domingo, 15 de maio de 2016

Uma pequena aula de história para frear a histeria “politicamente correta”

“Não é possível corrigir o passado, mas, a cada dia, podemos começar a construir um novo futuro” - Chico Xavier.
Diz uma historinha dos anos 1970 que, certa vez, perguntaram a Mao Tse Tung, o grande líder chinês, o que ele achava da influência da Revolução Francesa na História da Humanidade. Mao teria respondido algo do tipo; “ainda é muito cedo para se avaliar as consequências, afinal se passaram menos de dois séculos”. Verdadeiro ou não, o “causo” pode servir de base para algumas conclusões sobre a onda histérica que se levantou a partir do momento em que o Presidente interino Michel Temer anunciou o seu ministério composto apenas por homens brancos – um retrocesso, ou até um crime, na visão de alguns.
Meninos, o tempo é o senhor da razão. Mudanças comportamentais ou de paradigmas acontecem aos poucos, e seus efeitos só serão efetivamente implementadas ao longo de décadas, ou até séculos, conforme observou Mao Tse Tung com muita propriedade (se a historinha for verdadeira, of course). E corrigir o passado é impossível, conforme disse o nosso velho e bom Chico Xavier.
A evolução da participação das mulheres na sociedade começou a acontecer com alguma intensidade a partir da metade do século XX. Só para vocês terem uma ideia, citando dois “causos” particulares, quando entrei para a Escola de Engenharia da UFRGS, em 1971, de um contingente de 400 alunos, apenas 20 (isto mesmo, 5%) eram mulheres. Pior ainda; quando passei no concurso e entrei para a Petrobras, em janeiro/1976, o cargo de “Engenheiro de Equipamentos” era vedado para mulheres, sob a suposição (totalmente estúpida, diga-se), de que elas não poderiam trabalhar em plataformas por correrem o risco de sofrer violência sexual. E como vivíamos uma ditadura militar (que alguns idiotas ainda insistem que “é a solução” para o Brasil), não tinha conversa; era proibido e fim de papo, não tinha a possibilidade de recorrer à justiça (que só existe em estados democráticos). Esta proibição maluca só foi revogada no início dos anos 80, se a memória não me falha.
Numa situação paralela, nos Estados Unidos, na mesma época, o racismo ainda era oficial em alguns estados, e foi só após uma luta dura, que custou a vida de Martin Luther King, John Kennedy e alguns milhares de anônimos, é que as crianças e adolescentes negros conseguiram o direito de estudar em boas escolas e serem tratados como gente.
Os resultados das mudanças começaram a aparecer com intensidade algumas décadas depois, o que é natural. Hoje temos um presidente negro nos Estados Unidos, e tivemos, recentemente, na Petrobras, Graça Foster como a primeira mulher a chegar à presidência da empresa. Nenhum deles precisou usar sistema de cotas; chegaram lá pelas suas qualidades, e porque tiveram o direito de competir em igualdade de condições desde os tempos do colégio.
Assim, entendo que, hoje, ainda temos um número relativamente pequeno de mulheres e/ou negros e/ou outras minorias em postos mais importantes, que ainda é fruto deste (mau) legado histórico. Mas a minha geração vai morrer ou sair do cenário em breve, e a tendência é que as coisas se equiparem. Assim caminha a humanidade, como diz Lulu Santos, o poeta com nome de cachorrinho de madame.
Minha implicância com o politicamente correto vem desta distorção; eles querem corrigir o passado, e acabam atrapalhando o presente, exigindo cotas para isto e para aquilo, sem levar em conta que isto acaba gerando um preconceito ao contrário, que impede em muitos casos, que os mais competentes ocupem os cargos. E o efeito colateral é que isto acaba, sem querer, proporcionando argumentos para radicais como Donald Trump e Bolsonaro, por exemplo (ver meu artigo anterior, "De Bolsonaro a Trump, a volta triunfal do politicamente incorreto).
Resumindo, minha visão é que todos somos seres humanos, e temos as mesmas competências e defeitos. O problema é que, por força de distorções antigas (já superadas), o número de homens que estão hoje na faixa dos 60 anos que tiveram condições plenas de desenvolver suas competências é bem mais significativo que o de mulheres. E isto se reflete (ainda) nas empresas, governos, mercado de trabalho, etc...
Vejo a prova disto nas turmas de MBA onde dou aulas; entre os professores mais “experientes” (leia-se; velhos), os homens são a imensa maioria, mas no pessoal que está na faixa dos quarenta anos, o número de professoras é cada vez mais significativo. E no corpo de alunos (que serão os futuros professores, of course), a coisa está tecnicamente empatada, já tive turmas com mais de 65% de alunas. Ou seja; a integração está se fazendo a cada dia, tudo junto e misturado, como tem que ser. E os competentes sobreviverão, sejam homens ou mulheres.
Por favor, não atropelem o processo, nem tentem corrigir o nosso vergonhoso passado. Só se pode corrigir o futuro. E ele é promissor para todos.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A ascensão do cuspe-dô, a nova arte marcial brasileira

Nelson Rodrigues, provavelmente o nosso maior frasista e um cara que entendeu a alma brasileira como poucos, dizia; “O brasileiro é o Narciso às avessas; se puder, cospe na própria imagem”. Nos anos 50, quando eu nasci e Nelson escreveu esta frase, cuspir em alguém era considerado um ato de suprema ofensa, seguramente uma agressão pior até que um soco ou algo assim. Afinal, para dar um soco é preciso tocar no agredido; o cuspe ficava reservado para seres tão abjetos que nos repugnava a ideia de ter qualquer contato físico com eles. E a imagem de alguém cuspindo em si mesmo era forte o suficiente para determinar o tamanho da nossa falta de autoestima, o complexo de vira-latas, na definição do próprio Nelson.
Nem nos seus piores pesadelos o nosso grande escritor poderia imaginar o quanto sua frase seria profética. Nestes tempos trevosos que vivemos, cuspir nos outros virou moda e, pior ainda, passou a ser considerado por muitos como uma atitude justa, quase exemplar, dependendo de quem seja o alvo da cusparada. Conforme sugere o título deste post, talvez estejamos assistindo à criação de uma nova arte marcial. O sufixo “dô”, presente no nome de diversas lutas orientais (judô, aiki-dô, tae-kwon-do), significa “caminho”. No caso deles, o caminho proposto é o do respeito aos outros e da disciplina; já o nosso cuspe-dô louva a cafajestagem e a covardia.
Minha triste conclusão é que, finalmente, o brasileiro perdeu a paciência com este tal de “brasileiro”, o repulsivo ser responsável por todas as nossas mazelas e que sempre é o outro, nunca a gente. No fundo, cada um cospe em si mesmo; na nossa falta de autoestima, na nossa incapacidade de criar um verdadeiro sentimento de nação, mesmo tendo um país com tantas possibilidades.
Espero que, deste fundo de poço moral aonde chegamos, surja uma oportunidade, e finalmente o brasileiro se reconcilie consigo mesmo, aprenda a dialogar e construir. Infelizmente, no momento, o que vemos são atitudes cada vez mais raivosas, agressivas e irracionais. E cuspir, acima de tudo, é um ato “nojento!”, conforme diria, com muita propriedade, o saudoso Tião Macalé, numa definição perfeitamente aplicável ao atual momento político e social que vivemos.
Enfim, quem viver, verá.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O circo do congresso repete o circo nosso de cada dia

De todas as “qualidades” apresentadas por nossos ilustres parlamentares no triste espetáculo da votação de domingo (grosseria, burrice, analfabetismo funcional e outras) a que mais me chamou atenção foi a falta de disciplina. Afinal, a solicitação feita foi que cada congressista usasse dez segundos, ou seja; chega ao microfone, fala o voto (sim ou não), e passa a vez. Simples assim. Ninguém cumpriu.
Sempre que se fala em fatores críticos de sucesso para um projeto, que é a área onde trabalho, a disciplina é citada. E, na minha visão, a origem de todos os problemas que temos no Brasil passa por esta simples palavrinha; indisciplina.
O problema da indisciplina do brasileiro é muito maior do que se imagina. O economista Douglass North, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1993, afirma que o mais importante para que um país se desenvolva são as crenças de sua população. Concordo 100% com ele. E uma das crenças mais fortes do imaginário brasileiro é a sua aversão a tudo o que represente autoridade e disciplina.
Posso citar dezenas de exemplos, desde o caos no trânsito até a dificuldade que temos de formar uma fila em qualquer lugar público, mas vou citar um que me incomoda muito; o problema do celular nos aviões. É impressionante como NINGUÉM obedece imediatamente à ordem de desligar o celular. Obedecer à regra é considerado sinal de fraqueza; segundo a frase atribuída a Roberto da Matta, o brasileiro acha que quem segue as regras é babaca. O bonito, charmoso, é continuar falando até levar uma chamada pessoal da aeromoça; aí o sujeito (ou sujeita) desliga, com ar de enfado. Na votação de domingo, várias vezes a campainha teve que ser acionada. E os caras não paravam de falar. O congresso nos representa. Sad but true.
Citando mais um exemplo, Lee Kwan Yew, o lendário líder que comandou a transformação de Singapura, uma minúscula cidade-estado de cinco milhões de habitantes em um dos países mais importantes do mundo, disse que “a democracia não leva necessariamente ao crescimento. O que um País precisa é desenvolver a disciplina e a confiança”.
Afinal, disciplina é coisa de nazista?
Infelizmente, no Brasil, ainda existe uma confusão de conceitos entre disciplina e repressão; resumindo, vemos a disciplina como um entrave à criatividade, por exemplo. Para acabar com este mito, seguem duas frases de indivíduos reconhecidamente criativos;
“Disciplina é liberdade” (Renato Russo, compositor).
“Em relação à propaganda, sou obviamente contra a censura e totalmente a favor de disciplina e legislações” (Washington Olivetto, publicitário).
Na verdade, a disciplina pode até começar pela repressão (em Singapura foi assim), mas se estabelece mesmo no momento em que todas as pessoas entendem que esta é a melhor forma para se viver. A foto que ilustra este artigo mostra um grupo de japoneses esperando para levar para casa sua cota de água potável após o tsunami de março/2011. Veja que todos estão obedecendo à fila, mesmo em um cenário totalmente caótico. Compare esta imagem com a do nosso congresso. Depois, ao invés de dizer que estes políticos não nos representam, pense nas suas atitudes no dia a dia do trânsito, do aeroporto, da fila do supermercado...
Resumindo; a melhora que todos queremos passa, mais que qualquer coisa, por uma renovação de crenças e valores. O já citado Douglass North diz que “um país que valoriza a pirataria vai produzir os melhores piratas”. Uma cultura que valoriza o individualismo e a safadeza vai eleger políticos egoístas e safados. Simples assim.
Existe mais a dizer sobre o assunto, mais este artigo já ficou longo demais. Fica para um próximo.


sábado, 16 de abril de 2016

OK, vamos tirar a Dilma. E depois disto, temos algum projeto?

Se todas as previsões se confirmarem, o Brasil inicia neste domingo um processo (que espero que seja rápido) para tirar Dilma e seu mentor espiritual Lula do poder. A pergunta que fica é; o que esperamos que aconteça a partir daí? Não estou me referindo aos problemas de seus sucessores na linha direta da constitucionalidade (Temer, Cunha, Calheiros), todos envolvidos também em irregularidades, mas sim ao que se espera do Brasil pós-PT. A sábia Mafalda, personagem do genial cartunista argentino Quino, dizia; “não é suficiente destruir as estruturas, precisamos saber o que vamos fazer com os cacos”.
Não custa lembrar que já vimos filme parecido em 1992, quando o país inteiro comemorou o impeachment do então presidente Fernando Collor. Resultados práticos; nenhum. A corrupção não acabou e o próprio Collor retornou à política triunfalmente, sendo hoje um dos mais representativos nomes do senado brasileiro.
O que faltou? Faltou, como sempre, um projeto. Em 2010 a então desconhecida candidata Dilma Rousseff falou que “um país sem projetos é um país sem futuro”. Para quem só era conhecida como “a mãe do PAC” (alguém lembra do PAC?), uma boa frase. Talvez uma das poucas coisas coerentes que ela disse em toda a sua vida pública.
Infelizmente, a falta de educação e o imediatismo são características muito fortes da sociedade brasileira como um todo, não sendo exclusividade nem de coxinhas nem de petralhas. A foto abaixo, que eu mesmo tirei, é de uma pichação colocada em um muro do bairro carioca Jardim Botânico, nas manifestações de junho/2013. Prá mim é o resumo perfeito das crenças brasileiras. E uma boa explicação sobre como um país com tantas possibilidades de sucesso continua na lama.

Como não me agrada a ideia que o impeachment de Dilma também não tenha grandes resultados práticos no longo prazo, entendo que é hora de pensar em algumas alternativas para que isto não aconteça. Vale lembrar que, diferentemente de 1992, temos hoje uma sociedade bem mais forte, que foi capaz de colocar na cadeia empresários e políticos de alto escalão; este é um ponto importante, e um avanço que não pode admitir recuos.
Vou listar abaixo alguns dos pontos que me parecem importantes para debater, e prometo voltar a cada um deles em futuros posts, até porque este já ficou muito grande;
a) Reforma ministerial (nenhum país do mundo precisa de 40 ministérios);
b) Redução dos cargos de confiança e do custo da máquina administrativa (o número de assessores que os nossos políticos têm, tanto na esfera federal como estadual e até municipal é, seguramente, absurdo. Esta reforma é fácil de fazer e vai economizar muito);
c) Adoção de voto distrital e facultativo (acho que o Brasil é o único país do mundo em que votar é obrigação);
d) Obrigação, por parte de todo e qualquer ocupante de cargos políticos, de disponibilizar na internet sua declaração de bens (permite à sociedade controlar possíveis sintomas de enriquecimento anormal);
e) Nomeação dos presidentes e diretores de empresas estatais por critérios técnicos, com verificação anual de cumprimento de metas (é assim em todos os lugares civilizados do mundo).
Acho que estes cinco itens são suficientes para começar, mas tem muito mais. O que não pode é tirar o PT e deixar tudo como está, porque daqui há algum tempo vamos sair às ruas para tirar o PSDB, ou o PMDB, ou, pior de tudo, reeleger o Lula.
O Brasil precisa de um projeto de país. Se querem um grito de guerra, tenho um; Gerentes de projeto, unidos, jamais serão vencidos!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

De Bolsonaro a Trump, a volta triunfal do “politicamente incorreto”

Cena carioca; domingo, por volta de meio-dia, estou na caminhada habitual pelo calçadão da praia da Barra, quando uma movimentação incomum me chama a atenção. Um sujeito de camiseta branca, que também faz seu exercício, é interrompido a toda hora para abraços, apertos de mão e diversas outras tietagens. Será um artista global? Um astro do esporte? Quando ele chega mais perto e passa praticamente ao meu lado, reconheço a figura do Deputado Jair Bolsonaro. Como estávamos caminhando na mesma direção, pude acompanhar o fenômeno durante mais alguns minutos; as pessoas se viram para olhar, um sujeito perto de mim comenta com outros dois; “Este é o Bolsonaro, aquele que disse que só não estuprava a Dilma porque não valia a pena. Eu tenho que dar um abraço neste cara!”. Na verdade, a frase não foi dirigida à Dilma, mas, conforme já disse alguém bem melhor que eu, quando a versão é melhor que os fatos, dane-se os fatos.
Meninos, eu vi. Ninguém me contou. E não me venham dizer que é coisa de emergente da Barra, porque o entusiasmo dos funcionários dos quiosques era o mesmo. Fiquei pensando; qual outro político de relevância no Brasil passaria por um teste destes hoje, andando pelo calçadão de uma praia cheia de gente? Lula? Dilma? Aécio? Sinceramente, tenho dúvidas.
Chegando em casa, abro o jornal e vejo que, embora esteja caindo nas pesquisas, Donald Trump ainda é um dos favoritos para indicação dos republicanos à Presidência dos Estados Unidos. E não posso deixar de ligar uma coisa à outra.
Trump e Bolsonaro têm em comum a ojeriza ao “politicamente correto”; são terrivelmente grosseiros, mas sinceros em seus posicionamentos. E o sucesso dos dois é uma demonstração clara de que existe muita gente de saco cheio disto.
Pausa para reflexão; será que a onda do “politicamente correto” não gerou alguns posicionamentos tão radicais quanto os anteriores? E que, conforme nos dizia o velho e bom Isaac Newton, a toda ação corresponde uma reação igual e contrária? Só para citar um exemplo, se nós somos contra qualquer tipo de preconceito, então não poderíamos aceitar uma fala como a do ex-presidente Lula quando ele disse que a culpa da desigualdade econômica era do pessoal “branco e de olhos claros”. Isto é preconceito; afinal, eu sou branco, neto de alemães, e não me considero culpado por porcaria nenhuma. Só que ninguém no mundo de hoje dá a um branco o direito de se sentir ofendido. Satanizar os heterossexuais pode; criticar homossexuais dá cadeia. Enfim, o racismo e o preconceito não mudaram; apenas mudou o lado que bate e o que apanha. E a impressão que tenho é que a ficha caiu e hoje as pessoas comuns começaram a dar a resposta; estamos de saco cheio disto. Esta confusão toda acaba aumentando a popularidade de gente radical como Bolsonaro ou Trump. Que, a meu ver, também não representam uma boa solução.
O grande Nelson Mandela provou, recentemente, que o único jeito de evoluir é através do perdão e do diálogo. Depois de sofrer na pele uma vida inteira de injustiças, não aproveitou sua subida ao poder para dar o troco nos brancos; ao contrário, chamou todo mundo para conversar, e mudou o destino de uma nação. Antes dele, Martin Luther King teve o sonho da igualdade, não da vingança. É preciso interpretar corretamente os sinais e entender que é preciso ceder dos dois lados. Bolsonaro e Trump são radicais, mas têm sua dose de razão, e podem contribuir para o debate. Só que os “politicamente corretos” também têm que aprender a negociar. Se isto não acontecer, podemos cair em um confronto puro e simples e acabar tendo um retrocesso perigosíssimo. Que, tenho certeza, não será bom para ninguém.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Quarenta anos de formado. Já?

No dia 13 de dezembro de 1975, numa enorme festa no Ginásio Gigantinho, do Internacional, eu e mais uns 300 formandos do curso de engenharia da UFRGS recebemos o nosso diploma. É interessante notar que no dia seguinte, no Estádio ao lado deste ginásio, o Inter venceu o Cruzeiro em um jogo épico, e conquistou seu primeiro campeonato brasileiro de futebol, mas meu coração gremista prefere ignorar esta coincidência histórica.
Hoje, quarenta anos depois, como está o Brasil, e a engenharia brasileira? É claro que é possível escrever vários artigos e talvez até um livro sobre o assunto, mas vou tentar focar em alguns poucos pontos, para evitar que o provável leitor desista só de olhar.
1. O perfil do engenheiro; fiz parte da última geração que ainda utilizou réguas de cálculo. Conheci uma calculadora de quatro operações quando já estava no terceiro ano da faculdade, e o nosso conceito de “computador” ainda era o monstrengo chamado “IBM 1130”. O avanço da informática trouxe, na minha visão, duas consequências importantes, uma ruim e uma boa;
a) Perda da sensibilidade matemática; sem querer puxar a brasa para o meu assado, entendo que a falta de ferramentas nos obrigava a entender melhor os problemas e ter uma boa noção sobre ordem de grandeza (tínhamos que trabalhar sempre com números redondos). Hoje vejo engenheiros que são apenas “pilotos de planilha”; colocam os dados e registram as respostas, automaticamente. Veja bem, não estou dizendo que são menos inteligentes do que os antigos; apenas ficaram preguiçosos, nunca precisaram fazer uma conta de cabeça. E isto faz falta;
b) Desenvolvimento de outras qualidades; como passávamos a maior parte do tempo envolvidos com contas e números a parte “humana” dos engenheiros da minha época era uma verdadeira tragédia (veja bem; estou falando em termos médios). Assim, quando ele evoluía para posições gerenciais, costumava se portar como um ogro. Hoje, a parte “braçal” da matemática é feita por computadores, e os engenheiros (em média, repito) estão muito mais habilitados a lidar com questionamentos fora da sua área de atuação. Isto é ótimo.
2. O Brasil mudou só um pouquinho; cursei a faculdade no momento mais forte e repressivo da ditadura militar, no início dos anos 70. Também vivi o “milagre brasileiro”, na época. Depois de formado vi, com satisfação, a evolução para um estado democrático, mas também sei que o maior fator para o fim da ditadura foi a decadência econômica do modelo que nos levou ao “milagre”. Hoje vejo com tristeza que a situação se repete; o PT copiou exatamente o que deu errado no modelo militar e estamos diante de uma nova crise pós-“milagre”. Sem entrar muito em detalhe, o que eu entendo disto tudo é que nos faltou uma evolução cultural; estamos em um estado democrático, e espero que ninguém pense em sair dele, mas o fato é que não temos ainda um debate político qualificado (continuamos com briguinhas ideológicas, tipo neo-liberais x bolivarianos, assim como antigamente eram comunistas x reacionários, enquanto o mundo civilizado já passou deste estágio há tempos). A própria estrutura de poder não evoluiu; o Presidente da República, embora agora seja eleito por voto popular, mantém poderes quase ditatoriais, o que pode ser visto no caso da Petrobras, onde ficou claro que Presidente, Diretores e Conselho de Administração da empresa nunca tiveram liberdade para discordar do Palácio do Planalto; quem não dançar conforme a música, vai embora. Resumindo, não somos mais uma ditadura, mas ainda estamos longe de uma cultura democrática. E, infelizmente, isto faz muita diferença, ainda.
3. As mulheres arrombaram a porta; esta talvez seja a mudança cultural mais significativa e interessante de todas. Sim, eu fui criado em uma sociedade em que as “moças de família” casavam virgens e eram treinadas para o papel de esposas e donas de casa. “O avental todo sujo de ovo” citado na melosa canção, era o diploma de “rainha do lar”, a mãe e esposa exemplar e submissa. Fico impressionado em ver como as coisas mudaram tanto em tão pouco tempo. Para ter uma ideia de qual era o papel da mulher na sociedade de então, digo que, dos 400 alunos aprovados no vestibular de engenharia da UFRGS em 1971, apenas 20 (ou seja, 5%), eram mulheres. E, se a memória não me falha, este número foi um recorde para os padrões da época. Impressionante como, em poucas décadas, chegamos ao ponto de ter uma mulher ocupando a Presidência da República (embora não seja, seguramente, o mais brilhante exemplar da espécie, mas tudo bem). É claro que ainda existem bolsões de resistência machista, afinal quarenta anos é muito pouca coisa em termos de história, mas esta foi uma evolução espetacular. Uma vitória para as mulheres, e para toda a sociedade.
4. Perspectivas futuras; este é outro ponto onde o mundo mudou muito. Em 1975 a expectativa de vida útil do ser humano era bem menor. Minha geração foi a que largou o cigarro (eu, graças a Deus e a uma bronquite asmática na infância, nunca tive nem a curiosidade de experimentar), e também começou a dar importância a uma alimentação saudável e exercícios físicos. A famosa música dos Beatles colocava a idade de 64 anos como a porta do asilo (“will you still need me, will you still feed me, when I’m 64?”). Pois bem, eu e meus colegas estamos hoje nesta faixa (eu completo os 64 em 11 de março próximo) sem necessidade de que alguém nos alimente, e com a certeza de que ainda precisam da gente. E, entendo eu, com a possibilidade de assumir o protagonismo na maior mudança da história do Brasil. Porque estamos assistindo a cenas inéditas; empresários, diretores de empresas estatais e privadas e até políticos de primeiro escalão estão indo em cana. Agora, para que isto traga resultados práticos, é preciso que não fiquemos na posição de meros torcedores; é hora de entrar em campo, exigindo que novas bases sejam estabelecidas. Sai de campo o compadrismo, as capitanias hereditárias, o “jeitinho brasileiro”, o autoritarismo; entram a meritocracia, a competitividade, a eficiência e a educação de qualidade. E nós, engenheiros, somos importantes para que este jogo vire. Afinal, se tem alguém que entende de projetos, somos nós.
Quem viver, verá.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Tiririca presidente? Por que não?

Da série "um País não pode ser maior do que os valores de seu povo";
Soube hoje que o deputado Tiririca (não sei nem o nome, nem o sobrenome dele) é o quinto na linha sucessória para ocupar a Presidência da República, caso se confirme o "impeachment" da "Presidenta" (argh....) Dilma. O engraçado é que já vi e ouvi muita gente boa dizendo que o Tiririca é um deputado exemplar, porque não falta às sessões e não é corrupto. Acrescento, por minha conta, que, até onde estou informado, ele não bate em mulher, paga seus impostos, etc...
Com todo o respeito, este é um currículo mínimo para qualquer função, mas para citar alguém como "exemplar" na sua área de atuação, entendo que o sujeito tem que ter a chamada "competência específica".
Considero que Tiririca pode ser chamado de "humorista exemplar" (quase falei "palhaço exemplar" mas, infelizmente, este termo pode ter outras conotações) porque, além das qualidades acima, também é um cara muito engraçado, capaz de fazer a gente rir.
Agora, para citá-lo como "deputado exemplar", gostaria de saber quais foram os projetos de lei que apresentou, qual seu posicionamento diante das grandes questões nacionais, e coisas assim. E isto ninguém sabe - provavelmente, nem ele.
Resumindo; um País que espera tão pouco de seus homens públicos, não vai chegar muito longe, mesmo. E a culpa não é do Tiririca; é de quem votou nele "só de zueira".
Pensem nisto...