Há algum tempo publiquei um texto sobre a nova realidade do Home Office. Como o assunto é inesgotável, aqui vai o segundo de uma série que pode ser bem grande.
A mudança irreversível para o home Office traz embutida uma questão na qual pouca gente prestou atenção até agora; você não vai mais ao trabalho, o trabalho invadiu sua casa. E toda aquela organização que você tinha no seu trabalho, terá que ter em casa. E aí é que o bicho pega.
Pode ser mera má vontade minha, mas vejo uma característica em muitos pais da atual geração que sempre me preocupou; é a história do “eu me mato trabalhando prá dar tudo para os meus filhos”. A frase é até interessante mas, muitas vezes, significa; “eu me mato no trabalho prá ganhar dinheiro suficiente para pagar escola, inglês, judô, fonoaudióloga, enfim tudo para não ter que educar meus filhos”. Porque educar significa, muitas vezes, confrontar, enfrentar o conflito. E isto eu não quero fazer em casa, porque chego morto de cansado.
Posso estar até sendo injusto, e peço, desde já, desculpas por isto. Mas o que mais vejo hoje são pais que se cedem totalmente a qualquer pressão dos pequenos ditadores. E preferem brigar com os professores do que ter que explicar para os filhotes que eles estão errados. O resultado final disto é uma sociedade mal educada, grosseira, e incapaz de negociar.
É claro que tudo isto foi colocado de forma propositalmente simplificada, mas não deixa de ser verdadeiro. Citando o velho e bom Raul Seixas, se alguém me provar que estou mentindo, eu tiro o meu chapéu.
Só que agora... papai, mamãe e filhotes vão ter que aprender a conviver. Porque a casa virou escritório e sala de aula, e todo mundo vai ter que ter seu momento de privacidade. Mais; horários de refeições e até o uso de banheiros terão que ser negociados. Tudo aquilo que papai e mamãe viram em cursos de relações humanas, mas nunca ligaram muito, terá que ser exercido dentro de casa. Com stakeholders implacáveis.
O que vai sair disto? Otimista que sou, acredito que teremos mais diálogo, otimização do trabalho e, principalmente, melhor formação de cidadãos, dentro e fora de casa. Mas vai ser complicado...
sábado, 16 de maio de 2020
sexta-feira, 8 de maio de 2020
Ideias para o pós-pandemia - parte 1
Independente do que aconteça com o Presidente da República (impeachment ou seja o que for), o Brasil sairá da pandemia arrasado financeiramente e dividido politicamente. E, acima de tudo, precisando de projetos urgentes para reativar a economia,
Abro aqui um debate sobre o assunto, colocando, desde já, alguns projetos e mudanças que, na minha visão, podem ser bem interessantes.
O primeiro seria o da legalização dos cassinos e jogos.
Parece incrível, mas dos 193 países membros da ONU, apenas 37 proibem jogos de azar. E o Brasil é um deles. Na América Latina são apenas dois; Brasil e Cuba (sem comentários). A lei é de 1946, assinada pelo então Presidente Eurico Gaspar Dutra. Diz a lenda que por pressão da primeira dama, Dona Carmela Dutra que, por sua religiosidade fervorosa, era chamada “Dona Santinha”. A proibição encerrou as atividades de pelo menos dois locais famosos no Brasil todo; o Cassino da Urca e o Quitandinha, em Petrópolis.
Boa parte do potencial turístico do Brasil é desperdiçado pela proibição aos cassinos. A paixão pelo jogo move milhões de pessoas no mundo todo. É claro que existem os viciados, que destroem seu patrimônio em uma noitada, mas esta pequena parcela também existe com relação ao álcool, por exemplo. E, até onde sei, ninguém está pensando em fechar nossas fábricas de cerveja ou vinícolas.
Há estimativas de que o jogo poderia movimentar algo entre 10 e 20 bilhões de dólares anuais no Brasil, e gerar cerca de 100 mil empregos diretos. Antes que alguém questione estes números, vale dizer que a Meca universal do jogo, a cidade de Las Vegas, sozinha, recebeu 29,8 bilhões de dólares de turistas estrangeiros em 2018. E já que falamos em Meca, até mesmo entre os ultra-conservadores países muçulmanos há os que têm jogo legalizado.
Só precisa uma canetada. E pode funcionar muito bem.
No próximo artigo, traremos uma nova idéia. Até lá!
Abro aqui um debate sobre o assunto, colocando, desde já, alguns projetos e mudanças que, na minha visão, podem ser bem interessantes.
O primeiro seria o da legalização dos cassinos e jogos.
Parece incrível, mas dos 193 países membros da ONU, apenas 37 proibem jogos de azar. E o Brasil é um deles. Na América Latina são apenas dois; Brasil e Cuba (sem comentários). A lei é de 1946, assinada pelo então Presidente Eurico Gaspar Dutra. Diz a lenda que por pressão da primeira dama, Dona Carmela Dutra que, por sua religiosidade fervorosa, era chamada “Dona Santinha”. A proibição encerrou as atividades de pelo menos dois locais famosos no Brasil todo; o Cassino da Urca e o Quitandinha, em Petrópolis.
Boa parte do potencial turístico do Brasil é desperdiçado pela proibição aos cassinos. A paixão pelo jogo move milhões de pessoas no mundo todo. É claro que existem os viciados, que destroem seu patrimônio em uma noitada, mas esta pequena parcela também existe com relação ao álcool, por exemplo. E, até onde sei, ninguém está pensando em fechar nossas fábricas de cerveja ou vinícolas.
Há estimativas de que o jogo poderia movimentar algo entre 10 e 20 bilhões de dólares anuais no Brasil, e gerar cerca de 100 mil empregos diretos. Antes que alguém questione estes números, vale dizer que a Meca universal do jogo, a cidade de Las Vegas, sozinha, recebeu 29,8 bilhões de dólares de turistas estrangeiros em 2018. E já que falamos em Meca, até mesmo entre os ultra-conservadores países muçulmanos há os que têm jogo legalizado.
Só precisa uma canetada. E pode funcionar muito bem.
No próximo artigo, traremos uma nova idéia. Até lá!
terça-feira, 28 de abril de 2020
Previsão para o pós-apocalipse - parte I
Sábado, 18/04, 15 horas. Estou fazendo uma palestra para mais de setenta pessoas, sentado na sala da casa do meu genro, em Niterói, usando bermuda e chinelos. A cinco metros de mim, meu neto Caetano, de dois meses, no colo da vovó, observa admirado o vovô falando sozinho.
Sim, são os tempos de “isolamento social”, que um dia talvez eu consiga explicar para ele. Grandes crises, grandes oportunidades, grandes mudanças.
O melhor efeito da pandemia foi mostrar que uma nova maneira de trabalho é possível; a tecnologia já existia há algum tempo, faltava um empurrão. E a melhor notícia de todas foi que esta nova maneira de trabalho pode diminuir significativamente a emissão de gases do efeito estufa. E esta é uma oportunidade que não pode ser perdida.
Resumindo, o home office se firma como a nova realidade do planeta. É claro que alguns ajustes serão necessários, mas o fato é que nada será como antes. E, como em toda a crise, quem souber se adaptar mais rápido vai levar vantagem.
O ponto mais importante é que não teremos mais o “portal” entre trabalho e casa. Para quem não entendeu, isto vai exigir uma verdadeira revolução comportamental. Você não vai mais ao trabalho; o trabalho veio até você, portanto é preciso estar pronto para ele. A família agora está ao seu lado nas suas reuniões, portanto serão necessárias negociações com filhos e cônjuges, uma vez que o espaço de moradia e de trabalho serão os mesmos. A oportunidade de almoçar a comidinha de casa é bem interessante, mas dá trabalho. O tempo que se perdia no trânsito pode ser usado para tarefas domésticas, mas a divisão terá que ser muito bem estudada. Arrisco a previsão que o nicho de trabalhadores para o lar será bem aquecido. Talvez as famílias também procurem casas maiores.
O certo é que não haverá mais espaço para aquelas pessoas que mudavam de personalidade quando cruzavam o portal; escroto em casa, arrumadinho no trabalho. A frase “você pensa que está em casa?”, que ouvi tantas vezes quando alguém falava ou fazia alguma coisa desagradável no ambiente de trabalho, não faz mais sentido; o cara vai estar em casa, mesmo.
Enfim, há muito que pensar neste tema. Prometo um segundo (e talvez um terceiro) artigo.
Citando o poeta Lulu Santos, eu vejo um novo começo de era...
Sim, são os tempos de “isolamento social”, que um dia talvez eu consiga explicar para ele. Grandes crises, grandes oportunidades, grandes mudanças.
O melhor efeito da pandemia foi mostrar que uma nova maneira de trabalho é possível; a tecnologia já existia há algum tempo, faltava um empurrão. E a melhor notícia de todas foi que esta nova maneira de trabalho pode diminuir significativamente a emissão de gases do efeito estufa. E esta é uma oportunidade que não pode ser perdida.
Resumindo, o home office se firma como a nova realidade do planeta. É claro que alguns ajustes serão necessários, mas o fato é que nada será como antes. E, como em toda a crise, quem souber se adaptar mais rápido vai levar vantagem.
O ponto mais importante é que não teremos mais o “portal” entre trabalho e casa. Para quem não entendeu, isto vai exigir uma verdadeira revolução comportamental. Você não vai mais ao trabalho; o trabalho veio até você, portanto é preciso estar pronto para ele. A família agora está ao seu lado nas suas reuniões, portanto serão necessárias negociações com filhos e cônjuges, uma vez que o espaço de moradia e de trabalho serão os mesmos. A oportunidade de almoçar a comidinha de casa é bem interessante, mas dá trabalho. O tempo que se perdia no trânsito pode ser usado para tarefas domésticas, mas a divisão terá que ser muito bem estudada. Arrisco a previsão que o nicho de trabalhadores para o lar será bem aquecido. Talvez as famílias também procurem casas maiores.
O certo é que não haverá mais espaço para aquelas pessoas que mudavam de personalidade quando cruzavam o portal; escroto em casa, arrumadinho no trabalho. A frase “você pensa que está em casa?”, que ouvi tantas vezes quando alguém falava ou fazia alguma coisa desagradável no ambiente de trabalho, não faz mais sentido; o cara vai estar em casa, mesmo.
Enfim, há muito que pensar neste tema. Prometo um segundo (e talvez um terceiro) artigo.
Citando o poeta Lulu Santos, eu vejo um novo começo de era...
quinta-feira, 19 de março de 2020
Porque a gente tem tanta dificuldade de aprender?
Confúcio disse que há três maneiras de aprender; pela observação, pela reflexão e pelo sofrimento. E acrescentou que esta última pode levar à morte, antes do aprendizado.
A pandemia do coronavirus pode ser um bom momento de observação, reflexão e aprendizado.
É interessante ver que países como Coreia do Sul e Singapura tiveram sucesso no combate à pandemia não apenas por força de medidas logísticas, mas principalmente porque são povos disciplinados.
O conceito mais amplo de disciplina significa algo totalmente diferente de obediência cega; é o momento em que a pessoa entende que os outros têm os mesmos direitos que ela, portanto a atitude correta é fazer o que é melhor para todos. No caso da epidemia, é fazer o possível para que o sofrimento do grupo seja o menor possível. Simples assim.
No Brasil, o maior problema sempre foi este; não existe empatia, o brasileiro faz questão de dizer que o brasileiro não presta. Mesmo agora, num momento em que todos estamos sob ameaça e deveríamos nos unir, vejo gente torcendo para que o vírus contamine e mate todos os eleitores do adversário.
Será que nem o sofrimento é capaz de nos ensinar alguma coisa?
Pensem nisso...
A pandemia do coronavirus pode ser um bom momento de observação, reflexão e aprendizado.
É interessante ver que países como Coreia do Sul e Singapura tiveram sucesso no combate à pandemia não apenas por força de medidas logísticas, mas principalmente porque são povos disciplinados.
O conceito mais amplo de disciplina significa algo totalmente diferente de obediência cega; é o momento em que a pessoa entende que os outros têm os mesmos direitos que ela, portanto a atitude correta é fazer o que é melhor para todos. No caso da epidemia, é fazer o possível para que o sofrimento do grupo seja o menor possível. Simples assim.
No Brasil, o maior problema sempre foi este; não existe empatia, o brasileiro faz questão de dizer que o brasileiro não presta. Mesmo agora, num momento em que todos estamos sob ameaça e deveríamos nos unir, vejo gente torcendo para que o vírus contamine e mate todos os eleitores do adversário.
Será que nem o sofrimento é capaz de nos ensinar alguma coisa?
Pensem nisso...
domingo, 19 de janeiro de 2020
A terra dos bananas “ixpertos” – uma paródia da Bíblia
A Terra é redonda, embora alguns contestem, e seu diâmetro separa dois povos bem diferentes; os do Sol Nascente e os da Terra de Bananas.
Para testá-los, Deus mandou uma desgraça para cada um.
Para os do Sol Nascente veio um terremoto.
Tudo ficou escasso, até a água potável. Eles (que se tratavam como “cidadãos”) dialogaram, e dividiram com sabedoria a pouca água existente. Em pouco tempo a situação se estabilizou, todos ficaram contentes, e viu Deus que isto era bom.
Para o pessoal de Bananas, veio apenas um turvamento estranho na água da cidade.
Os Bananas (que se autodenominavam “ixpertos”) triplicaram o preço da água mineral, e cada um tentou agarrar tudo o que podia, de preferência para revender e arrancar dinheiro dos outros (denominados “otários”).
E aí Deus pensou em castigá-los, mas viu que era perda de tempo, porque eles só adoravam Mitos de nomes estranhos (como Lula e Bolsonaro, por exemplo), mas eram incapazes de ter amor pelo próximo.
E cada um seguiu o destino que escolheu...
Para testá-los, Deus mandou uma desgraça para cada um.
Para os do Sol Nascente veio um terremoto.
Tudo ficou escasso, até a água potável. Eles (que se tratavam como “cidadãos”) dialogaram, e dividiram com sabedoria a pouca água existente. Em pouco tempo a situação se estabilizou, todos ficaram contentes, e viu Deus que isto era bom.
Para o pessoal de Bananas, veio apenas um turvamento estranho na água da cidade.
Os Bananas (que se autodenominavam “ixpertos”) triplicaram o preço da água mineral, e cada um tentou agarrar tudo o que podia, de preferência para revender e arrancar dinheiro dos outros (denominados “otários”).
E aí Deus pensou em castigá-los, mas viu que era perda de tempo, porque eles só adoravam Mitos de nomes estranhos (como Lula e Bolsonaro, por exemplo), mas eram incapazes de ter amor pelo próximo.
E cada um seguiu o destino que escolheu...
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
O futebol e suas lições. De novo
Tentando juntar os cacos do meu coração gremista despedaçado pelos 5x0, consigo ver um aspecto interessante no jogo de ontem que pode servir como norte para o nosso comportamento.
O Flamengo do “Mister Jesus” sem dúvida criou um novo “benchmarking” para o futebol de clubes do Brasil, com um estilo que une eficiência e encantamento. E é muito bom que isto aconteça, porque obriga os outros a melhorar. Assim caminha a humanidade.
Só que, fora do aspecto técnico, o que me impressionou ontem foi a seriedade com que os seus jogadores levaram o jogo até o fim, mesmo já estando pra lá de decidido. Não houve tentativas de humilhação, infelizmente tão próprias do brasileiro, como firulas e dribles desnecessários. Especulo que seja fruto da cultura européia do treinador e de alguns jogadores mais rodados, e que foi assimilado por todos. Em resposta, o time do Grêmio também não apelou e tentou jogar bola até o fim, buscando um golzinho de honra que, infelizmente, não saiu. O resultado foi um raro espetáculo de dignidade e respeito. Como deve ser o futebol. Como deve ser a vida.
Enfim, a noite triste para nós gremistas, deixa como saldo positivo uma demonstração prática de que podemos deixar de lado o nosso comportamento Neandertal, não só no futebol como em tudo o mais. E para quem acredita em encontros cósmicos, vale lembrar que ontem, 23/10, é a data de nascimento de um cara que foi decisivo para mudar o patamar histórico do futebol brasileiro, o Rei Pelé.
Que tenhamos grandeza e sabedoria para interpretar os sinais.
O Flamengo do “Mister Jesus” sem dúvida criou um novo “benchmarking” para o futebol de clubes do Brasil, com um estilo que une eficiência e encantamento. E é muito bom que isto aconteça, porque obriga os outros a melhorar. Assim caminha a humanidade.
Só que, fora do aspecto técnico, o que me impressionou ontem foi a seriedade com que os seus jogadores levaram o jogo até o fim, mesmo já estando pra lá de decidido. Não houve tentativas de humilhação, infelizmente tão próprias do brasileiro, como firulas e dribles desnecessários. Especulo que seja fruto da cultura européia do treinador e de alguns jogadores mais rodados, e que foi assimilado por todos. Em resposta, o time do Grêmio também não apelou e tentou jogar bola até o fim, buscando um golzinho de honra que, infelizmente, não saiu. O resultado foi um raro espetáculo de dignidade e respeito. Como deve ser o futebol. Como deve ser a vida.
Enfim, a noite triste para nós gremistas, deixa como saldo positivo uma demonstração prática de que podemos deixar de lado o nosso comportamento Neandertal, não só no futebol como em tudo o mais. E para quem acredita em encontros cósmicos, vale lembrar que ontem, 23/10, é a data de nascimento de um cara que foi decisivo para mudar o patamar histórico do futebol brasileiro, o Rei Pelé.
Que tenhamos grandeza e sabedoria para interpretar os sinais.
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
Inteligência artificial e espiritualidade; isto faz algum sentido?
Não e novidade para ninguém que vivemos um momento de transformações radicais, como nunca antes aconteceu na história da espécie humana.
Disrupção, mundo VUCA e outras expressões do gênero são utilizadas para tentar dar algum sentido para uma era em que a mudança é quase diária e as “verdades eternas” podem durar menos de um ano. A grande verdade é que estamos todos estupefatos e é difícil tentar entender o presente e mais difícil ainda fazer previsões de futuro.
Nestas horas a experiência me ensinou que é bom buscar os textos atemporais. Por casualidade hoje reli a bela carta de São Paulo aos Coríntios. E um trecho chamou-me particularmente a atenção; “Há dons de profetizar, mas eles desaparecerão (,,,) Há o conhecimento, mas ele desaparecerá (...) Agora, meu conhecimento é incompleto. Mas quando aquele tempo vier, conhecerei completamente, assim como sou conhecido por Deus”.
Antes que alguém pense que eu esclerosei de vez, peço licença para interpretar o texto. Talvez o mais importante seja a visão de que o conhecimento, pelo menos da forma como o entendemos, está próximo do fim. Ou seja, o processo que substituiu gradativamente a força humana pelas máquinas, iniciado lá na Revolução Industrial, agora atinge o seu momento máximo, quando o próprio “conhecimento” humano é substituído pela IA. E qual o papel do ser humano, neste momento? O de ser perfeito, à imagem e semelhança do Criador.
O que quero dizer é que o mundo da concorrência assassina, do “tudo por dinheiro”, está acabando. E uma boa dica sobre como isto vai acabar está sendo dada por algumas empresas de ponta no mundo. Que não enxergam mais o funcionário como uma máquina de produzir, que não vêem mais o concorrente como um verme a ser eliminado, que começam a pensar e por em prática sugestões alternativas para o público.
Um exemplo interessante é a nova definição da Microsoft para a sua missão; “Empoderar cada indivíduo e cada organização no planeta para que consiga mais”. Alguns podem entender que esta definição é muito vaga mas, para mim, está muito claro que a ideia é romper com todo e qualquer tipo de fronteira e/ou preconceito; que todo mundo atinja o seu melhor, seja quem for. Inclusive nossos possíveis concorrentes.
O assunto é longo, mas o fato é que é notório que cada vez mais se fala na importância das “soft skills”, das qualidades de relacionamento e comprometimento com a comunidade e o planeta como itens importantes para o profissional do futuro. Com um pouquinho de ousadia, eu chamaria isto de “profissional espiritualizado”, consciente de sua missão divina no planeta. Mesmo que ele seja ateu, é claro, quando eu falo em todo mundo é todo mundo mesmo.
É claro que, em paralelo com isto, temos um aprofundamento do comportamento Neandertal nas redes sociais, no ódio e no sectarismo, mas isto também faz parte do pacote; afinal, é chegada a hora de separar o joio do trigo. Quem passa o tempo todo espalhando seu mau humor e sua raiva contra os semelhantes, além de se tornar muito desagradável, vai ter também suas oportunidades de trabalho muito reduzidas.
Citando o grande Lulu Santos, eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade prá dizer mais sim do que não... Tenho certeza que São Paulo concordaria com ele.
Quem viver, verá.
Disrupção, mundo VUCA e outras expressões do gênero são utilizadas para tentar dar algum sentido para uma era em que a mudança é quase diária e as “verdades eternas” podem durar menos de um ano. A grande verdade é que estamos todos estupefatos e é difícil tentar entender o presente e mais difícil ainda fazer previsões de futuro.
Nestas horas a experiência me ensinou que é bom buscar os textos atemporais. Por casualidade hoje reli a bela carta de São Paulo aos Coríntios. E um trecho chamou-me particularmente a atenção; “Há dons de profetizar, mas eles desaparecerão (,,,) Há o conhecimento, mas ele desaparecerá (...) Agora, meu conhecimento é incompleto. Mas quando aquele tempo vier, conhecerei completamente, assim como sou conhecido por Deus”.
Antes que alguém pense que eu esclerosei de vez, peço licença para interpretar o texto. Talvez o mais importante seja a visão de que o conhecimento, pelo menos da forma como o entendemos, está próximo do fim. Ou seja, o processo que substituiu gradativamente a força humana pelas máquinas, iniciado lá na Revolução Industrial, agora atinge o seu momento máximo, quando o próprio “conhecimento” humano é substituído pela IA. E qual o papel do ser humano, neste momento? O de ser perfeito, à imagem e semelhança do Criador.
O que quero dizer é que o mundo da concorrência assassina, do “tudo por dinheiro”, está acabando. E uma boa dica sobre como isto vai acabar está sendo dada por algumas empresas de ponta no mundo. Que não enxergam mais o funcionário como uma máquina de produzir, que não vêem mais o concorrente como um verme a ser eliminado, que começam a pensar e por em prática sugestões alternativas para o público.
Um exemplo interessante é a nova definição da Microsoft para a sua missão; “Empoderar cada indivíduo e cada organização no planeta para que consiga mais”. Alguns podem entender que esta definição é muito vaga mas, para mim, está muito claro que a ideia é romper com todo e qualquer tipo de fronteira e/ou preconceito; que todo mundo atinja o seu melhor, seja quem for. Inclusive nossos possíveis concorrentes.
O assunto é longo, mas o fato é que é notório que cada vez mais se fala na importância das “soft skills”, das qualidades de relacionamento e comprometimento com a comunidade e o planeta como itens importantes para o profissional do futuro. Com um pouquinho de ousadia, eu chamaria isto de “profissional espiritualizado”, consciente de sua missão divina no planeta. Mesmo que ele seja ateu, é claro, quando eu falo em todo mundo é todo mundo mesmo.
É claro que, em paralelo com isto, temos um aprofundamento do comportamento Neandertal nas redes sociais, no ódio e no sectarismo, mas isto também faz parte do pacote; afinal, é chegada a hora de separar o joio do trigo. Quem passa o tempo todo espalhando seu mau humor e sua raiva contra os semelhantes, além de se tornar muito desagradável, vai ter também suas oportunidades de trabalho muito reduzidas.
Citando o grande Lulu Santos, eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade prá dizer mais sim do que não... Tenho certeza que São Paulo concordaria com ele.
Quem viver, verá.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
O VAR E O CRONÔMETRO – O FUTEBOL CHEGA AO SÉCULO XXI SEM PASSAR PELO XX
As regras do futebol, em sua grande maioria, foram codificadas no século XIX. E sempre houve grande resistência à mudança. Lembro do então Presidente da FIFA João Havelange dizendo, lá pelo início dos anos 1990, que as regras deveriam permanecer intocadas porque “os erros de arbitragem eram parte da magia do futebol”. Meu Deus...
Felizmente o avanço tecnológico acabou obrigando a FIFA a mudar seus conceitos. Os pobres juízes humanos não podiam competir com os milhares de olhos das câmeras cada vez mais detalhistas e precisas. A adoção do VAR e da Goal Line Technology ajudaram a diminuir os erros, tornando os resultados mais justos e o jogo mais confiável.
Só que tenho a impressão que, no meio deste salto “disruptivo”, para usar a palavra da moda, um detalhe prosaico foi esquecido; a cronometragem do jogo continua sendo feita como no século XIX, com um árbitro todo poderoso decidindo, através de critérios totalmente pessoais, quantos minutos serão acrescidos aos 90 regulamentares para compensar possíveis paralisações de jogo.
Afinal, a tecnologia dos cronômetros que podem ser travados e depois acionados novamente está disponível desde os anos 1950, pelo menos, e é utilizada com sucesso em esportes como basquete, futsal e handebol há décadas.
Enquanto isto, no reino do futebol, temos distorções absurdas, com jogadores simulando contusões, demora nas substituições, e o próprio tempo necessário para análise do VAR sendo absorvido na conta totalmente subjetiva dos tais de “acréscimos”.
Afinal, se a própria FIFA admite que 60 minutos de bola em jogo é o “tempo ideal”, porque não oficializar isto? Dois tempos de trinta minutos marcados por uma mesa de cronometragem, livrando o árbitro desta incômoda carga. Poderíamos até pensar em conceder dois pedidos de tempo para cada treinador durante o jogo. A própria televisão agradeceria (mais espaço para inserções comerciais).
Uma última dica; para evitar que o jogo termine durante um ataque promissor, ou algo parecido, adotar o critério consagrado nas velhas peladas de rua; o jogo só acaba na “primeira bola fora” após zerar o cronômetro. Mais uma discussão evitada.
Será que vale conversar sobre isto? Acho que sim.
Felizmente o avanço tecnológico acabou obrigando a FIFA a mudar seus conceitos. Os pobres juízes humanos não podiam competir com os milhares de olhos das câmeras cada vez mais detalhistas e precisas. A adoção do VAR e da Goal Line Technology ajudaram a diminuir os erros, tornando os resultados mais justos e o jogo mais confiável.
Só que tenho a impressão que, no meio deste salto “disruptivo”, para usar a palavra da moda, um detalhe prosaico foi esquecido; a cronometragem do jogo continua sendo feita como no século XIX, com um árbitro todo poderoso decidindo, através de critérios totalmente pessoais, quantos minutos serão acrescidos aos 90 regulamentares para compensar possíveis paralisações de jogo.
Afinal, a tecnologia dos cronômetros que podem ser travados e depois acionados novamente está disponível desde os anos 1950, pelo menos, e é utilizada com sucesso em esportes como basquete, futsal e handebol há décadas.
Enquanto isto, no reino do futebol, temos distorções absurdas, com jogadores simulando contusões, demora nas substituições, e o próprio tempo necessário para análise do VAR sendo absorvido na conta totalmente subjetiva dos tais de “acréscimos”.
Afinal, se a própria FIFA admite que 60 minutos de bola em jogo é o “tempo ideal”, porque não oficializar isto? Dois tempos de trinta minutos marcados por uma mesa de cronometragem, livrando o árbitro desta incômoda carga. Poderíamos até pensar em conceder dois pedidos de tempo para cada treinador durante o jogo. A própria televisão agradeceria (mais espaço para inserções comerciais).
Uma última dica; para evitar que o jogo termine durante um ataque promissor, ou algo parecido, adotar o critério consagrado nas velhas peladas de rua; o jogo só acaba na “primeira bola fora” após zerar o cronômetro. Mais uma discussão evitada.
Será que vale conversar sobre isto? Acho que sim.
domingo, 20 de janeiro de 2019
Barcelona, Grêmio e Arthur; uma pequena aula prática sobre riscos e oportunidades
Quem já teve aula comigo sabe que gosto muito de usar exemplos práticos, e que o futebol é minha grande paixão, mais especificamente o futebol do Grêmio, da minha Porto Alegre.
Juntando riscos e futebol, podemos dizer que um bom exemplo prático sobre transações de alto risco são os investimentos milionários que os ricos clubes europeus fazem para adquirir os direitos de jovens jogadores de várias partes do mundo. Afinal, as fortunas pagas pelos clubes por jogadores muitas vezes ainda adolescentes frequentemente apresentam retorno zero. Os motivos são variados; lesões, deslumbramento do jovem com a súbita riqueza, avaliação precipitada (o cara não era tão bom assim), entre outras coisas.
Já escrevi algo sobre o assunto em meu blog há alguns anos, quando o goleiro Cássio surgiu como ídolo no Corinthians (ver http://causosdoherve.blogspot.com/2012/12/cassio-o-corinthians-o-gremio-e-as.html).
Neste cenário, a negociação entre o Grêmio e o Barcelona pelo jovem e promissor meio campista Arthur apresentou uma visão diferente da habitual e bem interessante.
Resumindo a história, Grêmio e Barcelona fecharam o negócio por 32 milhões de euros, um valor já bastante significativo, mas, em função das boas probabilidades de valorização do craque, estabeleceram algumas “cláusulas de produtividade” que podem levar este valor para até 40 milhões.
A coisa funciona assim; se Arthur se revelasse apenas um blefe, ou seja, jogador de uma temporada só, como muitos outros, o Barça ficaria com o “mico” e o Grêmio com seus 32 milhões de euros, como acontece em várias destas negociações. Este é o risco do negócio. Tudo normal.
Só que Arthur está mostrando que suas perspectivas realmente são grandiosas. E, ao contrário do que acontece nos negócios convencionais, não é apenas o Barça que está esfregando as mãos com isto; o Grêmio também está cada vez mais feliz.
Duas das metas já foram atingidas (e devidamente pagas); mais de dez jogos como titular e conquista de um título (a Recopa da Espanha). Também contam pontos a condição de titular da seleção brasileira, possíveis novos títulos pelo Barcelona (que no momento, disputa o espanhol, a Copa do Rey e a Champions League), e até uma possível indicação futura para o prêmio de melhor jogador da Europa e/ou do Mundo. Caso sejam cumpridas, o Grêmio pode ganhar até 8 milhões de euros acima do valor original. Um dinheirinho nada desprezível, é claro.
Tecnicamente isto é conhecido como “contrato de preço fixo com incentivos por desempenho”, ou algo parecido. Também pode ser utilizado como um bom exemplo de “negociação ganha-ganha”; quanto mais Arthur crescer, mais Barcelona e Grêmio (além do próprio Arthur, é claro), ficarão felizes.
Enfim, é um exemplo prático interessante para usar em aula. Riscos mitigados e oportunidade compartilhada.
Até a próxima!
Juntando riscos e futebol, podemos dizer que um bom exemplo prático sobre transações de alto risco são os investimentos milionários que os ricos clubes europeus fazem para adquirir os direitos de jovens jogadores de várias partes do mundo. Afinal, as fortunas pagas pelos clubes por jogadores muitas vezes ainda adolescentes frequentemente apresentam retorno zero. Os motivos são variados; lesões, deslumbramento do jovem com a súbita riqueza, avaliação precipitada (o cara não era tão bom assim), entre outras coisas.
Já escrevi algo sobre o assunto em meu blog há alguns anos, quando o goleiro Cássio surgiu como ídolo no Corinthians (ver http://causosdoherve.blogspot.com/2012/12/cassio-o-corinthians-o-gremio-e-as.html).
Neste cenário, a negociação entre o Grêmio e o Barcelona pelo jovem e promissor meio campista Arthur apresentou uma visão diferente da habitual e bem interessante.
Resumindo a história, Grêmio e Barcelona fecharam o negócio por 32 milhões de euros, um valor já bastante significativo, mas, em função das boas probabilidades de valorização do craque, estabeleceram algumas “cláusulas de produtividade” que podem levar este valor para até 40 milhões.
A coisa funciona assim; se Arthur se revelasse apenas um blefe, ou seja, jogador de uma temporada só, como muitos outros, o Barça ficaria com o “mico” e o Grêmio com seus 32 milhões de euros, como acontece em várias destas negociações. Este é o risco do negócio. Tudo normal.
Só que Arthur está mostrando que suas perspectivas realmente são grandiosas. E, ao contrário do que acontece nos negócios convencionais, não é apenas o Barça que está esfregando as mãos com isto; o Grêmio também está cada vez mais feliz.
Duas das metas já foram atingidas (e devidamente pagas); mais de dez jogos como titular e conquista de um título (a Recopa da Espanha). Também contam pontos a condição de titular da seleção brasileira, possíveis novos títulos pelo Barcelona (que no momento, disputa o espanhol, a Copa do Rey e a Champions League), e até uma possível indicação futura para o prêmio de melhor jogador da Europa e/ou do Mundo. Caso sejam cumpridas, o Grêmio pode ganhar até 8 milhões de euros acima do valor original. Um dinheirinho nada desprezível, é claro.
Tecnicamente isto é conhecido como “contrato de preço fixo com incentivos por desempenho”, ou algo parecido. Também pode ser utilizado como um bom exemplo de “negociação ganha-ganha”; quanto mais Arthur crescer, mais Barcelona e Grêmio (além do próprio Arthur, é claro), ficarão felizes.
Enfim, é um exemplo prático interessante para usar em aula. Riscos mitigados e oportunidade compartilhada.
Até a próxima!
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
AS TRÊS LIÇÕES DO TIO GUGU, O DOCE COMUNISTA
Uma das melhores figuras que Deus colocou em meu caminho nesta vida foi meu tio Gugu.
Seu nome era Juvenal Jacinto de Souza, jornalista e tradutor. Hoje, mais de trinta anos depois de sua morte, dá nome a uma praça no bairro da Serraria, em Porto Alegre, onde morou durante quase a vida toda. Nossos caminhos se cruzaram quando ele casou com minha tia Edith, a Deth, irmã do meu pai. Juvenal foi descrito por um amigo famoso, Érico Veríssimo, como um “homem tão tímido que parecia pedir desculpas por estar vivo”. Só que o autor de “O Tempo e o Vento” complementava; “mas não se enganem diante de tanta mansidão. É homem de convicções firmes, de uma só palavra”. Tanto que acabou passando um ano na cadeia, preso pela ditadura de Getúlio Vargas, episódio sobre o qual ele pouco falava.
Gugu e Deth moravam numa casa simples, perto do rio Guaíba, e passar uns dias lá era sempre muito bom. Eu adorava conversar com ele; mesmo sendo de poucas palavras, Gugu era um homem vivido, culto e dono de um fino senso de humor. Devo a ele pelo menos três coisas que levei para o resto da vida.
A primeira foi me ensinar datilografia. Compartilhando a Hermes Baby (quem não sabe o que é, favor ir no Google e procurar por “máquina de escrever”), que ele usava para ganhar a vida, aprendi a dominar os mistérios do teclado, técnica que me ajuda até hoje a redigir meus textos. Gugu foi um mestre dedicado e paciente.
A segunda foi um trocadilho em italiano; “traduttore, traditore”, tradutores são traidores. Falava isto ao comentar a dureza de sua profissão; existem palavras e expressões que não têm equivalentes em outros idiomas, portanto todo o tradutor tem que fazer algum tipo de adaptação no texto. Isto configurava a “traição” inevitável. Até hoje uso isto em aula, quando lembro, por exemplo, que a tradução correta de “Project” não é “Projeto” e outras assim. Onde quer que esteja, tenho certeza que Gugu deve dar boas risadas quando vê as besteiras do “Google Translator”, por exemplo.
Mas a terceira e, certamente, a mais importante, veio logo depois do AI-5, que acaba de completar 50 anos de triste memória. Os ânimos estavam exaltados e eu, com meus 17 anos, desprezava tudo o que fosse “reacionário”, ou seja, a favor dos militares. E meu alvo preferencial era o escritor e jornalista Nelson Rodrigues, que assinava colunas diárias apoiando a ditadura. Obviamente, Gugu tinha muito mais razões que eu para odiar os militares e seus apoiadores. E foi isto que tornou este diálogo inesquecível para mim.
Ele chegou com o jornal na mão e me perguntou, em gauchês perfeito;
- Tu leste a coluna do Nélson Rodrigues hoje?
O gênio adolescente aqui, conhecedor profundo de todas as verdades da vida, respondeu com a arrogância peculiar;
- Não perco meu tempo com este reacionário imbecil.
A resposta veio rápida, num tom que, para um sujeito como ele, era quase agressivo;
- Pois não sabes o que estás perdendo...
E isto foi só o começo. Durante cerca de dez minutos Gugu falou sem parar (seguramente um recorde para ele) sobre a importância de ouvir as boas ideias, independente do viés político, sobre como Nélson era brilhante e tinha que ser respeitado e admirado, e mais um monte de coisas.
Quando finalmente ele voltou à sua calma e mudez habitual, o sobrinho imbecil aqui havia entendido uma grande lição; não existe dono da verdade. Ouvir o outro lado é sempre importante. Porque existem pessoas tão boas ou melhores que você que acreditam em coisas diferentes, seja o assunto política, religião, futebol ou qualquer outro. E você vai aprender com elas, sempre.
Tenho certeza que Gugu deve estar muito triste com os rumos que o Brasil tomou, com os erros da esquerda em que ele tanto acreditava e, principalmente, com a pobreza aviltante do nosso debate político atual. Pelo menos uma alegria posso dar a ele; o sobrinho aqui ouviu e aprendeu. De lá para cá sempre gostei de debater e me posicionar em todo o tipo de assunto, antes e depois da internet, e me orgulho de dizer que jamais ofendi ou deixei de ouvir alguém. Muito por força da bendita lição do meu tio comunista, que não disfarçava sua admiração por um reacionário brilhante.
Gugu, meu doce tio comunista. Saudades de você!
Seu nome era Juvenal Jacinto de Souza, jornalista e tradutor. Hoje, mais de trinta anos depois de sua morte, dá nome a uma praça no bairro da Serraria, em Porto Alegre, onde morou durante quase a vida toda. Nossos caminhos se cruzaram quando ele casou com minha tia Edith, a Deth, irmã do meu pai. Juvenal foi descrito por um amigo famoso, Érico Veríssimo, como um “homem tão tímido que parecia pedir desculpas por estar vivo”. Só que o autor de “O Tempo e o Vento” complementava; “mas não se enganem diante de tanta mansidão. É homem de convicções firmes, de uma só palavra”. Tanto que acabou passando um ano na cadeia, preso pela ditadura de Getúlio Vargas, episódio sobre o qual ele pouco falava.
Gugu e Deth moravam numa casa simples, perto do rio Guaíba, e passar uns dias lá era sempre muito bom. Eu adorava conversar com ele; mesmo sendo de poucas palavras, Gugu era um homem vivido, culto e dono de um fino senso de humor. Devo a ele pelo menos três coisas que levei para o resto da vida.
A primeira foi me ensinar datilografia. Compartilhando a Hermes Baby (quem não sabe o que é, favor ir no Google e procurar por “máquina de escrever”), que ele usava para ganhar a vida, aprendi a dominar os mistérios do teclado, técnica que me ajuda até hoje a redigir meus textos. Gugu foi um mestre dedicado e paciente.
A segunda foi um trocadilho em italiano; “traduttore, traditore”, tradutores são traidores. Falava isto ao comentar a dureza de sua profissão; existem palavras e expressões que não têm equivalentes em outros idiomas, portanto todo o tradutor tem que fazer algum tipo de adaptação no texto. Isto configurava a “traição” inevitável. Até hoje uso isto em aula, quando lembro, por exemplo, que a tradução correta de “Project” não é “Projeto” e outras assim. Onde quer que esteja, tenho certeza que Gugu deve dar boas risadas quando vê as besteiras do “Google Translator”, por exemplo.
Mas a terceira e, certamente, a mais importante, veio logo depois do AI-5, que acaba de completar 50 anos de triste memória. Os ânimos estavam exaltados e eu, com meus 17 anos, desprezava tudo o que fosse “reacionário”, ou seja, a favor dos militares. E meu alvo preferencial era o escritor e jornalista Nelson Rodrigues, que assinava colunas diárias apoiando a ditadura. Obviamente, Gugu tinha muito mais razões que eu para odiar os militares e seus apoiadores. E foi isto que tornou este diálogo inesquecível para mim.
Ele chegou com o jornal na mão e me perguntou, em gauchês perfeito;
- Tu leste a coluna do Nélson Rodrigues hoje?
O gênio adolescente aqui, conhecedor profundo de todas as verdades da vida, respondeu com a arrogância peculiar;
- Não perco meu tempo com este reacionário imbecil.
A resposta veio rápida, num tom que, para um sujeito como ele, era quase agressivo;
- Pois não sabes o que estás perdendo...
E isto foi só o começo. Durante cerca de dez minutos Gugu falou sem parar (seguramente um recorde para ele) sobre a importância de ouvir as boas ideias, independente do viés político, sobre como Nélson era brilhante e tinha que ser respeitado e admirado, e mais um monte de coisas.
Quando finalmente ele voltou à sua calma e mudez habitual, o sobrinho imbecil aqui havia entendido uma grande lição; não existe dono da verdade. Ouvir o outro lado é sempre importante. Porque existem pessoas tão boas ou melhores que você que acreditam em coisas diferentes, seja o assunto política, religião, futebol ou qualquer outro. E você vai aprender com elas, sempre.
Tenho certeza que Gugu deve estar muito triste com os rumos que o Brasil tomou, com os erros da esquerda em que ele tanto acreditava e, principalmente, com a pobreza aviltante do nosso debate político atual. Pelo menos uma alegria posso dar a ele; o sobrinho aqui ouviu e aprendeu. De lá para cá sempre gostei de debater e me posicionar em todo o tipo de assunto, antes e depois da internet, e me orgulho de dizer que jamais ofendi ou deixei de ouvir alguém. Muito por força da bendita lição do meu tio comunista, que não disfarçava sua admiração por um reacionário brilhante.
Gugu, meu doce tio comunista. Saudades de você!
quarta-feira, 28 de novembro de 2018
OS TORCEDORES CEARENSES PODEM DAR UMA BELA LIÇÃO AO BRASIL EM 2019
Um dos melhores livros que li foi “Como o futebol explica o mundo”, de Franklin Foer. Ele lança um olhar sobre a globalização a partir do futebol. Foer demonstra, entre outras coisas, que o futebol acabou sendo um fator importante para a integração racial na Europa; afinal, torcidas que eram abertamente racistas (e, em muitos casos, se orgulhavam disto), foram se derretendo diante do talento de craques como Drogba, por exemplo. Assim, a contratação de atletas negros, que foi até proibida durante muito tempo, tornou-se perfeitamente normal. É claro que ainda existem torcedores racistas, mas são cada vez menos representativos.
Falo tudo isto para introduzir o assunto da violência relacionada ao futebol, e o que é possível fazer para acabar com ela. O mico de nível mundial que estamos pagando neste episódio da final da Libertadores talvez possa servir como ponto de partida para uma mudança de atitude. Não custa lembrar que os hooligans ingleses eram até mais terríveis que os nossos, e patrocinaram episódios sangrentos até que as altas autoridades do país, comandadas pela própria Rainha Elizabeth, resolveram tomar providências firmes, que praticamente erradicaram o problema.
Na América do Sul, como de hábito, a palavra de ordem é permissividade. Cedemos a tal ponto que hoje encaramos com naturalidade uma situação absurda como os jogos com “torcida única”. Entendo que negar acesso a um torcedor que quer apenas ver seu time jogar é uma espécie de falência moral da sociedade. E o episódio do ataque quase homicida contra o ônibus do Boca Juniors mostra que nem isto resolve o problema da barbárie.
Com tudo isto, entendo que o povo cearense tem, no momento, uma oportunidade de ouro nas mãos. Afinal, o momento é de justo orgulho; o estado consegue, pela primeira vez, emplacar seus dois times entre os vinte da primeira divisão brasileira. E tenho certeza que o país todo estará de olho nos clássicos cearenses pelo Brasileirão.
E o que poderia ser mais bonito? Que os nossos irmãos nordestinos, tão injustamente criticados muitas vezes, mostrassem para a sociedade “do sul” que é possível realizar um clássico de futebol com disputa, emoção, festa, mas sem violência, com as duas torcidas dividindo o estádio e voltando prá casa em paz. Seria um exemplo inesquecível de civilidade, que, acredito, traria reflexos positivos para todos nós.
Enfim, pode ser só um sonho, mas, como diz o poeta, sonho que se sonha junto vira realidade... Fica a dica deste gaúcho gremista, radicado no Rio e apaixonado pelo Nordeste (mal posso esperar a próxima chamada para dar aula em Fortaleza!).
Falo tudo isto para introduzir o assunto da violência relacionada ao futebol, e o que é possível fazer para acabar com ela. O mico de nível mundial que estamos pagando neste episódio da final da Libertadores talvez possa servir como ponto de partida para uma mudança de atitude. Não custa lembrar que os hooligans ingleses eram até mais terríveis que os nossos, e patrocinaram episódios sangrentos até que as altas autoridades do país, comandadas pela própria Rainha Elizabeth, resolveram tomar providências firmes, que praticamente erradicaram o problema.
Na América do Sul, como de hábito, a palavra de ordem é permissividade. Cedemos a tal ponto que hoje encaramos com naturalidade uma situação absurda como os jogos com “torcida única”. Entendo que negar acesso a um torcedor que quer apenas ver seu time jogar é uma espécie de falência moral da sociedade. E o episódio do ataque quase homicida contra o ônibus do Boca Juniors mostra que nem isto resolve o problema da barbárie.
Com tudo isto, entendo que o povo cearense tem, no momento, uma oportunidade de ouro nas mãos. Afinal, o momento é de justo orgulho; o estado consegue, pela primeira vez, emplacar seus dois times entre os vinte da primeira divisão brasileira. E tenho certeza que o país todo estará de olho nos clássicos cearenses pelo Brasileirão.
E o que poderia ser mais bonito? Que os nossos irmãos nordestinos, tão injustamente criticados muitas vezes, mostrassem para a sociedade “do sul” que é possível realizar um clássico de futebol com disputa, emoção, festa, mas sem violência, com as duas torcidas dividindo o estádio e voltando prá casa em paz. Seria um exemplo inesquecível de civilidade, que, acredito, traria reflexos positivos para todos nós.
Enfim, pode ser só um sonho, mas, como diz o poeta, sonho que se sonha junto vira realidade... Fica a dica deste gaúcho gremista, radicado no Rio e apaixonado pelo Nordeste (mal posso esperar a próxima chamada para dar aula em Fortaleza!).
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
Entre Bolsonaro e Lula, eu escolho Millor Fernandes
No triste Brasil dividido e irracional de hoje, dois grupos se digladiam na internet, na rua, na chuva, na fazenda...
De um lado há os que estão dispostos a brigar com todos os amigos e votar em candidatos que sabidamente não prestam porque é preciso “acabar com o fascismo”. Isto mais de setenta anos depois da morte de Mussolini.
Do outro lado há os que estão dispostos a brigar com todos os amigos e votar em candidatos que sabidamente não prestam porque é preciso “deter o avanço do comunismo”. Isto quase trinta anos depois da queda do muro de Berlim.
Tentando manter um mínimo de racionalidade no debate, lembro o velho e bom Millôr Fernandes, que dizia; quando uma ideologia fica bem velhinha, ela vem morar no Brasil... Complemento meu; nada mais irrelevante, no mundo de hoje, que discutir sobre fascismo ou comunismo. Só aqui, na segunda divisão do terceiro mundo.
Aliás, o mesmo Millor disse que “democracia é o sujeito poder comemorar um gol do Vasco no meio da arquibancada do Flamengo, e vice-versa”. Mais atual, impossível.
Enfim, entre ressuscitar Mussolini ou Stalin, eu prefiro Millôr. Salve o mestre!
Até a próxima,
De um lado há os que estão dispostos a brigar com todos os amigos e votar em candidatos que sabidamente não prestam porque é preciso “acabar com o fascismo”. Isto mais de setenta anos depois da morte de Mussolini.
Do outro lado há os que estão dispostos a brigar com todos os amigos e votar em candidatos que sabidamente não prestam porque é preciso “deter o avanço do comunismo”. Isto quase trinta anos depois da queda do muro de Berlim.
Tentando manter um mínimo de racionalidade no debate, lembro o velho e bom Millôr Fernandes, que dizia; quando uma ideologia fica bem velhinha, ela vem morar no Brasil... Complemento meu; nada mais irrelevante, no mundo de hoje, que discutir sobre fascismo ou comunismo. Só aqui, na segunda divisão do terceiro mundo.
Aliás, o mesmo Millor disse que “democracia é o sujeito poder comemorar um gol do Vasco no meio da arquibancada do Flamengo, e vice-versa”. Mais atual, impossível.
Enfim, entre ressuscitar Mussolini ou Stalin, eu prefiro Millôr. Salve o mestre!
Até a próxima,
sábado, 29 de setembro de 2018
O estranho paradoxo de um povo que exige mudanças, mas não quer mudar
Fazendo uma breve reflexão sobre as pesquisas eleitorais, o panorama do Brasil é hoje desolador.
A nível nacional, anuncia-se um segundo turno entre os dois candidatos mais conservadores do espectro. De um lado o PT de Lula, que em catorze anos de poder conseguiu levar o País à maior recessão de sua história e, de quebra, implantou um esquema de corrupção cujos números são, para dizer o mínimo, impressionantes. No outro canto do ringue um capitão grosseiro, que promete trazer de volta os bons tempos(?) da ditadura militar. Em comum os dois grupos têm a visão de que bom era o passado, e nenhum projeto para o futuro.
Afora isto, a nível estadual, alguns nomes e figurinhas carimbadas continuam com eleitorados fieis e numerosos; Garotinho, Aécio, Calheiros, Dilma... enfim, a lista é longa. Isto sem contar os clãs familiares que se perpetuam com a benção dos eleitores; só no Rio temos filhos de Cabral, Eduardo Cunha, Roberto Jefferson, Picciani e do próprio casal Garotinho ascendendo a postos importantes no congresso nacional.
A qualidade dos debates, obviamente, segue a mesma regra; há pouco tempo as redes antissociais se digladiavam para saber se o nazismo era de direita ou esquerda, mais de setenta nos depois da morte de Hitler. Mais uma vez, a fixação no passado.
Resumindo, conforme sugeri no meu livro, acho que os versos ufanistas (e altamente complexos) do hino nacional deveriam ser substituídos por um samba antigo, de um baiano genial que passou à historia sob a alcunha de Batatinha; “Se eu deixar de sofrer, como é que vai ser, para me acostumar...”.
Enfim, todo mundo quer mudanças, mas sem mexer no que está aí. Fica difícil...
A nível nacional, anuncia-se um segundo turno entre os dois candidatos mais conservadores do espectro. De um lado o PT de Lula, que em catorze anos de poder conseguiu levar o País à maior recessão de sua história e, de quebra, implantou um esquema de corrupção cujos números são, para dizer o mínimo, impressionantes. No outro canto do ringue um capitão grosseiro, que promete trazer de volta os bons tempos(?) da ditadura militar. Em comum os dois grupos têm a visão de que bom era o passado, e nenhum projeto para o futuro.
Afora isto, a nível estadual, alguns nomes e figurinhas carimbadas continuam com eleitorados fieis e numerosos; Garotinho, Aécio, Calheiros, Dilma... enfim, a lista é longa. Isto sem contar os clãs familiares que se perpetuam com a benção dos eleitores; só no Rio temos filhos de Cabral, Eduardo Cunha, Roberto Jefferson, Picciani e do próprio casal Garotinho ascendendo a postos importantes no congresso nacional.
A qualidade dos debates, obviamente, segue a mesma regra; há pouco tempo as redes antissociais se digladiavam para saber se o nazismo era de direita ou esquerda, mais de setenta nos depois da morte de Hitler. Mais uma vez, a fixação no passado.
Resumindo, conforme sugeri no meu livro, acho que os versos ufanistas (e altamente complexos) do hino nacional deveriam ser substituídos por um samba antigo, de um baiano genial que passou à historia sob a alcunha de Batatinha; “Se eu deixar de sofrer, como é que vai ser, para me acostumar...”.
Enfim, todo mundo quer mudanças, mas sem mexer no que está aí. Fica difícil...
domingo, 23 de setembro de 2018
Será que debate e "dedo na cara" são sinônimos?
O debate totalmente extemporâneo e inútil sobre o nazismo ser destro ou canhoto chegou às paginas do Globo na edição de sábado, 22/09/2018. E um depoimento me chamou a atenção. Uma professora que ministra aulas de história há cerca de 20 anos em uma escola de Belford Roxo (RJ) afirmou que, de uns tempos para cá, “Os alunos passaram a colocar o dedo na cara dos professores e questionar fatos históricos com bases em achismos vistos na internet”.
O que me chamou a atenção não foi o questionamento, mas sim o dedo na cara. Sou professor e adoro quando os alunos me contestam, porque um debate é sempre mais interessante do que uma aula expositiva, só que a ideia de encarar com naturalidade o “dedo na cara” me parece inconcebível.
Extrapolando o raciocínio, entendo que este é um dos grandes problemas brasileiros; confundimos debate com dedo na cara. As grandes nações são forjadas no debate e na troca de ideias, na tese e antítese, no questionamento contínuo. Sem dedo na cara, por supuesto.
Não é preciso ser um gênio em politica para entender que é por isto que chegamos hoje a uma eleição polarizada entre um grupo que apoia cegamente um corrupto que está na cadeia e outro grupo que apoia cegamente um cara que idolatra torturadores. Tenho certeza que nenhum dos dois é uma boa solução para o Brasil, mas não temos debate, só dedo na cara.
Fé cega, faca amolada
O que me chamou a atenção não foi o questionamento, mas sim o dedo na cara. Sou professor e adoro quando os alunos me contestam, porque um debate é sempre mais interessante do que uma aula expositiva, só que a ideia de encarar com naturalidade o “dedo na cara” me parece inconcebível.
Extrapolando o raciocínio, entendo que este é um dos grandes problemas brasileiros; confundimos debate com dedo na cara. As grandes nações são forjadas no debate e na troca de ideias, na tese e antítese, no questionamento contínuo. Sem dedo na cara, por supuesto.
Não é preciso ser um gênio em politica para entender que é por isto que chegamos hoje a uma eleição polarizada entre um grupo que apoia cegamente um corrupto que está na cadeia e outro grupo que apoia cegamente um cara que idolatra torturadores. Tenho certeza que nenhum dos dois é uma boa solução para o Brasil, mas não temos debate, só dedo na cara.
Fé cega, faca amolada
domingo, 16 de setembro de 2018
As eleições e a triste escolha que vamos ter que fazer
Faltando três semanas para a eleição presidencial, as projeções das pesquisas ainda são nebulosas para o provável segundo turno. Bolsonaro vai estar lá, é quase certo, mas contra quem?
Neste ponto, entendo que cabe uma reflexão. A rejeição ao nome de Bolsonaro é histérica, mas eu – que não sou simpatizante dele, quero deixar claro – acho que chegou a hora de pensar de forma prática e objetiva, deixando preconceitos de lado.
Tive a pachorra de ouvir algumas falas do “Mito” – não deixa de ser um exercício de paciência, muitas vezes – e tirei uma conclusão; ele é realmente grosseiro, fã de torturadores, mas é preciso admitir que, em mais de vinte anos de vida pública, não pesa contra ele ou seus filhos qualquer acusação consistente de corrupção ou enriquecimento ilícito. E também jamais disse que pretende voltar com a ditadura militar ou algo parecido.
Já os partidos que chamaríamos de “esquerda” (PT e seus genéricos), deixam claro que seu primeiro ato, caso eleitos, será rasgar a constituição, achincalhar o Judiciário e tirar da cadeia Lula e os amiguinhos que estão presos por roubo e corrupção. Controlar a mídia e a liberdade de expressão não está descartado. Enfim, é a revanche do AI-5; quem é da nossa gangue pode tudo, e aí dos subversivos que quiserem salvar o Brasil de outro jeito! Ora, o nome técnico disto é ditadura. Tão ignóbil quanto a dos militares.
Resumindo, é quase certo que teremos que escolher entre um dos demônios acima. Sim, existe o Ciro Gomes, mas este pode ser o pior dos mundos; um cara tão grosseiro e destemperado quanto Bolsonaro, e com uma sede de poder que talvez o leve a aceitar a ideia de indultar Lula em troca dos votos da “esquerda”. É o que penso dele, posso estar errado.
Enfim, salvo novas facadas, canetadas ou intervenções divinas, este é o quadro. Não é grande coisa, mas é o que temos para o momento.
Que Deus ilumine a nossa escolha...
Neste ponto, entendo que cabe uma reflexão. A rejeição ao nome de Bolsonaro é histérica, mas eu – que não sou simpatizante dele, quero deixar claro – acho que chegou a hora de pensar de forma prática e objetiva, deixando preconceitos de lado.
Tive a pachorra de ouvir algumas falas do “Mito” – não deixa de ser um exercício de paciência, muitas vezes – e tirei uma conclusão; ele é realmente grosseiro, fã de torturadores, mas é preciso admitir que, em mais de vinte anos de vida pública, não pesa contra ele ou seus filhos qualquer acusação consistente de corrupção ou enriquecimento ilícito. E também jamais disse que pretende voltar com a ditadura militar ou algo parecido.
Já os partidos que chamaríamos de “esquerda” (PT e seus genéricos), deixam claro que seu primeiro ato, caso eleitos, será rasgar a constituição, achincalhar o Judiciário e tirar da cadeia Lula e os amiguinhos que estão presos por roubo e corrupção. Controlar a mídia e a liberdade de expressão não está descartado. Enfim, é a revanche do AI-5; quem é da nossa gangue pode tudo, e aí dos subversivos que quiserem salvar o Brasil de outro jeito! Ora, o nome técnico disto é ditadura. Tão ignóbil quanto a dos militares.
Resumindo, é quase certo que teremos que escolher entre um dos demônios acima. Sim, existe o Ciro Gomes, mas este pode ser o pior dos mundos; um cara tão grosseiro e destemperado quanto Bolsonaro, e com uma sede de poder que talvez o leve a aceitar a ideia de indultar Lula em troca dos votos da “esquerda”. É o que penso dele, posso estar errado.
Enfim, salvo novas facadas, canetadas ou intervenções divinas, este é o quadro. Não é grande coisa, mas é o que temos para o momento.
Que Deus ilumine a nossa escolha...
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
Os “Trumpistas enrustidos” enganaram as pesquisas. Pode acontecer o mesmo com Bolsonaro...
Às vésperas da última eleição americana, todos os institutos de pesquisa de lá indicavam a vitória de Hillary Clinton sobre Donald Trump. A margem era estreita, mas garantida. Na hora da verdade, todo mundo sabe o que aconteceu; o topetudo escroto derrotou a princesinha do politicamente correto, para horror da plateia. E o mais incrível é que o governo dele, apesar dele, está dando certo; pelo menos a economia (que é o que conta), vai muito bem.
Li, não sei onde, uma teoria que me pareceu bem consistente; a repulsa histérica que cercava o nome de Donald Trump era tão grande que boa parte de seus eleitores omitia a sua escolha até para os pesquisadores e estatísticos. Como cantava a grande Amália Rodrigues, em um fado inesquecível, “de quem eu gosto, nem às paredes confesso...”. Pois os eleitores de Trump não confessavam, mas, na solidão da cabine, viraram o jogo.
Creio que o fenômeno pode se repetir com Bolsonaro. As reações a seu nome são histéricas e, muitas vezes, beiram o irracional. É claro que existem os que assumiram sua opção, sem medo do linchamento moral; são os vinte e tantos por cento do eleitorado que, praticamente, asseguram sua presença no segundo turno.
E é exatamente no segundo turno, onde Bolsonaro sempre aparece como perdedor, que eu vejo o fantasma do “eleitor enrustido”; afinal, é muito menos perigoso para a vida social de alguém dizer que vota em qualquer um, menos nele, do que assumir algo do tipo “se for para eleger um coronelão que nem o Ciro, aí vou de Bolsonaro e f(*)-se!” (isto vale para Marina, Alckmin, Haddad ou até o Lula, se acontecer ainda).
Resumindo; acho que a chance de Bolsonaro ganhar o segundo turno é muito maior do que se pensa. E tenho certeza que a maneira mais burra de combatê-lo é xingando os seus eleitores.
Quem viver, verá.
Li, não sei onde, uma teoria que me pareceu bem consistente; a repulsa histérica que cercava o nome de Donald Trump era tão grande que boa parte de seus eleitores omitia a sua escolha até para os pesquisadores e estatísticos. Como cantava a grande Amália Rodrigues, em um fado inesquecível, “de quem eu gosto, nem às paredes confesso...”. Pois os eleitores de Trump não confessavam, mas, na solidão da cabine, viraram o jogo.
Creio que o fenômeno pode se repetir com Bolsonaro. As reações a seu nome são histéricas e, muitas vezes, beiram o irracional. É claro que existem os que assumiram sua opção, sem medo do linchamento moral; são os vinte e tantos por cento do eleitorado que, praticamente, asseguram sua presença no segundo turno.
E é exatamente no segundo turno, onde Bolsonaro sempre aparece como perdedor, que eu vejo o fantasma do “eleitor enrustido”; afinal, é muito menos perigoso para a vida social de alguém dizer que vota em qualquer um, menos nele, do que assumir algo do tipo “se for para eleger um coronelão que nem o Ciro, aí vou de Bolsonaro e f(*)-se!” (isto vale para Marina, Alckmin, Haddad ou até o Lula, se acontecer ainda).
Resumindo; acho que a chance de Bolsonaro ganhar o segundo turno é muito maior do que se pensa. E tenho certeza que a maneira mais burra de combatê-lo é xingando os seus eleitores.
Quem viver, verá.
domingo, 26 de agosto de 2018
Claudiomiro, as Brahmas da Polar e a lembrança de um tempo menos neurótico
Da série “depois de velho eu virei sentimental”;
Fiquei emocionado com a morte de Claudiomiro, um dos maiores centroavantes da história do Internacional e autor do primeiro gol do Estádio Beira-Rio, em 1969. E o que me emocionou foi lembrar uma historinha folclórica dele, da qual sou testemunha.
Na Porto Alegre da época havia um programa esportivo conhecido; Jogo Aberto, na extinta TV Difusora. O programa era patrocinado pela cerveja Polar, até hoje uma das melhores do Brasil, e o jogador escolhido como “o melhor da rodada” ganhava uma caixa de cervejas.
O problema é que a liderança de mercado da onipresente Brahma era tão grande que o pessoal já tinha criado o hábito de usar Brahma como sinônimo de cerveja. O papo era; domingo vamos tomar umas Brahmas (que podia ser de qualquer marca).
Pois o nosso bom Claudiomiro ganhou o prêmio e, na hora de agradecer, com o programa ao vivo, lascou esta; “Queria agradecer à Polar pela caixa de Brahma que me mandou...”. Quase morri de rir vendo a cara dos apresentadores. No dia seguinte, sacaneamos muito os amigos colorados com a mancada do ídolo deles.
Mais do que um “causo” divertido, esta história marca prá mim uma época em que o mundo era mentalmente mais saudável. Sim, um jogador podia ganhar cervejas de presente, sim, a gente curtia com a cara dos outros torcedores e eles com a nossa e tava tudo bem, sim, jogadores falavam coisas erradas e tava tudo certo.
Hoje, a pressão doentia das redes antissociais e do terrível “politicamente correto” obriga jogadores a ter assessores que orientam o que pode e o que não podem falar, porque qualquer erro pode virar cavalo de batalha para gente estúpida e cheia de ódio no coração.
Vai em paz, meu bom Claudiomiro. Tenho certeza que lá no paraíso estão te esperando com uma caixa de Brahma da Polar, bem gelada.
Até a próxima!
Fiquei emocionado com a morte de Claudiomiro, um dos maiores centroavantes da história do Internacional e autor do primeiro gol do Estádio Beira-Rio, em 1969. E o que me emocionou foi lembrar uma historinha folclórica dele, da qual sou testemunha.
Na Porto Alegre da época havia um programa esportivo conhecido; Jogo Aberto, na extinta TV Difusora. O programa era patrocinado pela cerveja Polar, até hoje uma das melhores do Brasil, e o jogador escolhido como “o melhor da rodada” ganhava uma caixa de cervejas.
O problema é que a liderança de mercado da onipresente Brahma era tão grande que o pessoal já tinha criado o hábito de usar Brahma como sinônimo de cerveja. O papo era; domingo vamos tomar umas Brahmas (que podia ser de qualquer marca).
Pois o nosso bom Claudiomiro ganhou o prêmio e, na hora de agradecer, com o programa ao vivo, lascou esta; “Queria agradecer à Polar pela caixa de Brahma que me mandou...”. Quase morri de rir vendo a cara dos apresentadores. No dia seguinte, sacaneamos muito os amigos colorados com a mancada do ídolo deles.
Mais do que um “causo” divertido, esta história marca prá mim uma época em que o mundo era mentalmente mais saudável. Sim, um jogador podia ganhar cervejas de presente, sim, a gente curtia com a cara dos outros torcedores e eles com a nossa e tava tudo bem, sim, jogadores falavam coisas erradas e tava tudo certo.
Hoje, a pressão doentia das redes antissociais e do terrível “politicamente correto” obriga jogadores a ter assessores que orientam o que pode e o que não podem falar, porque qualquer erro pode virar cavalo de batalha para gente estúpida e cheia de ódio no coração.
Vai em paz, meu bom Claudiomiro. Tenho certeza que lá no paraíso estão te esperando com uma caixa de Brahma da Polar, bem gelada.
Até a próxima!
terça-feira, 21 de agosto de 2018
Lulistas e Bolsonarianos têm uma coisa em comum; o desprezo pelas instituições democráticas. E isto é um perigo
O cenário polarizado e grosseiro que envolve a atual campanha eleitoral deriva, de certa forma, da visão totalitária dos seguidores dos dois nomes mais importantes do cenário; o candidato Bolsonaro e Lula, o candidato a candidato.
Bolsonaro pelo menos é sincero e explícito; apoia abertamente a volta da ditadura militar, torce o nariz para tudo o que represente “direitos humanos”, cita torturadores como exemplos de conduta... Enfim, quem vota nele sabe exatamente o que ele pensa.
Já os que exigem a libertação de Lula são um pouco mais sutis, mas não menos perigosos. Afinal, acreditar que a condenação de Lula é um gesto político e não se baseia em provas reais significa pensar que o todo o sistema judiciário brasileiro não vale nada. E não é preciso ser um gênio para saber que a primeira coisa que qualquer regime ditatorial faz é acabar com o judiciário e estabelecer suas próprias leis. Juntando A com B...
Outro sintoma desta distorção pode ser visto na devoção que a maioria dos Lulistas tem por Fidel Castro. Não há como negar o carisma e a força de Fidel como líder, mas, por outro lado, é preciso entender que ele sempre foi um ditador, incapaz de conviver com o contraditório. Isto o coloca num nível muito abaixo de verdadeiros líderes democráticos, como Churchill e Mandela, só para citar dois. Resumindo; quem louva a trajetória de Fidel Castro não acredita em soluções democráticas, simples assim.
Enfim, o que une os dois lados aparentemente opostos desta moeda é o fascínio por líderes messiânicos e a incapacidade de conviver com quem ousa ter opiniões diferentes. Um lado quer a volta da ditadura dos militares, o outro acredita que Lula é o ditador “bonzinho e amigo do povo” que vai transformar o Brasil na grande e feliz Cuba dos sonhos deles.
O que me deixa mais preocupado é que, somados, Lulistas e Bolsonarianos representam mais da metade dos eleitores brasileiros. A conclusão é triste; democraticamente, a maioria dos brasileiros decide que é contra a democracia. Como é que a gente sai desta?
Quem viver, verá.
Bolsonaro pelo menos é sincero e explícito; apoia abertamente a volta da ditadura militar, torce o nariz para tudo o que represente “direitos humanos”, cita torturadores como exemplos de conduta... Enfim, quem vota nele sabe exatamente o que ele pensa.
Já os que exigem a libertação de Lula são um pouco mais sutis, mas não menos perigosos. Afinal, acreditar que a condenação de Lula é um gesto político e não se baseia em provas reais significa pensar que o todo o sistema judiciário brasileiro não vale nada. E não é preciso ser um gênio para saber que a primeira coisa que qualquer regime ditatorial faz é acabar com o judiciário e estabelecer suas próprias leis. Juntando A com B...
Outro sintoma desta distorção pode ser visto na devoção que a maioria dos Lulistas tem por Fidel Castro. Não há como negar o carisma e a força de Fidel como líder, mas, por outro lado, é preciso entender que ele sempre foi um ditador, incapaz de conviver com o contraditório. Isto o coloca num nível muito abaixo de verdadeiros líderes democráticos, como Churchill e Mandela, só para citar dois. Resumindo; quem louva a trajetória de Fidel Castro não acredita em soluções democráticas, simples assim.
Enfim, o que une os dois lados aparentemente opostos desta moeda é o fascínio por líderes messiânicos e a incapacidade de conviver com quem ousa ter opiniões diferentes. Um lado quer a volta da ditadura dos militares, o outro acredita que Lula é o ditador “bonzinho e amigo do povo” que vai transformar o Brasil na grande e feliz Cuba dos sonhos deles.
O que me deixa mais preocupado é que, somados, Lulistas e Bolsonarianos representam mais da metade dos eleitores brasileiros. A conclusão é triste; democraticamente, a maioria dos brasileiros decide que é contra a democracia. Como é que a gente sai desta?
Quem viver, verá.
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Neymar tem que tomar uma decisão na vida
Da série “um homem de moral, não fica no chão...”;
2018 não foi exatamente um ano de sonhos para o nosso craque Neymar. Contratado para ser o craque do PSG acabou tendo um desempenho irregular ao longo do ano, depois sofreu uma lesão séria e, na Copa do Mundo, sua imagem ficou marcada muito mais pelas simulações do que por grandes jogadas. E acabou não arrumando vaga nem entre os dez indicados para o prêmio de melhor jogador do ano. Dizem as más línguas que o único prêmio que ele poderia cobiçar atualmente seria o “Troféu Cigano Igor”, de pior ator do mundo (no caso ele e a Bruna Marquesini poderiam concorrer na categoria dupla mista, com boas possibilidades).
Acho que chegou para Neymar o momento de decisão na vida e na carreira; ou ele resolve manter o comportamento de adolescente mimado e vai ser apenas mais uma promessa de supercraque que não vingou, ou encara uma virada firme e vira um profissional de verdade, que será um sério candidato a melhor jogador de sua geração, porque bola prá isto ele tem.
Um bom exemplo para ele pode ser o Cristiano Ronaldo. Na Copa de 2006 o então jovem e promissor português saiu com a fama de cai-cai, desleal e arrogante. CR7 aprendeu a lição e hoje já tem seu nome gravado em letras de ouro na historia do futebol, um craque e um líder digno de ser citado junto a Pelé, Maradona e mais uns poucos em qualquer lista de melhores de todos os tempos.
Espero, sinceramente, que Neymar faça a opção certa. Seria bom prá ele e para nós, torcedores brasileiros.
Quem viver, verá.
2018 não foi exatamente um ano de sonhos para o nosso craque Neymar. Contratado para ser o craque do PSG acabou tendo um desempenho irregular ao longo do ano, depois sofreu uma lesão séria e, na Copa do Mundo, sua imagem ficou marcada muito mais pelas simulações do que por grandes jogadas. E acabou não arrumando vaga nem entre os dez indicados para o prêmio de melhor jogador do ano. Dizem as más línguas que o único prêmio que ele poderia cobiçar atualmente seria o “Troféu Cigano Igor”, de pior ator do mundo (no caso ele e a Bruna Marquesini poderiam concorrer na categoria dupla mista, com boas possibilidades).
Acho que chegou para Neymar o momento de decisão na vida e na carreira; ou ele resolve manter o comportamento de adolescente mimado e vai ser apenas mais uma promessa de supercraque que não vingou, ou encara uma virada firme e vira um profissional de verdade, que será um sério candidato a melhor jogador de sua geração, porque bola prá isto ele tem.
Um bom exemplo para ele pode ser o Cristiano Ronaldo. Na Copa de 2006 o então jovem e promissor português saiu com a fama de cai-cai, desleal e arrogante. CR7 aprendeu a lição e hoje já tem seu nome gravado em letras de ouro na historia do futebol, um craque e um líder digno de ser citado junto a Pelé, Maradona e mais uns poucos em qualquer lista de melhores de todos os tempos.
Espero, sinceramente, que Neymar faça a opção certa. Seria bom prá ele e para nós, torcedores brasileiros.
Quem viver, verá.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Zico, Modric e os deuses do futebol; dois craques, duas histórias diferentes
Não sei se muita gente reparou nisto, mas nesta Copa tivemos uma história envolvendo um extraordinário camisa 10 que repetiu, com um final diferente, um episódio de 32 anos atrás.
México, 1986, quartas de final, Brasil x França. Jogo empatado, e de repente Zico enfia uma bola genial para Branco que vai marcar mas é derrubado pelo goleiro. Zico bate o pênalti... e perde. O empate sobrevive à prorrogação e o jogo vai para os pênaltis. Corajoso, como deve ser um líder de verdade, Zico não se deixa abater pelo erro cometido, se oferece para chutar e converte com perfeição. Infelizmente Sócrates e Júlio Cesar perdem suas cobranças, o Brasil é derrotado, volta prá casa e Zico carrega por muito tempo a marca (injusta) de responsável pela eliminação em sua última copa como jogador.
Rússia, 2018, oitavas de final, Croácia x Dinamarca. A prorrogação está quase em seu final quando o craque Modric descola um lançamento preciso para Rebic, que passa pelo goleiro mas é derrubado diante do gol vazio. Capitão e craque do time, Modric bota a bola embaixo do braço, vai para a marca e... bate ridiculamente mal, proporcionando uma defesa firme do goleirão Schmeichel. Decepcionados, os croatas vão para a decisão por pênaltis. Tão líder e craque quanto o Zico de 86, Modric encara o desafio e converte a sua cobrança. Só que, por capricho dos deuses do futebol, o goleiro Subasic pega três chutes dinamarqueses, a Croácia ganha, vai em frente e chega a um surpreendente vice-campeonato. De quebra, Modric é coroado (com justiça) o craque da Copa.
O que isto prova? Rigorosamente nada, apenas que o futebol é fascinante justamente por envolver elementos de imprevisibilidade que só podem ser atribuídos a deuses caprichosos e apaixonados. Zico, o castigado, era um líder acostumado a levar à vitória um time do Flamengo que até os não-flamenguistas, como é o meu caso, lembram com saudades (eu sou do tempo em que, acima da torcida pelo meu clube, estava o amor pela arte do futebol. E aquele Flamengo era fantástico). Os deuses do futebol não concederam a ele e sua grande geração, que incluía Falcão, Sócrates, Éder e o técnico Telê, entre outros, sequer a honra de uma final de Copa do Mundo. Já Modric, o escolhido da vez, está acostumado a fazer um trabalho de operário em um time onde os galácticos são Cristiano Ronaldo, Sérgio Ramos, Kroos e outros. Mas mostrou grandeza e força quando precisou liderar seus irredutíveis companheiros em uma jornada gloriosa. Talvez isto tenha agradado aos deuses.
A lição aprendida é; a liderança tem várias faces e, muitas vezes, aquele baixinho com cara de fuinha, que não cobre o corpo de tatuagens nem ostenta penteados esdrúxulos, não produz lances cinematográficos mas joga com simplicidade e eficiência, pode se mostrar o maior de todos os guerreiros, quando é necessário.
Quanto aos deuses do futebol... bem, eles têm suas próprias regras. Talvez achassem que Zico já tinha ganho muito. E que o mundo precisava conhecer melhor o talento de Modric.
México, 1986, quartas de final, Brasil x França. Jogo empatado, e de repente Zico enfia uma bola genial para Branco que vai marcar mas é derrubado pelo goleiro. Zico bate o pênalti... e perde. O empate sobrevive à prorrogação e o jogo vai para os pênaltis. Corajoso, como deve ser um líder de verdade, Zico não se deixa abater pelo erro cometido, se oferece para chutar e converte com perfeição. Infelizmente Sócrates e Júlio Cesar perdem suas cobranças, o Brasil é derrotado, volta prá casa e Zico carrega por muito tempo a marca (injusta) de responsável pela eliminação em sua última copa como jogador.
Rússia, 2018, oitavas de final, Croácia x Dinamarca. A prorrogação está quase em seu final quando o craque Modric descola um lançamento preciso para Rebic, que passa pelo goleiro mas é derrubado diante do gol vazio. Capitão e craque do time, Modric bota a bola embaixo do braço, vai para a marca e... bate ridiculamente mal, proporcionando uma defesa firme do goleirão Schmeichel. Decepcionados, os croatas vão para a decisão por pênaltis. Tão líder e craque quanto o Zico de 86, Modric encara o desafio e converte a sua cobrança. Só que, por capricho dos deuses do futebol, o goleiro Subasic pega três chutes dinamarqueses, a Croácia ganha, vai em frente e chega a um surpreendente vice-campeonato. De quebra, Modric é coroado (com justiça) o craque da Copa.
O que isto prova? Rigorosamente nada, apenas que o futebol é fascinante justamente por envolver elementos de imprevisibilidade que só podem ser atribuídos a deuses caprichosos e apaixonados. Zico, o castigado, era um líder acostumado a levar à vitória um time do Flamengo que até os não-flamenguistas, como é o meu caso, lembram com saudades (eu sou do tempo em que, acima da torcida pelo meu clube, estava o amor pela arte do futebol. E aquele Flamengo era fantástico). Os deuses do futebol não concederam a ele e sua grande geração, que incluía Falcão, Sócrates, Éder e o técnico Telê, entre outros, sequer a honra de uma final de Copa do Mundo. Já Modric, o escolhido da vez, está acostumado a fazer um trabalho de operário em um time onde os galácticos são Cristiano Ronaldo, Sérgio Ramos, Kroos e outros. Mas mostrou grandeza e força quando precisou liderar seus irredutíveis companheiros em uma jornada gloriosa. Talvez isto tenha agradado aos deuses.
A lição aprendida é; a liderança tem várias faces e, muitas vezes, aquele baixinho com cara de fuinha, que não cobre o corpo de tatuagens nem ostenta penteados esdrúxulos, não produz lances cinematográficos mas joga com simplicidade e eficiência, pode se mostrar o maior de todos os guerreiros, quando é necessário.
Quanto aos deuses do futebol... bem, eles têm suas próprias regras. Talvez achassem que Zico já tinha ganho muito. E que o mundo precisava conhecer melhor o talento de Modric.
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