Da série “coerência é bom e eu gosto”;
Dois “causos” que me mostram que está cada vez mais difícil entender algumas coisas neste estranho mundo de hoje.
Causo 1;
A torcida brasileira resolveu imitar outras e gritar em coro “bicha!” para o goleiro adversário na hora do tiro de meta. Brincadeira de mau gosto, certo, mas duvido que algum goleiro do mundo se ofenda mortalmente com isto. A FIFA considera este ato “intolerável”, aplica uma multa de milhares de dólares e ainda ameaça com outras punições em caso de reincidência.
Por outro lado, a torcida do Corinthians, no jogo contra o Internacional, cantou uma música estúpida, que comemora a morte do jogador Fernandão, ídolo do Colorado (aliás, a do Grêmio já tinha feito isto, num grenal). Nenhuma punição foi cogitada – afinal, é coisa de “torcedor”. Prá mim, na escala de boçalidade, seria dez vezes pior, no mínimo.
Causo 2;
A filhinha sem noção do treinador do Grêmio entra no campo da Arena, a convite do papai, depois do encerramento de um jogo, e tira um monte de “selfies”, deslumbrada. O Grêmio é punido com a perda de um mando de campo, multa e mais não sei o que.
Por outro lado, hoje, torcedores do Náutico, irritados com a derrota do time para o Oeste, invadiram o campo com o jogo em andamento, agrediram jogadores e... o árbitro aguardou, pacientemente, que eles terminassem o serviço e mandou o jogo prosseguir! Ou seja; se o Náutico tivesse um mínimo de competência (felizmente não teve) podia mudar o resultado do jogo. Quero ver o que o tribunal vai decidir, agora. Talvez considerem que a ira dos torcedores era justa e, já que ninguém foi morto, fica tudo por isto mesmo. Mas se a Carol Portaluppi voltar a invadir um gramado vai provavelmente ser presa e banida das arquibancadas para sempre, e o Grêmio vai perder uns 200 mandos de campo.
Sei lá, acho que estou ficando velho...
sábado, 26 de novembro de 2016
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Na eleição dos horrores, Crivella errou menos e ganhou
O quadro da eleição carioca estava bem definido desde cedo; Crivella iria para o segundo turno, apoiado pelos seus fieis seguidores evangélicos (que, somados aos admiradores que a família Garotinho ainda consegue atrair, chegavam a uns 30% do eleitorado), mas seria derrotado por qualquer um, uma vez que teria dificuldades de formar alianças. Do outro lado do ringue Eduardo Paes, embalado pelo sucesso da Olimpíada e das obras relacionadas a ela, tinha a faca, o queijo e o vinho na mão. Contra ele apenas a sua conhecida incontinência verbal aguda e irreversível, mas a situação era tão absurdamente confortável que nem isto parecia capaz de derrota-lo.
Neste cenário de mar de almirante, era preciso não um erro, mas uma sucessão deles para que as coisas desandassem. E o pior aconteceu. Fazendo um histórico rápido, temos;
a) Eduardo Paes conseguiria eleger um cone, mas não um Luís Paulo. Entre outras coisas, porque cone não bate em mulher (pode ser até utilizado como arma, mas não me parece muito eficiente). Para completar a dupla dinâmica, escolheu como vice a Sra. Cidinha Campos, outrora uma entrevistadora de sucesso, hoje uma senhora descontrolada, cujo desempenho de chefe de claque no debate do primeiro turno ajudou a derrubar mais ainda o pobre candidato do prefeito. Qualquer um seria melhor que Luís Paulo, mas Paes achou que era o senhor do universo. E jogou ao vento a vaga e a vitória no segundo turno, que pareciam certas.
b) Ungido pelos deuses com esta segunda vaga, Marcelo Freixo preferiu ser PSOL do que ser razoável. Resolveu combater o fundamentalismo religioso de Crivella com outro fundamentalismo, o bolivariano, que o Brasil inteiro já expeliu como se fosse um cálculo renal. Repetiu mantras totalmente fora de contexto como “Fora Temer”, “Imprensa golpista”, enfim, só faltou gritar “Não vai ter Copa!” ou alguma sandice equivalente. Além disto, dedicou quase todo o seu tempo a tentar denegrir seu adversário, enfim, bebeu da fonte de ódio e suposta perseguição que alimentou o PT durante algum tempo, mas não funciona mais (sem esquecer que Lula tem muito mais talento para posar de vítima do que ele). Estratégia totalmente errada, que afastou todas as alianças possíveis.
c) Sentindo a inesperada chance de vitória se concretizando, Crivella agiu com sabedoria; colocou-se muito mais como “engenheiro” do que como “bispo”, deu ênfase ao seu lado “técnico e administrador”, escondeu até onde foi possível os aliados inconvenientes (Garotinho, o tio Edir Macedo e outros), chegando ao exagero de chamar os umbandistas de “irmãos” (só não apareceu consultando uma mãe-de-santo porque não foi necessário, afinal o eleitorado espírita não é tão grande assim). Jogou o jogo certo e conseguiu um resultado surpreendente, com quase 60% dos votos válidos.
d) Antes de terminar, uma palavra sobre a mídia; foi quase comovente o esforço que o pessoal da Globo e da Veja fez para tentar derrubar o Crivella (leia-se; rede Record). Valeu tudo; declarações antigas, fotos comprometedoras, frases fora do contexto, enfim, todo o arsenal disponível foi utilizado. E o resultado? Zero. O que deixou claro uma teoria que sustento há muito tempo; este poder quase sobrenatural que alguns atribuem a tal “imprensa golpista” não passa de ilusão. Lula e Dilma não foram derrubados pela imprensa, eles se enrolaram sozinhos. Crivella, aparentemente, era um alvo muito mais fácil, e saiu ileso.
No fim das contas, ficamos com o menor dos dois males. E com a certeza que Crivella terá de governar pisando em ovos de codorna, tal a pressão que vai ter em cima dele.
Que Deus tenha piedade desta cidade olímpica e maravilhosa!
Neste cenário de mar de almirante, era preciso não um erro, mas uma sucessão deles para que as coisas desandassem. E o pior aconteceu. Fazendo um histórico rápido, temos;
a) Eduardo Paes conseguiria eleger um cone, mas não um Luís Paulo. Entre outras coisas, porque cone não bate em mulher (pode ser até utilizado como arma, mas não me parece muito eficiente). Para completar a dupla dinâmica, escolheu como vice a Sra. Cidinha Campos, outrora uma entrevistadora de sucesso, hoje uma senhora descontrolada, cujo desempenho de chefe de claque no debate do primeiro turno ajudou a derrubar mais ainda o pobre candidato do prefeito. Qualquer um seria melhor que Luís Paulo, mas Paes achou que era o senhor do universo. E jogou ao vento a vaga e a vitória no segundo turno, que pareciam certas.
b) Ungido pelos deuses com esta segunda vaga, Marcelo Freixo preferiu ser PSOL do que ser razoável. Resolveu combater o fundamentalismo religioso de Crivella com outro fundamentalismo, o bolivariano, que o Brasil inteiro já expeliu como se fosse um cálculo renal. Repetiu mantras totalmente fora de contexto como “Fora Temer”, “Imprensa golpista”, enfim, só faltou gritar “Não vai ter Copa!” ou alguma sandice equivalente. Além disto, dedicou quase todo o seu tempo a tentar denegrir seu adversário, enfim, bebeu da fonte de ódio e suposta perseguição que alimentou o PT durante algum tempo, mas não funciona mais (sem esquecer que Lula tem muito mais talento para posar de vítima do que ele). Estratégia totalmente errada, que afastou todas as alianças possíveis.
c) Sentindo a inesperada chance de vitória se concretizando, Crivella agiu com sabedoria; colocou-se muito mais como “engenheiro” do que como “bispo”, deu ênfase ao seu lado “técnico e administrador”, escondeu até onde foi possível os aliados inconvenientes (Garotinho, o tio Edir Macedo e outros), chegando ao exagero de chamar os umbandistas de “irmãos” (só não apareceu consultando uma mãe-de-santo porque não foi necessário, afinal o eleitorado espírita não é tão grande assim). Jogou o jogo certo e conseguiu um resultado surpreendente, com quase 60% dos votos válidos.
d) Antes de terminar, uma palavra sobre a mídia; foi quase comovente o esforço que o pessoal da Globo e da Veja fez para tentar derrubar o Crivella (leia-se; rede Record). Valeu tudo; declarações antigas, fotos comprometedoras, frases fora do contexto, enfim, todo o arsenal disponível foi utilizado. E o resultado? Zero. O que deixou claro uma teoria que sustento há muito tempo; este poder quase sobrenatural que alguns atribuem a tal “imprensa golpista” não passa de ilusão. Lula e Dilma não foram derrubados pela imprensa, eles se enrolaram sozinhos. Crivella, aparentemente, era um alvo muito mais fácil, e saiu ileso.
No fim das contas, ficamos com o menor dos dois males. E com a certeza que Crivella terá de governar pisando em ovos de codorna, tal a pressão que vai ter em cima dele.
Que Deus tenha piedade desta cidade olímpica e maravilhosa!
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Geraldo Eustáquio / Letícia Lanz – a inteligência que arrasa com o preconceito
No início dos anos 2000 conheci, em um encontro gerencial da Petrobras, um consultor chamado Geraldo Eustáquio. Participei de alguns eventos coordenados por ele, e sempre me chamou a atenção por sua inteligência e bom humor. Cito até hoje, em sala de aula e em eventuais artigos, algumas das lições que aprendi com ele, e de vez em quando acompanhava seus textos e poesias pela internet.
E foi pela internet que fiquei sabendo, há algum tempo, que ele resolveu adotar uma identidade feminina, com o nome de Letícia Lanz. Na última segunda-feira, quando assistia o programa “Papo de Segunda”, um dos últimos refúgios de inteligência que restam na TV brasileira, vi que Letícia Lanz era a convidada de honra. E ela (ou ele) fez um belíssimo papel, mesmo enfrentando a concorrência dos quatro craques que formam o time permanente do programa (Marcelo Tas, Leo Jaime, Xico Sá e João Marcelo).
Letícia/Geraldo contou sua história com simplicidade, inteligência e bom humor, exatamente como nos tempos de consultoria na Petrobras. Era um homem inteligente, e a impressão que tive é que agora, livre dos seus fantasmas mais íntimos, ficou ainda melhor (não sei se devo chama-lo de “mulher inteligente”; é um ser humano inteligente, e fim de papo).
O mais legal é que ele recusou-se, o tempo todo, a cair na armadilha do coitadismo, do sofrimento, da dor do preconceito, enfim, esta ladainha “politicamente correta” que já se tornou prá lá de chata. Geraldo virou Letícia e pronto; não quer revanche, não ergue bandeiras, não tem ódio no coração. Porque a guerra contra o preconceito não se ganha apenas em batalhas épicas, com passeatas e decisões judiciais; é muito mais eficiente a guerrilha da inteligência, do talento e da convivência no dia a dia. Neste ponto um grande momento do programa foi quando Marcelo Tas, que é pai de uma filha que virou filho, deu um depoimento bem humorado sobre o assunto, citando sua outra filha que, com apenas nove anos na época, foi a pessoa que entendeu com mais facilidade que a irmã agora era irmão. A menina apenas falou; “prá que tanto mistério, ela (ou ele) sempre foi assim!”. Raciocínio infantil, simples e genial. Sem necessidade de cartilhas complexas ou manifestações de rua para ensina-la.
Pessoal; quem não viu, procure o programa no site do GNT, vale a pena desfrutar de uma hora de inteligência e humor de qualidade, coisa quase inexistente no Brasil de hoje, polarizado, agressivo e burro, infelizmente. Fiquei orgulhoso de um dia na vida ter participado de vários debates com Letícia (que na época era Geraldo, mas isto é o que menos importa). E mais uma vez fiquei certo que a maior arma contra o preconceito não é a imposição da neurose politicamente correta que, muitas vezes, não passa de um outro preconceito, às avessas; é a conversa inteligente e, acima de tudo bem humorada.
O resumo da história é; Geraldo, depois de ter nascido homem, ter sido marido, pai e avô, decidiu ser Letícia. Está feliz assim, e cada vez mais talentoso. Um ser humano dos melhores que conheci, um tipo que orgulha a espécie. Usando a linguagem de futebol, que eu adoro, a história dele é uma espécie de 7x1 no preconceito. Sem vitimismo nem lágrimas, pelo contrário, com muito bom humor. Como tem que ser.
E foi pela internet que fiquei sabendo, há algum tempo, que ele resolveu adotar uma identidade feminina, com o nome de Letícia Lanz. Na última segunda-feira, quando assistia o programa “Papo de Segunda”, um dos últimos refúgios de inteligência que restam na TV brasileira, vi que Letícia Lanz era a convidada de honra. E ela (ou ele) fez um belíssimo papel, mesmo enfrentando a concorrência dos quatro craques que formam o time permanente do programa (Marcelo Tas, Leo Jaime, Xico Sá e João Marcelo).
Letícia/Geraldo contou sua história com simplicidade, inteligência e bom humor, exatamente como nos tempos de consultoria na Petrobras. Era um homem inteligente, e a impressão que tive é que agora, livre dos seus fantasmas mais íntimos, ficou ainda melhor (não sei se devo chama-lo de “mulher inteligente”; é um ser humano inteligente, e fim de papo).
O mais legal é que ele recusou-se, o tempo todo, a cair na armadilha do coitadismo, do sofrimento, da dor do preconceito, enfim, esta ladainha “politicamente correta” que já se tornou prá lá de chata. Geraldo virou Letícia e pronto; não quer revanche, não ergue bandeiras, não tem ódio no coração. Porque a guerra contra o preconceito não se ganha apenas em batalhas épicas, com passeatas e decisões judiciais; é muito mais eficiente a guerrilha da inteligência, do talento e da convivência no dia a dia. Neste ponto um grande momento do programa foi quando Marcelo Tas, que é pai de uma filha que virou filho, deu um depoimento bem humorado sobre o assunto, citando sua outra filha que, com apenas nove anos na época, foi a pessoa que entendeu com mais facilidade que a irmã agora era irmão. A menina apenas falou; “prá que tanto mistério, ela (ou ele) sempre foi assim!”. Raciocínio infantil, simples e genial. Sem necessidade de cartilhas complexas ou manifestações de rua para ensina-la.
Pessoal; quem não viu, procure o programa no site do GNT, vale a pena desfrutar de uma hora de inteligência e humor de qualidade, coisa quase inexistente no Brasil de hoje, polarizado, agressivo e burro, infelizmente. Fiquei orgulhoso de um dia na vida ter participado de vários debates com Letícia (que na época era Geraldo, mas isto é o que menos importa). E mais uma vez fiquei certo que a maior arma contra o preconceito não é a imposição da neurose politicamente correta que, muitas vezes, não passa de um outro preconceito, às avessas; é a conversa inteligente e, acima de tudo bem humorada.
O resumo da história é; Geraldo, depois de ter nascido homem, ter sido marido, pai e avô, decidiu ser Letícia. Está feliz assim, e cada vez mais talentoso. Um ser humano dos melhores que conheci, um tipo que orgulha a espécie. Usando a linguagem de futebol, que eu adoro, a história dele é uma espécie de 7x1 no preconceito. Sem vitimismo nem lágrimas, pelo contrário, com muito bom humor. Como tem que ser.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
DE ROMÁRIO A NEYMAR, A ETERNA QUESTÃO; COMO LIDAR COM UM CRAQUE QUE EXIGE TRATAMENTO DIFERENCIADO?
Corria o ano de 1993, e a seleção brasileira se preparava para uma partida decisiva contra o Uruguai pelas eliminatórias para a Copa do Mundo do ano seguinte, que seria disputada nos Estados Unidos. Era o último jogo (naquele tempo as eliminatórias ainda eram disputadas em grupos menores, depois foi que passaram para o formato atual de todos contra todos), e o Brasil, em caso de derrota, estaria fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez na sua história.
Romário, sem dúvida o maior craque daquela geração e um dos maiores da história do futebol, estava banido da seleção pelos treinadores Parreira e Zagalo, por conta de diversas estripulias que havia aprontado e que não vamos citar aqui para não alongar muito o texto. Só que o jogo era de vida ou morte e Careca, o centroavante titular, estava fora de combate. Bebeto, o segundo atacante, era dúvida (acabou jogando), e a formação com os dois reservas, Evair e Valdeir, tinha fracassado no jogo anterior contra a Venezuela quando o Brasil, mesmo ganhando, deixou o campo sob uma intensa vaia. No mesmo fim de semana o exilado Romário, com a camisa do Barcelona, tinha uma atuação de luxo no clássico contra o Atlético de Madri, com direito a três gols, sendo um por cobertura.
Depois de uma tensa reunião entre os membros da comissão técnica chegou-se à conclusão que o negócio era engolir todos os sapos e chamar o baixinho de volta; a fúria da torcida em caso de derrota poderia se tornar incontrolável. Romário – que, como acontece com os craques de verdade, sempre se agigantou nas decisões – deu um verdadeiro show de bola, marcando os dois gols do jogo, foi definitivamente perdoado e acabou sendo a grande referência técnica do time que, aos trancos e barrancos, foi campeão do mundo no ano seguinte.
Oito anos depois, Romário voltou a ser o centro de uma polêmica, ao ser mais uma vez cortado do grupo da seleção brasileira pelo novo técnico, Felipão. O motivo foi o mesmo de sempre; craque dentro de campo, egoísta e desagregador fora dele. Os tempos eram outros, oito anos em futebol cobram o seu preço, e Romário não era mais um jogador tão decisivo quanto fora em 94. Felipão preferiu apostar na sua disciplinada “família Scolari” e bancou como centroavante um Ronaldo Fenômeno fisicamente frágil, recuperando-se de quase dois anos de inatividade com direito a cirurgias e mais cirurgias. O Brasil foi campeão, Ronaldo foi o artilheiro decisivo, Scolari saiu como herói (naquele tempo ninguém sonhava com o vexame de 2014), e Romário se aposentou pouco tempo depois.
A conclusão que podemos tirar disto tudo é que existem sempre maneiras diferentes de lidar com uma questão, e todas podem levar ao sucesso e ao fracasso. Até que ponto uma comissão técnica deve ceder às exigências de um fora de série indisciplinado? Como toda a discussão sobre futebol, esta pode durar até a morte, ou até acabar a cerveja, o que vier primeiro. Só para embaralhar mais a situação contamos dois “causos” em que atitudes diametralmente opostas levaram ao sucesso. Repetindo o mantra utilizado por dez entre dez consultores na área de projetos, onde atuo, “cada caso é um caso”.
Falei tudo isto para chegar em Neymar, o nosso gênio-rebelde da vez. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que existe uma diferença enorme entre os dois; Romário é, acima de tudo, um gênio preguiçoso e divertido, definido magnificamente por Tom Cavalcante na frase “treinar prá que, se eu já sei o que fazer”. Romário sabia o que fazer, tinha uma confiança ilimitada no seu potencial, portanto não gostava de treinar nem de correr muito em campo. Uma atitude arrogante, sem dúvida, mas revestida de uma simpática “malandragem suburbana”. Tanto é que Romário raramente era expulso, e não colecionou inimigos no futebol. Neymar, fruto de um tempo diferente, onde a superexposição na mídia exagera tudo o que um ídolo diz ou faz, é um garoto mimado, multimilionário, que não gosta de ser contrariado e se porta quase sempre de forma agressiva, tentando sempre humilhar os outros nas vitórias e perdendo a cabeça com extrema facilidade quando seu time está sendo derrotado.
Tite, o gerente da vez, tenta ajeitar as coisas, com seu estilo elegante e falar rebuscado, mas o problema é, basicamente, o mesmo; como controlar as vontades de um jogador que sabe que é muito melhor que os outros, e quer receber um tratamento diferenciado por isto. O último cartão amarelo que Neymar levou me parece característico disto; num jogo decidido desde o primeiro tempo, contra um adversário muito inferior, ele tantas fez que arranjou uma encrenca e levou o amarelo que o suspendeu do jogo seguinte. A atitude foi tão grotesca que permite que se levante a suspeita; será que foi de propósito? Afinal, Neymar se livrou de uma viagem à Venezuela sem o menor atrativo, e, cumprindo suspensão em um jogo teoricamente mais fácil, acabou preservado para o clássico contra a Argentina. Bom prá todo mundo... Diga-se de passagem, se a ideia era receber o cartão de forma proposital, bastava interceptar uma bola com a mão – não precisava quase sair na porrada com os bolivianos. E se realmente o problema foi o temperamento de Neymar, um justo e simples castigo seria obriga-lo a viajar junto com o grupo e cumprir a agenda de treinos, e não dar-lhe uma folga como “prêmio” pelo cartão bobo que tomou.
Resumindo, a história de Neymar ainda está em andamento, portanto não podemos dizer ainda se a forma de agir de seus gerentes deu certo ou deu errado. Só o futuro e os resultados dirão isto. Lembrando sempre que a sorte faz parte deste jogo; nunca é demais lembrar que Romário foi campeão do mundo em 94 num campeonato decidido nos pênaltis. E que, no pênalti que ele próprio bateu (por imposição dele, que, obviamente, não tinha treinado cobranças, segundo depoimentos de quem estava lá), a bola tocou a trave e, caprichosamente, acabou entrando, do mesmo jeito que poderia ter saído. Tenho certeza que os deuses do futebol sempre estão a favor dos grandes craques, sejam bad boys ou não, e deram uma forcinha prá bola entrar... Romário merecia.
O assunto é longo e merece mais um texto mas, por enquanto vamos ficando por aqui. Até a próxima.
Romário, sem dúvida o maior craque daquela geração e um dos maiores da história do futebol, estava banido da seleção pelos treinadores Parreira e Zagalo, por conta de diversas estripulias que havia aprontado e que não vamos citar aqui para não alongar muito o texto. Só que o jogo era de vida ou morte e Careca, o centroavante titular, estava fora de combate. Bebeto, o segundo atacante, era dúvida (acabou jogando), e a formação com os dois reservas, Evair e Valdeir, tinha fracassado no jogo anterior contra a Venezuela quando o Brasil, mesmo ganhando, deixou o campo sob uma intensa vaia. No mesmo fim de semana o exilado Romário, com a camisa do Barcelona, tinha uma atuação de luxo no clássico contra o Atlético de Madri, com direito a três gols, sendo um por cobertura.
Depois de uma tensa reunião entre os membros da comissão técnica chegou-se à conclusão que o negócio era engolir todos os sapos e chamar o baixinho de volta; a fúria da torcida em caso de derrota poderia se tornar incontrolável. Romário – que, como acontece com os craques de verdade, sempre se agigantou nas decisões – deu um verdadeiro show de bola, marcando os dois gols do jogo, foi definitivamente perdoado e acabou sendo a grande referência técnica do time que, aos trancos e barrancos, foi campeão do mundo no ano seguinte.
Oito anos depois, Romário voltou a ser o centro de uma polêmica, ao ser mais uma vez cortado do grupo da seleção brasileira pelo novo técnico, Felipão. O motivo foi o mesmo de sempre; craque dentro de campo, egoísta e desagregador fora dele. Os tempos eram outros, oito anos em futebol cobram o seu preço, e Romário não era mais um jogador tão decisivo quanto fora em 94. Felipão preferiu apostar na sua disciplinada “família Scolari” e bancou como centroavante um Ronaldo Fenômeno fisicamente frágil, recuperando-se de quase dois anos de inatividade com direito a cirurgias e mais cirurgias. O Brasil foi campeão, Ronaldo foi o artilheiro decisivo, Scolari saiu como herói (naquele tempo ninguém sonhava com o vexame de 2014), e Romário se aposentou pouco tempo depois.
A conclusão que podemos tirar disto tudo é que existem sempre maneiras diferentes de lidar com uma questão, e todas podem levar ao sucesso e ao fracasso. Até que ponto uma comissão técnica deve ceder às exigências de um fora de série indisciplinado? Como toda a discussão sobre futebol, esta pode durar até a morte, ou até acabar a cerveja, o que vier primeiro. Só para embaralhar mais a situação contamos dois “causos” em que atitudes diametralmente opostas levaram ao sucesso. Repetindo o mantra utilizado por dez entre dez consultores na área de projetos, onde atuo, “cada caso é um caso”.
Falei tudo isto para chegar em Neymar, o nosso gênio-rebelde da vez. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que existe uma diferença enorme entre os dois; Romário é, acima de tudo, um gênio preguiçoso e divertido, definido magnificamente por Tom Cavalcante na frase “treinar prá que, se eu já sei o que fazer”. Romário sabia o que fazer, tinha uma confiança ilimitada no seu potencial, portanto não gostava de treinar nem de correr muito em campo. Uma atitude arrogante, sem dúvida, mas revestida de uma simpática “malandragem suburbana”. Tanto é que Romário raramente era expulso, e não colecionou inimigos no futebol. Neymar, fruto de um tempo diferente, onde a superexposição na mídia exagera tudo o que um ídolo diz ou faz, é um garoto mimado, multimilionário, que não gosta de ser contrariado e se porta quase sempre de forma agressiva, tentando sempre humilhar os outros nas vitórias e perdendo a cabeça com extrema facilidade quando seu time está sendo derrotado.
Tite, o gerente da vez, tenta ajeitar as coisas, com seu estilo elegante e falar rebuscado, mas o problema é, basicamente, o mesmo; como controlar as vontades de um jogador que sabe que é muito melhor que os outros, e quer receber um tratamento diferenciado por isto. O último cartão amarelo que Neymar levou me parece característico disto; num jogo decidido desde o primeiro tempo, contra um adversário muito inferior, ele tantas fez que arranjou uma encrenca e levou o amarelo que o suspendeu do jogo seguinte. A atitude foi tão grotesca que permite que se levante a suspeita; será que foi de propósito? Afinal, Neymar se livrou de uma viagem à Venezuela sem o menor atrativo, e, cumprindo suspensão em um jogo teoricamente mais fácil, acabou preservado para o clássico contra a Argentina. Bom prá todo mundo... Diga-se de passagem, se a ideia era receber o cartão de forma proposital, bastava interceptar uma bola com a mão – não precisava quase sair na porrada com os bolivianos. E se realmente o problema foi o temperamento de Neymar, um justo e simples castigo seria obriga-lo a viajar junto com o grupo e cumprir a agenda de treinos, e não dar-lhe uma folga como “prêmio” pelo cartão bobo que tomou.
Resumindo, a história de Neymar ainda está em andamento, portanto não podemos dizer ainda se a forma de agir de seus gerentes deu certo ou deu errado. Só o futuro e os resultados dirão isto. Lembrando sempre que a sorte faz parte deste jogo; nunca é demais lembrar que Romário foi campeão do mundo em 94 num campeonato decidido nos pênaltis. E que, no pênalti que ele próprio bateu (por imposição dele, que, obviamente, não tinha treinado cobranças, segundo depoimentos de quem estava lá), a bola tocou a trave e, caprichosamente, acabou entrando, do mesmo jeito que poderia ter saído. Tenho certeza que os deuses do futebol sempre estão a favor dos grandes craques, sejam bad boys ou não, e deram uma forcinha prá bola entrar... Romário merecia.
O assunto é longo e merece mais um texto mas, por enquanto vamos ficando por aqui. Até a próxima.
sábado, 24 de setembro de 2016
Veríssimo faz 80 anos. Longa vida para o mestre!
Da série “não preciso odiar todo mundo que pensa diferente de mim”;
Segunda-feira será um dia de festa para a cultura e inteligência nacional; Luiz Fernando Veríssimo completa 80 anos, ainda em boa forma intelectual.
Minhas discordâncias com o Veríssimo começam muito antes do PT, afinal ele é colorado e eu gremista. Mas nem por isto vou deixar de ler tudo o que ele produz; na minha opinião é um dos melhores cronistas que este país já teve, um cara tão bom quanto Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino e vários outros que já estão do lado de lá.
Hora de agradecer ao Globo, este órgão da dita “imprensa golpista” que, estranhamente, mantém em seu quadro de colaboradores um cara que fala sempre a favor do Lula e do PT. Tenho certeza que, em países muito mais próximos do ideal populista do que o nosso, como é o caso de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, o espaço de discordância é bem menor... (aviso; esta frase foi escrita com o modo Ironia “on”, prá quem não entendeu).
Ironias e discordância à parte, o Brasil inteligente precisa de Luiz Fernando Veríssimo e ainda vai precisar por muitos anos, por isto desejo; feliz aniversário, grande mestre! Só não desejo felicidades para seus amigos petistas e muito menos para o Internacional...
Segunda-feira será um dia de festa para a cultura e inteligência nacional; Luiz Fernando Veríssimo completa 80 anos, ainda em boa forma intelectual.
Minhas discordâncias com o Veríssimo começam muito antes do PT, afinal ele é colorado e eu gremista. Mas nem por isto vou deixar de ler tudo o que ele produz; na minha opinião é um dos melhores cronistas que este país já teve, um cara tão bom quanto Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino e vários outros que já estão do lado de lá.
Hora de agradecer ao Globo, este órgão da dita “imprensa golpista” que, estranhamente, mantém em seu quadro de colaboradores um cara que fala sempre a favor do Lula e do PT. Tenho certeza que, em países muito mais próximos do ideal populista do que o nosso, como é o caso de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, o espaço de discordância é bem menor... (aviso; esta frase foi escrita com o modo Ironia “on”, prá quem não entendeu).
Ironias e discordância à parte, o Brasil inteligente precisa de Luiz Fernando Veríssimo e ainda vai precisar por muitos anos, por isto desejo; feliz aniversário, grande mestre! Só não desejo felicidades para seus amigos petistas e muito menos para o Internacional...
terça-feira, 6 de setembro de 2016
NEM MÁRTIR, NEM BANDIDA; DILMA FOI APENAS UMA GERENTA INCOMPETENTA
Na onda de radicalização burra e xiita que atravessamos, um dos aspectos quase divertidos (seria cômico, se não fosse trágico), é a briga de adjetivos travada entre os partidários da “Presidenta” deposta e os adversários dela.
Os Dilmistas a chamam de “brilhante”, “carismática”, “revolucionária”; os anti-Dilma respondem com “ladra”, “assassina”, “chefe de quadrilha” e outros que tais.
Pessoal, Dilma não é nada disto. Duvido que tenha se apropriado indevidamente de um centavo que fosse, e neste aspecto seu comportamento difere totalmente da grande maioria dos seus companheiros de partido (vá lá, roubar não é privilégio do PT; ela difere da maioria dos políticos, de todos os partidos, tá bom assim?). Mas, certamente, tinha conhecimento de tudo e deu cobertura aos “malfeitos”, portanto não deixa de ter sua parcela de culpa nesta história. Seu suposto “brilhantismo” é desmentido por seus discursos estapafúrdios, e seu carisma, que ninguém nos ouça, é equivalente ao de um saco de batatas.
Dilma participou de uma tentativa de revolução, uma luta armada em que seu grupo tentava combater a ditadura existente e substitui-la por outra, de orientação diferente. Numa luta armada pessoas morrem, portanto mesmo que seja verdadeira a versão que a coloca como participante de um atentado onde um soldado foi vítima, isto não a torna “assassina”; era uma guerra. No fim das contas, a turma de Dilma perdeu. Simples assim. No máximo podemos louvar sua coragem juvenil em lutar pelo que acreditava.
Na verdade, mesmo, o que fez Dilma cair em desgraça foi sua absoluta incompetência para exercer o cargo que ganhou de presente do “companheiro” Lula. Lula é, sem dúvida, inteligente e carismático, e escolheu Dilma para o que seria o seu “terceiro mandato” em 2010 por falta de opção, uma vez que os quadros mais qualificados do PT já àquela altura estavam enrolados em tenebrosas transações.
Dilma nunca se sentiu à vontade como comandante da economia e da política, sua falta de habilidade e incompetência ficou evidente desde o primeiro dia no emprego, e hoje nem seu criador pensa em defendê-la. Duvido que alguém no próprio PT levante a bandeira de “Dilma 2018”, ainda que seus direitos políticos tenham sido mantidos. Dilma passará à história como a primeira mulher a assumir a Presidência da República, o que seria uma coisa muito boa; infelizmente, também ficará registrada como uma das mais incompetentes figuras a ocupar o nobre cargo.
Aliás, uma boa comparação para o caso dela seria com outra mulher que chegou para marcar época e fez feio; Zélia Cardoso de Mello, ungida, em 1990, pelo então Presidente Collor como a mulher que colocaria a economia do Brasil nos eixos. Zélia seria a mulher mais “empoderada” da história do Brasil até então, se este termo horroroso existisse na época. E o que se lembra dela, hoje? Um desastre na economia, um “caso” rumoroso com outro ministro, depois mulher e ex-mulher do insaciável Chico Anísio e... sumiu.
Otimista que sou, acredito que, assim como depois de Zélia tivemos muitas mulheres de destaque em todos os campos da política e da economia, algum dia vamos ter uma mulher na presidência da República que fará um grande papel. E Dilma será lembrada apenas como a primeira, mas não das mais brilhantes.
E, se não for pedir muito, gostaria que nunca mais alguém ousasse pensar em utilizar a palavra “Presidenta”.
Os Dilmistas a chamam de “brilhante”, “carismática”, “revolucionária”; os anti-Dilma respondem com “ladra”, “assassina”, “chefe de quadrilha” e outros que tais.
Pessoal, Dilma não é nada disto. Duvido que tenha se apropriado indevidamente de um centavo que fosse, e neste aspecto seu comportamento difere totalmente da grande maioria dos seus companheiros de partido (vá lá, roubar não é privilégio do PT; ela difere da maioria dos políticos, de todos os partidos, tá bom assim?). Mas, certamente, tinha conhecimento de tudo e deu cobertura aos “malfeitos”, portanto não deixa de ter sua parcela de culpa nesta história. Seu suposto “brilhantismo” é desmentido por seus discursos estapafúrdios, e seu carisma, que ninguém nos ouça, é equivalente ao de um saco de batatas.
Dilma participou de uma tentativa de revolução, uma luta armada em que seu grupo tentava combater a ditadura existente e substitui-la por outra, de orientação diferente. Numa luta armada pessoas morrem, portanto mesmo que seja verdadeira a versão que a coloca como participante de um atentado onde um soldado foi vítima, isto não a torna “assassina”; era uma guerra. No fim das contas, a turma de Dilma perdeu. Simples assim. No máximo podemos louvar sua coragem juvenil em lutar pelo que acreditava.
Na verdade, mesmo, o que fez Dilma cair em desgraça foi sua absoluta incompetência para exercer o cargo que ganhou de presente do “companheiro” Lula. Lula é, sem dúvida, inteligente e carismático, e escolheu Dilma para o que seria o seu “terceiro mandato” em 2010 por falta de opção, uma vez que os quadros mais qualificados do PT já àquela altura estavam enrolados em tenebrosas transações.
Dilma nunca se sentiu à vontade como comandante da economia e da política, sua falta de habilidade e incompetência ficou evidente desde o primeiro dia no emprego, e hoje nem seu criador pensa em defendê-la. Duvido que alguém no próprio PT levante a bandeira de “Dilma 2018”, ainda que seus direitos políticos tenham sido mantidos. Dilma passará à história como a primeira mulher a assumir a Presidência da República, o que seria uma coisa muito boa; infelizmente, também ficará registrada como uma das mais incompetentes figuras a ocupar o nobre cargo.
Aliás, uma boa comparação para o caso dela seria com outra mulher que chegou para marcar época e fez feio; Zélia Cardoso de Mello, ungida, em 1990, pelo então Presidente Collor como a mulher que colocaria a economia do Brasil nos eixos. Zélia seria a mulher mais “empoderada” da história do Brasil até então, se este termo horroroso existisse na época. E o que se lembra dela, hoje? Um desastre na economia, um “caso” rumoroso com outro ministro, depois mulher e ex-mulher do insaciável Chico Anísio e... sumiu.
Otimista que sou, acredito que, assim como depois de Zélia tivemos muitas mulheres de destaque em todos os campos da política e da economia, algum dia vamos ter uma mulher na presidência da República que fará um grande papel. E Dilma será lembrada apenas como a primeira, mas não das mais brilhantes.
E, se não for pedir muito, gostaria que nunca mais alguém ousasse pensar em utilizar a palavra “Presidenta”.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
O OURO FOI PARA O FUTEBOL BRASILEIRO, MAS O MODELO ALEMÃO AINDA É O MELHOR. E NADA IMPEDE QUE O BRASIL O ADOTE
A conquista da inédita medalha de ouro no futebol masculino das Olimpíadas gerou uma justa euforia em todos nós, torcedores fanáticos da camisa amarela. Todavia, passado o momento de emoção, cabe refletir um pouco sobre o que aconteceu e quais os próximos passos.
A verdade dos fatos é a seguinte; conquistar este ouro era uma obsessão para o futebol brasileiro, e o fato dos jogos serem realizados no Brasil aumentava consideravelmente as nossas chances. Tenho quase certeza que ninguém levou esta competição mais a sério do que o Brasil. Foram feitos esforços diplomáticos para poder contar com jogadores que atuavam fora do País, entre os quais o fora de série Neymar, o homem que iria fazer a diferença em campo – e acabou fazendo, pelo menos nos jogos mais importantes e decisivos.
Numa final cheia de simbolismos, encontramos a velha Alemanha dos 7x1. Tudo bem, não eram os melhores alemães disponíveis, mas pelo menos era um time alemão. E conseguimos a tão sonhada vingança – tudo bem, foi nos pênaltis, mas vitória é vitória. Só que, se pensarmos no jogo em si, o time alemão não foi, em nenhum momento, inferior ao nosso. Certamente o Brasil pressionou mais, mas nunca foi soberano absoluto da partida, e esbarrou sempre na obstinação de um time claramente inferior, do ponto de vista técnico, mas organizado e consciente para atacar e defender. E que, cá prá nós, poderia perfeitamente ter ganho.
E é neste ponto que eu volto a pensar sobre o projeto e o modelo alemão. Acho que já escrevi algum dia sobre isto, mas vale repetir; o investimento pesado que o governo alemão vem fazendo há uns quinze anos no futebol não tem como objetivo principal apenas o sucesso nas competições esportivas; a ideia é integração racial e social. Num país marcado por problemas de xenofobia, eles entenderam que, se colocassem a meninada para jogar bola desde a infância, eles entenderiam a linguagem sagrada do futebol, onde não existem brancos, pretos, amarelos ou verdes. Deu certo, e hoje os ídolos destas crianças podem ser negros como Boateng, turcos como Ozil, poloneses como Klose, ou mesmo arianos legítimos como Neuer. Tudo junto e misturado, como sempre tem que ser. E, de quebra, ganharam um padrão de jogo que se estende desde as categorias de base até a seleção principal e, melhor ainda, inclui o futebol feminino – não por coincidência, as alemãs ganharam a medalha de ouro na modalidade. Ou seja, no fim das contas, o desempenho deles foi melhor que o nosso, fizeram as duas finais. Aliás, a Alemanha sempre está chegando nas finais em todo o torneio que disputa.
Neste ponto, é bom ressaltar que o sucesso do projeto também passa pelo comportamento inteligente do torcedor alemão; eles entendem que ser segundo ou terceiro não é vergonha, ao contrário dos nossos “craques de sofá”, que nunca jogaram nada na vida mas acham que, quando o Brasil não é campeão, o time é uma merda e tem que mudar tudo. Infelizmente estas pragas não ficam apenas no futebol; o que Bernardinho e o time de vôlei masculino, que acumularam vices nos últimos tempos, foram bombardeados por estes xiitas foi uma coisa doentia, capaz de tirar a paciência de um São Francisco de Assis. Felizmente ganharam agora, e calaram a boca desta turma, pelo menos por enquanto.
Resumindo, sempre procuro pensar em como será o Brasil no dia em que a gente juntar, ao nosso talento natural, a capacidade de planejar e executar um projeto que os alemães têm. Talvez seja um sonho, mas sonhar não custa nada...
Até a próxima.
A verdade dos fatos é a seguinte; conquistar este ouro era uma obsessão para o futebol brasileiro, e o fato dos jogos serem realizados no Brasil aumentava consideravelmente as nossas chances. Tenho quase certeza que ninguém levou esta competição mais a sério do que o Brasil. Foram feitos esforços diplomáticos para poder contar com jogadores que atuavam fora do País, entre os quais o fora de série Neymar, o homem que iria fazer a diferença em campo – e acabou fazendo, pelo menos nos jogos mais importantes e decisivos.
Numa final cheia de simbolismos, encontramos a velha Alemanha dos 7x1. Tudo bem, não eram os melhores alemães disponíveis, mas pelo menos era um time alemão. E conseguimos a tão sonhada vingança – tudo bem, foi nos pênaltis, mas vitória é vitória. Só que, se pensarmos no jogo em si, o time alemão não foi, em nenhum momento, inferior ao nosso. Certamente o Brasil pressionou mais, mas nunca foi soberano absoluto da partida, e esbarrou sempre na obstinação de um time claramente inferior, do ponto de vista técnico, mas organizado e consciente para atacar e defender. E que, cá prá nós, poderia perfeitamente ter ganho.
E é neste ponto que eu volto a pensar sobre o projeto e o modelo alemão. Acho que já escrevi algum dia sobre isto, mas vale repetir; o investimento pesado que o governo alemão vem fazendo há uns quinze anos no futebol não tem como objetivo principal apenas o sucesso nas competições esportivas; a ideia é integração racial e social. Num país marcado por problemas de xenofobia, eles entenderam que, se colocassem a meninada para jogar bola desde a infância, eles entenderiam a linguagem sagrada do futebol, onde não existem brancos, pretos, amarelos ou verdes. Deu certo, e hoje os ídolos destas crianças podem ser negros como Boateng, turcos como Ozil, poloneses como Klose, ou mesmo arianos legítimos como Neuer. Tudo junto e misturado, como sempre tem que ser. E, de quebra, ganharam um padrão de jogo que se estende desde as categorias de base até a seleção principal e, melhor ainda, inclui o futebol feminino – não por coincidência, as alemãs ganharam a medalha de ouro na modalidade. Ou seja, no fim das contas, o desempenho deles foi melhor que o nosso, fizeram as duas finais. Aliás, a Alemanha sempre está chegando nas finais em todo o torneio que disputa.
Neste ponto, é bom ressaltar que o sucesso do projeto também passa pelo comportamento inteligente do torcedor alemão; eles entendem que ser segundo ou terceiro não é vergonha, ao contrário dos nossos “craques de sofá”, que nunca jogaram nada na vida mas acham que, quando o Brasil não é campeão, o time é uma merda e tem que mudar tudo. Infelizmente estas pragas não ficam apenas no futebol; o que Bernardinho e o time de vôlei masculino, que acumularam vices nos últimos tempos, foram bombardeados por estes xiitas foi uma coisa doentia, capaz de tirar a paciência de um São Francisco de Assis. Felizmente ganharam agora, e calaram a boca desta turma, pelo menos por enquanto.
Resumindo, sempre procuro pensar em como será o Brasil no dia em que a gente juntar, ao nosso talento natural, a capacidade de planejar e executar um projeto que os alemães têm. Talvez seja um sonho, mas sonhar não custa nada...
Até a próxima.
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