quinta-feira, 19 de março de 2020

Porque a gente tem tanta dificuldade de aprender?

Confúcio disse que há três maneiras de aprender; pela observação, pela reflexão e pelo sofrimento. E acrescentou que esta última pode levar à morte, antes do aprendizado.
A pandemia do coronavirus pode ser um bom momento de observação, reflexão e aprendizado.
É interessante ver que países como Coreia do Sul e Singapura tiveram sucesso no combate à pandemia não apenas por força de medidas logísticas, mas principalmente porque são povos disciplinados.
O conceito mais amplo de disciplina significa algo totalmente diferente de obediência cega; é o momento em que a pessoa entende que os outros têm os mesmos direitos que ela, portanto a atitude correta é fazer o que é melhor para todos. No caso da epidemia, é fazer o possível para que o sofrimento do grupo seja o menor possível. Simples assim.
No Brasil, o maior problema sempre foi este; não existe empatia, o brasileiro faz questão de dizer que o brasileiro não presta. Mesmo agora, num momento em que todos estamos sob ameaça e deveríamos nos unir, vejo gente torcendo para que o vírus contamine e mate todos os eleitores do adversário.
Será que nem o sofrimento é capaz de nos ensinar alguma coisa?
Pensem nisso...

domingo, 19 de janeiro de 2020

A terra dos bananas “ixpertos” – uma paródia da Bíblia

A Terra é redonda, embora alguns contestem, e seu diâmetro separa dois povos bem diferentes; os do Sol Nascente e os da Terra de Bananas.
Para testá-los, Deus mandou uma desgraça para cada um.
Para os do Sol Nascente veio um terremoto.
Tudo ficou escasso, até a água potável. Eles (que se tratavam como “cidadãos”) dialogaram, e dividiram com sabedoria a pouca água existente. Em pouco tempo a situação se estabilizou, todos ficaram contentes, e viu Deus que isto era bom.
Para o pessoal de Bananas, veio apenas um turvamento estranho na água da cidade.
Os Bananas (que se autodenominavam “ixpertos”) triplicaram o preço da água mineral, e cada um tentou agarrar tudo o que podia, de preferência para revender e arrancar dinheiro dos outros (denominados “otários”).
E aí Deus pensou em castigá-los, mas viu que era perda de tempo, porque eles só adoravam Mitos de nomes estranhos (como Lula e Bolsonaro, por exemplo), mas eram incapazes de ter amor pelo próximo.
E cada um seguiu o destino que escolheu...

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O futebol e suas lições. De novo

Tentando juntar os cacos do meu coração gremista despedaçado pelos 5x0, consigo ver um aspecto interessante no jogo de ontem que pode servir como norte para o nosso comportamento.
O Flamengo do “Mister Jesus” sem dúvida criou um novo “benchmarking” para o futebol de clubes do Brasil, com um estilo que une eficiência e encantamento. E é muito bom que isto aconteça, porque obriga os outros a melhorar. Assim caminha a humanidade.
Só que, fora do aspecto técnico, o que me impressionou ontem foi a seriedade com que os seus jogadores levaram o jogo até o fim, mesmo já estando pra lá de decidido. Não houve tentativas de humilhação, infelizmente tão próprias do brasileiro, como firulas e dribles desnecessários. Especulo que seja fruto da cultura européia do treinador e de alguns jogadores mais rodados, e que foi assimilado por todos. Em resposta, o time do Grêmio também não apelou e tentou jogar bola até o fim, buscando um golzinho de honra que, infelizmente, não saiu. O resultado foi um raro espetáculo de dignidade e respeito. Como deve ser o futebol. Como deve ser a vida.
Enfim, a noite triste para nós gremistas, deixa como saldo positivo uma demonstração prática de que podemos deixar de lado o nosso comportamento Neandertal, não só no futebol como em tudo o mais. E para quem acredita em encontros cósmicos, vale lembrar que ontem, 23/10, é a data de nascimento de um cara que foi decisivo para mudar o patamar histórico do futebol brasileiro, o Rei Pelé.
Que tenhamos grandeza e sabedoria para interpretar os sinais.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Inteligência artificial e espiritualidade; isto faz algum sentido?

Não e novidade para ninguém que vivemos um momento de transformações radicais, como nunca antes aconteceu na história da espécie humana.
Disrupção, mundo VUCA e outras expressões do gênero são utilizadas para tentar dar algum sentido para uma era em que a mudança é quase diária e as “verdades eternas” podem durar menos de um ano. A grande verdade é que estamos todos estupefatos e é difícil tentar entender o presente e mais difícil ainda fazer previsões de futuro.
Nestas horas a experiência me ensinou que é bom buscar os textos atemporais. Por casualidade hoje reli a bela carta de São Paulo aos Coríntios. E um trecho chamou-me particularmente a atenção; “Há dons de profetizar, mas eles desaparecerão (,,,) Há o conhecimento, mas ele desaparecerá (...) Agora, meu conhecimento é incompleto. Mas quando aquele tempo vier, conhecerei completamente, assim como sou conhecido por Deus”.
Antes que alguém pense que eu esclerosei de vez, peço licença para interpretar o texto. Talvez o mais importante seja a visão de que o conhecimento, pelo menos da forma como o entendemos, está próximo do fim. Ou seja, o processo que substituiu gradativamente a força humana pelas máquinas, iniciado lá na Revolução Industrial, agora atinge o seu momento máximo, quando o próprio “conhecimento” humano é substituído pela IA. E qual o papel do ser humano, neste momento? O de ser perfeito, à imagem e semelhança do Criador.
O que quero dizer é que o mundo da concorrência assassina, do “tudo por dinheiro”, está acabando. E uma boa dica sobre como isto vai acabar está sendo dada por algumas empresas de ponta no mundo. Que não enxergam mais o funcionário como uma máquina de produzir, que não vêem mais o concorrente como um verme a ser eliminado, que começam a pensar e por em prática sugestões alternativas para o público.
Um exemplo interessante é a nova definição da Microsoft para a sua missão; “Empoderar cada indivíduo e cada organização no planeta para que consiga mais”. Alguns podem entender que esta definição é muito vaga mas, para mim, está muito claro que a ideia é romper com todo e qualquer tipo de fronteira e/ou preconceito; que todo mundo atinja o seu melhor, seja quem for. Inclusive nossos possíveis concorrentes.
O assunto é longo, mas o fato é que é notório que cada vez mais se fala na importância das “soft skills”, das qualidades de relacionamento e comprometimento com a comunidade e o planeta como itens importantes para o profissional do futuro. Com um pouquinho de ousadia, eu chamaria isto de “profissional espiritualizado”, consciente de sua missão divina no planeta. Mesmo que ele seja ateu, é claro, quando eu falo em todo mundo é todo mundo mesmo.
É claro que, em paralelo com isto, temos um aprofundamento do comportamento Neandertal nas redes sociais, no ódio e no sectarismo, mas isto também faz parte do pacote; afinal, é chegada a hora de separar o joio do trigo. Quem passa o tempo todo espalhando seu mau humor e sua raiva contra os semelhantes, além de se tornar muito desagradável, vai ter também suas oportunidades de trabalho muito reduzidas.
Citando o grande Lulu Santos, eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade prá dizer mais sim do que não... Tenho certeza que São Paulo concordaria com ele.
Quem viver, verá.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O VAR E O CRONÔMETRO – O FUTEBOL CHEGA AO SÉCULO XXI SEM PASSAR PELO XX

As regras do futebol, em sua grande maioria, foram codificadas no século XIX. E sempre houve grande resistência à mudança. Lembro do então Presidente da FIFA João Havelange dizendo, lá pelo início dos anos 1990, que as regras deveriam permanecer intocadas porque “os erros de arbitragem eram parte da magia do futebol”. Meu Deus...
Felizmente o avanço tecnológico acabou obrigando a FIFA a mudar seus conceitos. Os pobres juízes humanos não podiam competir com os milhares de olhos das câmeras cada vez mais detalhistas e precisas. A adoção do VAR e da Goal Line Technology ajudaram a diminuir os erros, tornando os resultados mais justos e o jogo mais confiável.
Só que tenho a impressão que, no meio deste salto “disruptivo”, para usar a palavra da moda, um detalhe prosaico foi esquecido; a cronometragem do jogo continua sendo feita como no século XIX, com um árbitro todo poderoso decidindo, através de critérios totalmente pessoais, quantos minutos serão acrescidos aos 90 regulamentares para compensar possíveis paralisações de jogo.
Afinal, a tecnologia dos cronômetros que podem ser travados e depois acionados novamente está disponível desde os anos 1950, pelo menos, e é utilizada com sucesso em esportes como basquete, futsal e handebol há décadas.
Enquanto isto, no reino do futebol, temos distorções absurdas, com jogadores simulando contusões, demora nas substituições, e o próprio tempo necessário para análise do VAR sendo absorvido na conta totalmente subjetiva dos tais de “acréscimos”.
Afinal, se a própria FIFA admite que 60 minutos de bola em jogo é o “tempo ideal”, porque não oficializar isto? Dois tempos de trinta minutos marcados por uma mesa de cronometragem, livrando o árbitro desta incômoda carga. Poderíamos até pensar em conceder dois pedidos de tempo para cada treinador durante o jogo. A própria televisão agradeceria (mais espaço para inserções comerciais).
Uma última dica; para evitar que o jogo termine durante um ataque promissor, ou algo parecido, adotar o critério consagrado nas velhas peladas de rua; o jogo só acaba na “primeira bola fora” após zerar o cronômetro. Mais uma discussão evitada.
Será que vale conversar sobre isto? Acho que sim.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Barcelona, Grêmio e Arthur; uma pequena aula prática sobre riscos e oportunidades

Quem já teve aula comigo sabe que gosto muito de usar exemplos práticos, e que o futebol é minha grande paixão, mais especificamente o futebol do Grêmio, da minha Porto Alegre.
Juntando riscos e futebol, podemos dizer que um bom exemplo prático sobre transações de alto risco são os investimentos milionários que os ricos clubes europeus fazem para adquirir os direitos de jovens jogadores de várias partes do mundo. Afinal, as fortunas pagas pelos clubes por jogadores muitas vezes ainda adolescentes frequentemente apresentam retorno zero. Os motivos são variados; lesões, deslumbramento do jovem com a súbita riqueza, avaliação precipitada (o cara não era tão bom assim), entre outras coisas.
Já escrevi algo sobre o assunto em meu blog há alguns anos, quando o goleiro Cássio surgiu como ídolo no Corinthians (ver http://causosdoherve.blogspot.com/2012/12/cassio-o-corinthians-o-gremio-e-as.html).
Neste cenário, a negociação entre o Grêmio e o Barcelona pelo jovem e promissor meio campista Arthur apresentou uma visão diferente da habitual e bem interessante.
Resumindo a história, Grêmio e Barcelona fecharam o negócio por 32 milhões de euros, um valor já bastante significativo, mas, em função das boas probabilidades de valorização do craque, estabeleceram algumas “cláusulas de produtividade” que podem levar este valor para até 40 milhões.
A coisa funciona assim; se Arthur se revelasse apenas um blefe, ou seja, jogador de uma temporada só, como muitos outros, o Barça ficaria com o “mico” e o Grêmio com seus 32 milhões de euros, como acontece em várias destas negociações. Este é o risco do negócio. Tudo normal.
Só que Arthur está mostrando que suas perspectivas realmente são grandiosas. E, ao contrário do que acontece nos negócios convencionais, não é apenas o Barça que está esfregando as mãos com isto; o Grêmio também está cada vez mais feliz.
Duas das metas já foram atingidas (e devidamente pagas); mais de dez jogos como titular e conquista de um título (a Recopa da Espanha). Também contam pontos a condição de titular da seleção brasileira, possíveis novos títulos pelo Barcelona (que no momento, disputa o espanhol, a Copa do Rey e a Champions League), e até uma possível indicação futura para o prêmio de melhor jogador da Europa e/ou do Mundo. Caso sejam cumpridas, o Grêmio pode ganhar até 8 milhões de euros acima do valor original. Um dinheirinho nada desprezível, é claro.
Tecnicamente isto é conhecido como “contrato de preço fixo com incentivos por desempenho”, ou algo parecido. Também pode ser utilizado como um bom exemplo de “negociação ganha-ganha”; quanto mais Arthur crescer, mais Barcelona e Grêmio (além do próprio Arthur, é claro), ficarão felizes.
Enfim, é um exemplo prático interessante para usar em aula. Riscos mitigados e oportunidade compartilhada.
Até a próxima!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

AS TRÊS LIÇÕES DO TIO GUGU, O DOCE COMUNISTA

Uma das melhores figuras que Deus colocou em meu caminho nesta vida foi meu tio Gugu.
Seu nome era Juvenal Jacinto de Souza, jornalista e tradutor. Hoje, mais de trinta anos depois de sua morte, dá nome a uma praça no bairro da Serraria, em Porto Alegre, onde morou durante quase a vida toda. Nossos caminhos se cruzaram quando ele casou com minha tia Edith, a Deth, irmã do meu pai. Juvenal foi descrito por um amigo famoso, Érico Veríssimo, como um “homem tão tímido que parecia pedir desculpas por estar vivo”. Só que o autor de “O Tempo e o Vento” complementava; “mas não se enganem diante de tanta mansidão. É homem de convicções firmes, de uma só palavra”. Tanto que acabou passando um ano na cadeia, preso pela ditadura de Getúlio Vargas, episódio sobre o qual ele pouco falava.
Gugu e Deth moravam numa casa simples, perto do rio Guaíba, e passar uns dias lá era sempre muito bom. Eu adorava conversar com ele; mesmo sendo de poucas palavras, Gugu era um homem vivido, culto e dono de um fino senso de humor. Devo a ele pelo menos três coisas que levei para o resto da vida.
A primeira foi me ensinar datilografia. Compartilhando a Hermes Baby (quem não sabe o que é, favor ir no Google e procurar por “máquina de escrever”), que ele usava para ganhar a vida, aprendi a dominar os mistérios do teclado, técnica que me ajuda até hoje a redigir meus textos. Gugu foi um mestre dedicado e paciente.
A segunda foi um trocadilho em italiano; “traduttore, traditore”, tradutores são traidores. Falava isto ao comentar a dureza de sua profissão; existem palavras e expressões que não têm equivalentes em outros idiomas, portanto todo o tradutor tem que fazer algum tipo de adaptação no texto. Isto configurava a “traição” inevitável. Até hoje uso isto em aula, quando lembro, por exemplo, que a tradução correta de “Project” não é “Projeto” e outras assim. Onde quer que esteja, tenho certeza que Gugu deve dar boas risadas quando vê as besteiras do “Google Translator”, por exemplo.
Mas a terceira e, certamente, a mais importante, veio logo depois do AI-5, que acaba de completar 50 anos de triste memória. Os ânimos estavam exaltados e eu, com meus 17 anos, desprezava tudo o que fosse “reacionário”, ou seja, a favor dos militares. E meu alvo preferencial era o escritor e jornalista Nelson Rodrigues, que assinava colunas diárias apoiando a ditadura. Obviamente, Gugu tinha muito mais razões que eu para odiar os militares e seus apoiadores. E foi isto que tornou este diálogo inesquecível para mim.
Ele chegou com o jornal na mão e me perguntou, em gauchês perfeito;
- Tu leste a coluna do Nélson Rodrigues hoje?
O gênio adolescente aqui, conhecedor profundo de todas as verdades da vida, respondeu com a arrogância peculiar;
- Não perco meu tempo com este reacionário imbecil.
A resposta veio rápida, num tom que, para um sujeito como ele, era quase agressivo;
- Pois não sabes o que estás perdendo...
E isto foi só o começo. Durante cerca de dez minutos Gugu falou sem parar (seguramente um recorde para ele) sobre a importância de ouvir as boas ideias, independente do viés político, sobre como Nélson era brilhante e tinha que ser respeitado e admirado, e mais um monte de coisas.
Quando finalmente ele voltou à sua calma e mudez habitual, o sobrinho imbecil aqui havia entendido uma grande lição; não existe dono da verdade. Ouvir o outro lado é sempre importante. Porque existem pessoas tão boas ou melhores que você que acreditam em coisas diferentes, seja o assunto política, religião, futebol ou qualquer outro. E você vai aprender com elas, sempre.
Tenho certeza que Gugu deve estar muito triste com os rumos que o Brasil tomou, com os erros da esquerda em que ele tanto acreditava e, principalmente, com a pobreza aviltante do nosso debate político atual. Pelo menos uma alegria posso dar a ele; o sobrinho aqui ouviu e aprendeu. De lá para cá sempre gostei de debater e me posicionar em todo o tipo de assunto, antes e depois da internet, e me orgulho de dizer que jamais ofendi ou deixei de ouvir alguém. Muito por força da bendita lição do meu tio comunista, que não disfarçava sua admiração por um reacionário brilhante.
Gugu, meu doce tio comunista. Saudades de você!