. Minha viagem não foi tão louca assim). Ato contínuo, desandei a chorar. E foi então que ouvi, claramente, a divina mensagem; “Ta reclamando de que? Você veio aqui trabalhar, está sendo muito bem pago, e vai ficar de frescura porque a comidinha não está boa, porque a água está fria? Olha prá esta turma aí embaixo! Não sabem o que é ar condicionado, não ganham metade do teu salário, e ninguém ta com esta cara de babaca! Entendeu, sua bichinha mimada? Faz o teu trabalho direito e pára de reclamar, porra!”. Sem dúvida, era o meu mentor espiritual; afinal, um cara que nem eu jamais mereceria um mentor bonzinho, muito menos politicamente correto. O sacana estava me dando um esporro, o recado que ele trazia de Deus era curto e grosso, exatamente o que eu precisava ouvir naquela hora. Afinal, todo mundo sabe que Ele não erra.
Meu transe durou uns quinze minutos. Eu olhava a cena, chorava e me xingava, olhava de novo, chorava mais ainda e me xingava em dobro. Quando finalmente consegui readquirir um mínimo de autocontrole, o hotel, a vida e o mundo não eram mais os mesmos. Ainda citando o mestre Caymmi, a jangada voltou só; o sujeito insuportavelmente chato e reclamão que chegara naquela varanda minutos antes, afundou no oceano e foi despedaçado por tubarões (que devem ter tido uma baita diarréia depois). O novo “eu” voltou para o quarto, lavou o rosto e desceu para tomar café com a alma pacificada e feliz. Não me perguntem como, nem porque; só sei que foi assim, diria o impagável personagem mentiroso representado por Selton Mello no filme “O Auto da Compadecida”.
Nem preciso dizer que, dali em diante, tudo deu certo. Logo apareceu no hotel um anjo chamado Andréia, enviado pela organização do curso (e pelos céus, tenho certeza) que, com aquela doce simpatia das nordestinas, arrumou soluções para todos os problemas da sala; as aulas transcorreram bem, a turma era ótima. E o toque divino se estendeu até os cozinheiros do hotel, que acertaram a mão e fizeram um almoço elogiado por todos nós.
Domingo, antes de embarcar de volta para casa, fui me despedir da varanda que serviu de cenário para o meu pequeno milagre. E o verso que me veio à cabeça desta vez foi de Renato Teixeira, nosso querido caipira-Pirapora-Nossa Senhora de Aparecida; “cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz... E ser feliz”.
Tenho certeza que meu mentor estava satisfeito. Ele, com o auxílio dos poetas, estes grandes mensageiros de Deus, cumprira com louvor a sua missão; fazer com que este discípulo imbecil entendesse que ser feliz é uma opção, quase uma obrigação, no meu caso. Captei vossa mensagem, divino Mestre! E posso dizer que “hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe, e só levo a certeza de que muito pouco eu sei... Eu nada sei”.
Amém.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Da série "meus pitacos no linkedin" - o causo da Curva S

Mais uma vez me meti nas intermináveis (e saudáveis) discussões no grupo de gerenciamento de projetos do LinkedIn.
O assunto era a importância da curva S e do gráfico de Gantt para o acompanhamento do projeto. A discussão estava, mais uma vez, dividida entre os fãs das ferramentas e os "cascudos", que acham que gerenciar é muito mais que isto. Para não deixar dúvidas sobre o meu lado na briga, entrei logo com o pé por cima da bola, e tasquei lá;
- Esta discussão toda me lembrou um “causo” que aconteceu comigo há uns dez anos, mais ou menos. Um aluno metido a espertinho me fez a seguinte pergunta;
- “Mestre, na Petrobras vocês gerenciam projetos com MSProject?”
Eu lembro que estava muito mal humorado neste dia (acho que, na véspera, o Grêmio tinha perdido um jogo importante), e respondi na lata;
- “Não, a gente usa o cérebro!”.
É claro que imediatamente pedi desculpas pela grossura, mas o fato é que esta confusão que algumas pessoas fazem entre “ferramentas” e “gerenciamento de projetos” tem o dom de despertar o pior do meu mau humor.
Vemos isto todo dia até aqui no LinkedIn; poucas pessoas se habilitam a participar de discussões realmente relevantes, mas é só falar em “template” que aparece logo um monte de interessados. Infelizmente, tem muita gente boa que acredita que para ser um bom gerente de projetos o sujeito só precisa decorar o PMBoK e conhecer um monte de templates e aplicativos.
Falei tudo isto para dizer que o grande problema é achar que a curva S e o gráfico de Gantt vão resolver o seu problema de planejamento e monitoração do projeto. Sem chegar ao radicalismo do Finocchio (prá quem não conhece; Prof. José Finocchio, da FGV, uma das maiores autoridades brasileiras na área de GP), que diz que “são ilusões”, eu diria que são “imagens” que, de alguma forma, te ajudam a ter uma ideia de como está o projeto; mas a vida real, sem dúvida, é muito mais que isto.
Finalizando, e falando em futebol, como de hábito, eu diria que a curva S é como uma imagem do jogo na TV; por mais que a técnica evolua, e hoje a gente tenha HD, 3D, Realidade Virtual e o escambau, a verdadeira realidade do jogo só sabe quem está dentro do campo, sentindo a chuva, o sol, o vento, a grama, a batida da bola, a pressão da torcida, etc... Não existe ferramenta, nem template, nem software que passe isto para o espectador; então o jeito é mostrar as imagens.
Resumindo, ferramentas servem para te ajudar; mas quem ganha ou perde o jogo é quem está dentro do campo. E é aí que a vida começa a ficar complicada...
Abraços e sucesso para todos.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

MANIFESTO DOS GERENTES DE PROJETOS DO BRASIL

Podemos dizer, sem medo de errar, que nenhuma área de conhecimento cresceu tanto no Brasil no século XXI quanto a de gerenciamento de projetos. Qualquer que seja o critério de medição (número de profissionais certificados, cursos de MBA, chapters do PMI, etc...), podemos ver que houve uma verdadeira explosão entre 2001 e a data atual. E, no entanto, qual foi o resultado prático disto? Nossos projetos estão tendo sucesso? Os cronogramas, escopos e orçamentos estão sendo cumpridos à risca? Acho que a resposta óbvia é NÃO, assim, em letras maiúsculas.
Agora tenho a impressão que chegamos ao fundo do poço; o Comitê Olímpico Internacional nomeou uma espécie de interventor estrangeiro para garantir que os projetos da Rio-2016 sejam devidamente monitorados e controlados.
Não sei se os colegas entenderam a gravidade da situação; na prática, isto significa que eles entenderam que não existe, no Brasil, gente capacitada para exercer a função. Tiveram motivos para isto? Não podemos dizer que não. É só olhar a vergonha que estamos passando com os projetos dos estádios, dos aeroportos, das refinarias, enfim, parece que nada funciona no Brasil. Assim, a última coisa que precisamos, neste momento, é partir para a xenofobia histérica e dizer que nós é que estamos certos e que eles não entendem o Brasil. Quando o secretário da FIFA disse, há mais de um ano atrás, que estávamos merecendo um “kick in the ass” ele estava prá lá de certo. O tempo é o senhor da razão.
Assim sendo, acho que está na hora de nós, que militamos na área de gerenciamento de projetos, tomarmos uma atitude séria. Não, nem pensem que vou sugerir passeatas e quebra-quebra, não é a nossa especialidade. Acho que temos inteligência e capacidade para propor uma atitude muito mais construtiva que isto. A ideia seria tentar divulgar, em todos os meios de comunicação possíveis (redes sociais, blogs, portais, jornais, etc...), um manifesto de poucas linhas, cujo texto básico seria algo do tipo;

“Nós, profissionais brasileiros que trabalhamos na área de gerenciamento de projetos, temos certeza que existe no País conhecimento e capacidade mais do que suficiente para fazer com que os nossos projetos tenham um desempenho muito melhor que o que temos hoje. Neste momento a imagem do Brasil nesta área é a pior possível, e entendemos que isto atinge a todos nós, independente de simpatias partidárias ou ideológicas; trata-se de defender os interesses da nação brasileira, seja qual for a agremiação política que ocupe o poder executivo neste momento.
A proposta que temos é simples, e obedece aos princípios mais básicos de gerenciamento de projetos. Usaríamos a Olimpíada-2016 como projeto-teste; depois, em caso de sucesso, a proposta seria estendida a outros grandes projetos. Os pontos básicos são;
a) Que sejam disponibilizadas, em um site da internet com livre acesso, os seguintes documentos referentes aos diversos projetos que integram o mega-projeto Olimpíada-2016;
- Definição do escopo e entregas principais
- Cronograma detalhado;
- Custo previsto e curvas de desembolso;
- Matriz de responsabilidades (quem é o responsável por cada etapa, o que depende da área pública e o que depende da empreiteira, etc...);
- Principais riscos identificados.
b) Que estas informações sejam atualizadas com uma periodicidade nunca superior a dois meses.
c) Que todas as mudanças significativas do projeto sejam acompanhadas de um relatório que as justifique (informando ainda quem propôs, quem aprovou, etc...).”

Pessoal; qualquer um que conheça um pouquinho que seja de gerenciamento de projetos sabe que estas são informações básicas, sem as quais ninguém consegue planejar, executar e controlar um projeto. E entendo que o acesso a estas informações é um direito mínimo de quem trabalha e paga seus impostos. Eu procurei isto em diversos lugares e não achei, e tenho razões sérias para acreditar que não estejam disponíveis; se não fosse assim o COI não teria tomado atitude tão radical.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O “CAUSO” DA HERANÇA DO TIO CHICO E O LEILÃO DE LIBRA

Tenho fama (justa, por sinal), de contador de “causos”. A explicação é simples; desde que comecei no ofício de dar aulas, entendi que a forma mais fácil e atraente para fazer com que os alunos entendam um conceito é inventar uma história simples, que mostre a sua aplicação na prática. E o gerenciamento de projetos, área onde atuo, permite o uso desta técnica constantemente.
Pensei no assunto quando ouvi diversos grupos influentes na opinião pública se referindo ao leilão de Libra como “entrega das riquezas brasileiras”. Esta afirmação, que se baseia em um nacionalismo que pode até ser sincero, não resiste à mais primária análise de riscos. E a melhor forma de explicar isto é através de um “causo”.
Vamos supor que você tem um tio meio extravagante, aquele tipo que nunca se casou nem teve filhos, mas tem muito dinheiro. Vamos chamá-lo de Tio Chico, como aquele personagem da família Adams. Um belo dia você recebe a notícia que o tio Chico morreu, e você é um dos herdeiros. E aqui vamos criar dois casos (cenários), que serão úteis para o entendimento da proposta.
No primeiro caso, o bom tio Chico te deixou um apartamento no Leblon, avaliado em dois milhões de reais. E o advogado dele já avisa; olha, se você não quiser se preocupar com transferência de propriedade, taxas e outras coisas, tem um cara aqui que gosta tanto do imóvel que compra, à vista, hoje mesmo. Resumo; você acaba de ganhar dois milhões de reais sem fazer a menor força. Grande tio Chico!
No segundo cenário, a herança é uma fazenda nos confins do Mato Grosso. O valor avaliado é o mesmo; dois milhões de reais. Só que, para tomar posse, você vai ter que ir até lá para registrar no cartório local, são dois dias de viagem por estradas horríveis, que ficam inundadas durante boa parte do ano, há boatos que parte da fazenda foi ocupada por sem-terra, na área existem casos de malária e febre amarela, enfim, as dificuldades são imensas. E, assim como no primeiro caso, existe um cara que quer comprar a propriedade agora mesmo, à vista. Ele vai pagar os dois milhões? Claro que não. Talvez te dê um milhão, um e duzentos, mas o certo é que ele vai querer um deságio, porque os riscos envolvidos no negócio são maiores. Simples assim.
O pré-sal é mais ou menos como a fazenda; vale muito, mas vai demandar custos, recursos e tempo para começar a dar lucro. E os riscos envolvidos não são desprezíveis. Numa análise muito preliminar e simplificada, podemos apontar logo duas grandes fontes de riscos para este projeto (existem outras, é claro);
a) Riscos técnicos; por maior que seja o conhecimento acumulado pela Petrobras sobre a tecnologia envolvida nesta exploração, o fato é que ninguém pode jurar que vai dar tudo certo, pela simples razão que nunca foi feito nada parecido no mundo. Não custa lembrar que, para viabilizar o empreendimento, as plataformas terão que produzir durante muitos anos. Como se comportarão os equipamentos, as colunas de produção e o próprio reservatório ao longo de dez ou quinze anos de produção? Até onde sei, ainda existem alguns pontos de dúvida, principalmente em função do ineditismo deste tipo de produção.
b) Riscos econômicos; a produção só vai atingir o seu ponto máximo daqui a uns dez anos, mais ou menos. Quem pode garantir que os preços do petróleo estarão no mesmo patamar de hoje? E a demanda?
O que queremos dizer é que, embora a perspectiva de ganho seja muito boa, as incertezas são grandes, e os custos envolvidos imensos. Num cenário destes, manda a boa prática que se procure parceiros (a estratégia é conhecida como “dividir o risco e compartilhar a oportunidade”). E é esta a proposta destes contratos; dividir os custos e, obviamente, os lucros, caso venham. Quem afirma que “esta riqueza pertence ao povo brasileiro” esquece (ou omite propositalmente, o que é pior) a segunda parte da frase; “se alguma coisa der errado, o prejuízo também pertence ao povo brasileiro”. Levando-se em conta que estamos falando em bilhões de dólares, e que o nível de incerteza ainda é alto, será que o tal de “povo brasileiro” iria querer encarar uma destas, se estivesse bem informado sobre o assunto?
Resumindo, é muito fácil dizer meias-verdades e jogar com o emocional das pessoas. Difícil é conduzir o processo de forma isenta e tomar a melhor decisão. A exploração do pré-sal pode ser o passaporte para o Brasil entrar no primeiro mundo. Mas para chegarmos lá teremos que ter disciplina, disposição de trabalhar e, principalmente, de respeitar os contratos assinados. Manifestações violentas, xenofobia histérica e guerras de liminares seguramente não vão ajudar em nada. Enfim, mais uma vez o futuro do Brasil está em nossas mãos. Que Deus nos ilumine para que tomemos as ações corretas.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Será que ninguém mais sabe fazer letra de música? (primeiro de uma série que promete ser longa)

Começando o ano, depois da visita indefectível de don Calavera (ver post anterior), este blog vai utilizar de sua imensa repercussão nacional e internacional para levantar uma bandeira; porque não se faz mais poesia como antigamente?
Conheço algumas teorias de mesa de bar que tentam buscar uma explicação, mas o fato é que a penca de grandes letristas que sempre foram a característica maior da boa MPB ou já morreu ou passou dos sessenta anos. E, como se sabe, a poesia e o humor fino são características exclusivas da raça humana, e ajudam a nos diferenciar dos chamados "animais irracionais" (denominação que, diga-se de passagem, nem sempre é muito justa. Vejam o comportamento das tais "torcidas organizadas" para comprovar que tenho uma boa dose de razão).
Mas, sem mais delongas, vamos ao primeiro vídeo de uam série que pretendemos que seja longa. Infelizmente, pouca gente sabe quem é Paulo Cesar Pinheiro (em compensação, Anitta e Michel Teló... pois é). Prá quem não sabe, compartilho este ótimo vídeo em que ele conta como compôs, com apenas 14 anos de idade, uma das maiores pérolas da história da MPB; Viagem. Obviamente que a música é cantada no final do vídeo.
O endereço é http://www.youtube.com/watch?v=QiX1_JObgqw.html. Se o link não funcionar, é só copiar e colar na barra de endereços que vai. E vale a pena, podem ficar certos.
Prometo que tem uma longa lista de "desconhecidos" vindo por aí; Luiz Vieira, Renato Teixeira, Vitor Martins... além dos conhecidos Chico Buarque, Vinícius, e outros.
Até a próxima!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

2014 segundo don Calavera

Conforme sabem todos os que frequentam este blog (e que nem são tantos assim...), tenho um guru espiritual chamado don Calavera, um nobre espanhol da Idade Média (pelo menos é o que ele diz, pode ser tudo mentira). Todo ano nos encontramos em um sonho, e ele me passa suas dicas de ano novo (ver posts http://www.causosdoherve.blogspot.com.br/2012/01/previsoes-mal-humoradas-para-2012.html e http://www.causosdoherve.blogspot.com.br/2013/01/a-volta-triunfal-de-don-calavera.html). Só que, como todo o bom espanhol, don Calavera tem sangue caliente, e de vez em quando aparece de surpresa, sem avisar (ver post http://www.causosdoherve.blogspot.com.br/2013/04/don-calavera-ataca-outra-vez.html). O fato é que o índice de acertos dele é bem significativo, e confesso que estava ansioso para nosso encontro deste ano. E ele apareceu exatamente no dia primeiro de janeiro.
Devo dizer que custei a reconhecer meu guru, embora o cenário fosse o mesmo de sempre; a taverna, as taças e o vinho estavam lá. Mas ao invés da agitação habitual, don Calavera apresentava uma expressão taciturna (vai lá no dicionário e descobre o que é isto), e começou a falar de forma educada e calma, o que nunca foi o estilo dele;
- Hola, como estas?
Cheguei a pensar que ele estava doente, mas logo lembrei que trata-se de um espírito desencarnado há séculos, portanto a hipótese era ridícula. Tentei provocá-lo;
- Estoy bien, don Calavera. Mas que cara é esta? Pensei em te encontrar animadíssimo com a perspectiva de assistir aos shows da dupla Neymar e Messi, no Camp Nou (para quem não sabe, don Calavera viveu na Catalunha e é torcedor fanático do Barcelona).
- Porque no te callas? Mira, estoy de saco cheio com ustedes. E este ano no voy a fazer previsão nenhuma; está tudo na mão de vocês.
- Como assim, don Calavera?
- 2013 foi el año em que ustedes, brasileños, tiveram el mejor e el peor que puede suceder a um País. El mejor; pela primeira vez em la história um grupo de políticos bandidos foi condenado e preso, não como políticos, pero como bandidos. Cierto?
Fiz que sim com a cabeça. Nem quis abrir a boca, para não atrapalhar o raciocínio dele.
- E o que eles alegam agora? Que no son bandidos, pero si vítimas de perseguição política! E o que hacen las autoridades (incluindo a presidente da República)? Assinam embaixo! Em otras palabras; la mejor decisión del Judiciário brasileño em 500 anos de história é desqualificada pelos líderes do Executivo e do Legislativo! Casi gera uma crise institucional!
- Entendi, don Calavera. E o que foi o pior?
- Em 2013 ustedes tuvieran el aperitivo de la Copa del Mondo; la Copa de las Confederaciones. E o que los desmiolados brasileños fizeram? Trataram bem os turistas, fizeram todo o possível para que os jogos transcorressem em paz y harmonia? No! Resolveram protestar e fazer bagunça! Até mesmo o tal don Blatter, el mafioso suíço, sacaneou vocês, disse que não entendia, que o Brasil mesmo é que tinha pedido para sediar la Copa... E o que resultou destas manifestações idiotas? Nada! Até mesmo los políticos que estavam com avaliação baixa na época, já retomaram todo su prestígio, e dona Dilma es favorita a la reeleição...
- Resumindo, estás dizendo que resolvemos mostrar consciência política na hora errada, de forma errada e para as pessoas erradas...
- Fenômeno! Finalmente entendeste alguna cosa!
Mesmo de baixo astral, a marra dele continuava insuportável.
Mas ele queria mesmo era dar o recado final;
- Mira, se ustedes querem, realmente, melhorar este País a partir de 2014, a receita é simples; façam a melhor Copa de todos los tempos, e deixem para fazer manifestações políticas depois da Copa, na preparação para as eleições. Na hora do esporte, esporte; na hora da política, política. Simples asi. E não caiam nesta conversa mole de que el julgamento es político... bandidos son bandidos, seja qual for o partido!
Sentindo que ele estava indo embora, resolvi fazer mais uma provocação futebolística;
- E, afinal, quem vai ganhar a Copa?
- Espanha, é claro! (nesta hora o torcedor falou mais alto que o guru, tenho certeza). No penses que vamos dar outra colher de chá para vocês, como fizemos na Copa das Confederaciones. Se bem que este tal Felipão es terrible... Tomara que seja el nuevo treinador de Barça! Seremos invencíveis!
E foi com esta nova animação que don Calavera saiu apressado, deixando a conta para mim, como sempre. Tenho que confessar que, este ano, suas previsões me pareceram mais sábias do que nunca...
Hasta la vista, don Calavera!