Às vésperas da última eleição americana, todos os institutos de pesquisa de lá indicavam a vitória de Hillary Clinton sobre Donald Trump. A margem era estreita, mas garantida. Na hora da verdade, todo mundo sabe o que aconteceu; o topetudo escroto derrotou a princesinha do politicamente correto, para horror da plateia. E o mais incrível é que o governo dele, apesar dele, está dando certo; pelo menos a economia (que é o que conta), vai muito bem.
Li, não sei onde, uma teoria que me pareceu bem consistente; a repulsa histérica que cercava o nome de Donald Trump era tão grande que boa parte de seus eleitores omitia a sua escolha até para os pesquisadores e estatísticos. Como cantava a grande Amália Rodrigues, em um fado inesquecível, “de quem eu gosto, nem às paredes confesso...”. Pois os eleitores de Trump não confessavam, mas, na solidão da cabine, viraram o jogo.
Creio que o fenômeno pode se repetir com Bolsonaro. As reações a seu nome são histéricas e, muitas vezes, beiram o irracional. É claro que existem os que assumiram sua opção, sem medo do linchamento moral; são os vinte e tantos por cento do eleitorado que, praticamente, asseguram sua presença no segundo turno.
E é exatamente no segundo turno, onde Bolsonaro sempre aparece como perdedor, que eu vejo o fantasma do “eleitor enrustido”; afinal, é muito menos perigoso para a vida social de alguém dizer que vota em qualquer um, menos nele, do que assumir algo do tipo “se for para eleger um coronelão que nem o Ciro, aí vou de Bolsonaro e f(*)-se!” (isto vale para Marina, Alckmin, Haddad ou até o Lula, se acontecer ainda).
Resumindo; acho que a chance de Bolsonaro ganhar o segundo turno é muito maior do que se pensa. E tenho certeza que a maneira mais burra de combatê-lo é xingando os seus eleitores.
Quem viver, verá.
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
domingo, 26 de agosto de 2018
Claudiomiro, as Brahmas da Polar e a lembrança de um tempo menos neurótico
Da série “depois de velho eu virei sentimental”;
Fiquei emocionado com a morte de Claudiomiro, um dos maiores centroavantes da história do Internacional e autor do primeiro gol do Estádio Beira-Rio, em 1969. E o que me emocionou foi lembrar uma historinha folclórica dele, da qual sou testemunha.
Na Porto Alegre da época havia um programa esportivo conhecido; Jogo Aberto, na extinta TV Difusora. O programa era patrocinado pela cerveja Polar, até hoje uma das melhores do Brasil, e o jogador escolhido como “o melhor da rodada” ganhava uma caixa de cervejas.
O problema é que a liderança de mercado da onipresente Brahma era tão grande que o pessoal já tinha criado o hábito de usar Brahma como sinônimo de cerveja. O papo era; domingo vamos tomar umas Brahmas (que podia ser de qualquer marca).
Pois o nosso bom Claudiomiro ganhou o prêmio e, na hora de agradecer, com o programa ao vivo, lascou esta; “Queria agradecer à Polar pela caixa de Brahma que me mandou...”. Quase morri de rir vendo a cara dos apresentadores. No dia seguinte, sacaneamos muito os amigos colorados com a mancada do ídolo deles.
Mais do que um “causo” divertido, esta história marca prá mim uma época em que o mundo era mentalmente mais saudável. Sim, um jogador podia ganhar cervejas de presente, sim, a gente curtia com a cara dos outros torcedores e eles com a nossa e tava tudo bem, sim, jogadores falavam coisas erradas e tava tudo certo.
Hoje, a pressão doentia das redes antissociais e do terrível “politicamente correto” obriga jogadores a ter assessores que orientam o que pode e o que não podem falar, porque qualquer erro pode virar cavalo de batalha para gente estúpida e cheia de ódio no coração.
Vai em paz, meu bom Claudiomiro. Tenho certeza que lá no paraíso estão te esperando com uma caixa de Brahma da Polar, bem gelada.
Até a próxima!
Fiquei emocionado com a morte de Claudiomiro, um dos maiores centroavantes da história do Internacional e autor do primeiro gol do Estádio Beira-Rio, em 1969. E o que me emocionou foi lembrar uma historinha folclórica dele, da qual sou testemunha.
Na Porto Alegre da época havia um programa esportivo conhecido; Jogo Aberto, na extinta TV Difusora. O programa era patrocinado pela cerveja Polar, até hoje uma das melhores do Brasil, e o jogador escolhido como “o melhor da rodada” ganhava uma caixa de cervejas.
O problema é que a liderança de mercado da onipresente Brahma era tão grande que o pessoal já tinha criado o hábito de usar Brahma como sinônimo de cerveja. O papo era; domingo vamos tomar umas Brahmas (que podia ser de qualquer marca).
Pois o nosso bom Claudiomiro ganhou o prêmio e, na hora de agradecer, com o programa ao vivo, lascou esta; “Queria agradecer à Polar pela caixa de Brahma que me mandou...”. Quase morri de rir vendo a cara dos apresentadores. No dia seguinte, sacaneamos muito os amigos colorados com a mancada do ídolo deles.
Mais do que um “causo” divertido, esta história marca prá mim uma época em que o mundo era mentalmente mais saudável. Sim, um jogador podia ganhar cervejas de presente, sim, a gente curtia com a cara dos outros torcedores e eles com a nossa e tava tudo bem, sim, jogadores falavam coisas erradas e tava tudo certo.
Hoje, a pressão doentia das redes antissociais e do terrível “politicamente correto” obriga jogadores a ter assessores que orientam o que pode e o que não podem falar, porque qualquer erro pode virar cavalo de batalha para gente estúpida e cheia de ódio no coração.
Vai em paz, meu bom Claudiomiro. Tenho certeza que lá no paraíso estão te esperando com uma caixa de Brahma da Polar, bem gelada.
Até a próxima!
terça-feira, 21 de agosto de 2018
Lulistas e Bolsonarianos têm uma coisa em comum; o desprezo pelas instituições democráticas. E isto é um perigo
O cenário polarizado e grosseiro que envolve a atual campanha eleitoral deriva, de certa forma, da visão totalitária dos seguidores dos dois nomes mais importantes do cenário; o candidato Bolsonaro e Lula, o candidato a candidato.
Bolsonaro pelo menos é sincero e explícito; apoia abertamente a volta da ditadura militar, torce o nariz para tudo o que represente “direitos humanos”, cita torturadores como exemplos de conduta... Enfim, quem vota nele sabe exatamente o que ele pensa.
Já os que exigem a libertação de Lula são um pouco mais sutis, mas não menos perigosos. Afinal, acreditar que a condenação de Lula é um gesto político e não se baseia em provas reais significa pensar que o todo o sistema judiciário brasileiro não vale nada. E não é preciso ser um gênio para saber que a primeira coisa que qualquer regime ditatorial faz é acabar com o judiciário e estabelecer suas próprias leis. Juntando A com B...
Outro sintoma desta distorção pode ser visto na devoção que a maioria dos Lulistas tem por Fidel Castro. Não há como negar o carisma e a força de Fidel como líder, mas, por outro lado, é preciso entender que ele sempre foi um ditador, incapaz de conviver com o contraditório. Isto o coloca num nível muito abaixo de verdadeiros líderes democráticos, como Churchill e Mandela, só para citar dois. Resumindo; quem louva a trajetória de Fidel Castro não acredita em soluções democráticas, simples assim.
Enfim, o que une os dois lados aparentemente opostos desta moeda é o fascínio por líderes messiânicos e a incapacidade de conviver com quem ousa ter opiniões diferentes. Um lado quer a volta da ditadura dos militares, o outro acredita que Lula é o ditador “bonzinho e amigo do povo” que vai transformar o Brasil na grande e feliz Cuba dos sonhos deles.
O que me deixa mais preocupado é que, somados, Lulistas e Bolsonarianos representam mais da metade dos eleitores brasileiros. A conclusão é triste; democraticamente, a maioria dos brasileiros decide que é contra a democracia. Como é que a gente sai desta?
Quem viver, verá.
Bolsonaro pelo menos é sincero e explícito; apoia abertamente a volta da ditadura militar, torce o nariz para tudo o que represente “direitos humanos”, cita torturadores como exemplos de conduta... Enfim, quem vota nele sabe exatamente o que ele pensa.
Já os que exigem a libertação de Lula são um pouco mais sutis, mas não menos perigosos. Afinal, acreditar que a condenação de Lula é um gesto político e não se baseia em provas reais significa pensar que o todo o sistema judiciário brasileiro não vale nada. E não é preciso ser um gênio para saber que a primeira coisa que qualquer regime ditatorial faz é acabar com o judiciário e estabelecer suas próprias leis. Juntando A com B...
Outro sintoma desta distorção pode ser visto na devoção que a maioria dos Lulistas tem por Fidel Castro. Não há como negar o carisma e a força de Fidel como líder, mas, por outro lado, é preciso entender que ele sempre foi um ditador, incapaz de conviver com o contraditório. Isto o coloca num nível muito abaixo de verdadeiros líderes democráticos, como Churchill e Mandela, só para citar dois. Resumindo; quem louva a trajetória de Fidel Castro não acredita em soluções democráticas, simples assim.
Enfim, o que une os dois lados aparentemente opostos desta moeda é o fascínio por líderes messiânicos e a incapacidade de conviver com quem ousa ter opiniões diferentes. Um lado quer a volta da ditadura dos militares, o outro acredita que Lula é o ditador “bonzinho e amigo do povo” que vai transformar o Brasil na grande e feliz Cuba dos sonhos deles.
O que me deixa mais preocupado é que, somados, Lulistas e Bolsonarianos representam mais da metade dos eleitores brasileiros. A conclusão é triste; democraticamente, a maioria dos brasileiros decide que é contra a democracia. Como é que a gente sai desta?
Quem viver, verá.
sexta-feira, 27 de julho de 2018
Neymar tem que tomar uma decisão na vida
Da série “um homem de moral, não fica no chão...”;
2018 não foi exatamente um ano de sonhos para o nosso craque Neymar. Contratado para ser o craque do PSG acabou tendo um desempenho irregular ao longo do ano, depois sofreu uma lesão séria e, na Copa do Mundo, sua imagem ficou marcada muito mais pelas simulações do que por grandes jogadas. E acabou não arrumando vaga nem entre os dez indicados para o prêmio de melhor jogador do ano. Dizem as más línguas que o único prêmio que ele poderia cobiçar atualmente seria o “Troféu Cigano Igor”, de pior ator do mundo (no caso ele e a Bruna Marquesini poderiam concorrer na categoria dupla mista, com boas possibilidades).
Acho que chegou para Neymar o momento de decisão na vida e na carreira; ou ele resolve manter o comportamento de adolescente mimado e vai ser apenas mais uma promessa de supercraque que não vingou, ou encara uma virada firme e vira um profissional de verdade, que será um sério candidato a melhor jogador de sua geração, porque bola prá isto ele tem.
Um bom exemplo para ele pode ser o Cristiano Ronaldo. Na Copa de 2006 o então jovem e promissor português saiu com a fama de cai-cai, desleal e arrogante. CR7 aprendeu a lição e hoje já tem seu nome gravado em letras de ouro na historia do futebol, um craque e um líder digno de ser citado junto a Pelé, Maradona e mais uns poucos em qualquer lista de melhores de todos os tempos.
Espero, sinceramente, que Neymar faça a opção certa. Seria bom prá ele e para nós, torcedores brasileiros.
Quem viver, verá.
2018 não foi exatamente um ano de sonhos para o nosso craque Neymar. Contratado para ser o craque do PSG acabou tendo um desempenho irregular ao longo do ano, depois sofreu uma lesão séria e, na Copa do Mundo, sua imagem ficou marcada muito mais pelas simulações do que por grandes jogadas. E acabou não arrumando vaga nem entre os dez indicados para o prêmio de melhor jogador do ano. Dizem as más línguas que o único prêmio que ele poderia cobiçar atualmente seria o “Troféu Cigano Igor”, de pior ator do mundo (no caso ele e a Bruna Marquesini poderiam concorrer na categoria dupla mista, com boas possibilidades).
Acho que chegou para Neymar o momento de decisão na vida e na carreira; ou ele resolve manter o comportamento de adolescente mimado e vai ser apenas mais uma promessa de supercraque que não vingou, ou encara uma virada firme e vira um profissional de verdade, que será um sério candidato a melhor jogador de sua geração, porque bola prá isto ele tem.
Um bom exemplo para ele pode ser o Cristiano Ronaldo. Na Copa de 2006 o então jovem e promissor português saiu com a fama de cai-cai, desleal e arrogante. CR7 aprendeu a lição e hoje já tem seu nome gravado em letras de ouro na historia do futebol, um craque e um líder digno de ser citado junto a Pelé, Maradona e mais uns poucos em qualquer lista de melhores de todos os tempos.
Espero, sinceramente, que Neymar faça a opção certa. Seria bom prá ele e para nós, torcedores brasileiros.
Quem viver, verá.
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Zico, Modric e os deuses do futebol; dois craques, duas histórias diferentes
Não sei se muita gente reparou nisto, mas nesta Copa tivemos uma história envolvendo um extraordinário camisa 10 que repetiu, com um final diferente, um episódio de 32 anos atrás.
México, 1986, quartas de final, Brasil x França. Jogo empatado, e de repente Zico enfia uma bola genial para Branco que vai marcar mas é derrubado pelo goleiro. Zico bate o pênalti... e perde. O empate sobrevive à prorrogação e o jogo vai para os pênaltis. Corajoso, como deve ser um líder de verdade, Zico não se deixa abater pelo erro cometido, se oferece para chutar e converte com perfeição. Infelizmente Sócrates e Júlio Cesar perdem suas cobranças, o Brasil é derrotado, volta prá casa e Zico carrega por muito tempo a marca (injusta) de responsável pela eliminação em sua última copa como jogador.
Rússia, 2018, oitavas de final, Croácia x Dinamarca. A prorrogação está quase em seu final quando o craque Modric descola um lançamento preciso para Rebic, que passa pelo goleiro mas é derrubado diante do gol vazio. Capitão e craque do time, Modric bota a bola embaixo do braço, vai para a marca e... bate ridiculamente mal, proporcionando uma defesa firme do goleirão Schmeichel. Decepcionados, os croatas vão para a decisão por pênaltis. Tão líder e craque quanto o Zico de 86, Modric encara o desafio e converte a sua cobrança. Só que, por capricho dos deuses do futebol, o goleiro Subasic pega três chutes dinamarqueses, a Croácia ganha, vai em frente e chega a um surpreendente vice-campeonato. De quebra, Modric é coroado (com justiça) o craque da Copa.
O que isto prova? Rigorosamente nada, apenas que o futebol é fascinante justamente por envolver elementos de imprevisibilidade que só podem ser atribuídos a deuses caprichosos e apaixonados. Zico, o castigado, era um líder acostumado a levar à vitória um time do Flamengo que até os não-flamenguistas, como é o meu caso, lembram com saudades (eu sou do tempo em que, acima da torcida pelo meu clube, estava o amor pela arte do futebol. E aquele Flamengo era fantástico). Os deuses do futebol não concederam a ele e sua grande geração, que incluía Falcão, Sócrates, Éder e o técnico Telê, entre outros, sequer a honra de uma final de Copa do Mundo. Já Modric, o escolhido da vez, está acostumado a fazer um trabalho de operário em um time onde os galácticos são Cristiano Ronaldo, Sérgio Ramos, Kroos e outros. Mas mostrou grandeza e força quando precisou liderar seus irredutíveis companheiros em uma jornada gloriosa. Talvez isto tenha agradado aos deuses.
A lição aprendida é; a liderança tem várias faces e, muitas vezes, aquele baixinho com cara de fuinha, que não cobre o corpo de tatuagens nem ostenta penteados esdrúxulos, não produz lances cinematográficos mas joga com simplicidade e eficiência, pode se mostrar o maior de todos os guerreiros, quando é necessário.
Quanto aos deuses do futebol... bem, eles têm suas próprias regras. Talvez achassem que Zico já tinha ganho muito. E que o mundo precisava conhecer melhor o talento de Modric.
México, 1986, quartas de final, Brasil x França. Jogo empatado, e de repente Zico enfia uma bola genial para Branco que vai marcar mas é derrubado pelo goleiro. Zico bate o pênalti... e perde. O empate sobrevive à prorrogação e o jogo vai para os pênaltis. Corajoso, como deve ser um líder de verdade, Zico não se deixa abater pelo erro cometido, se oferece para chutar e converte com perfeição. Infelizmente Sócrates e Júlio Cesar perdem suas cobranças, o Brasil é derrotado, volta prá casa e Zico carrega por muito tempo a marca (injusta) de responsável pela eliminação em sua última copa como jogador.
Rússia, 2018, oitavas de final, Croácia x Dinamarca. A prorrogação está quase em seu final quando o craque Modric descola um lançamento preciso para Rebic, que passa pelo goleiro mas é derrubado diante do gol vazio. Capitão e craque do time, Modric bota a bola embaixo do braço, vai para a marca e... bate ridiculamente mal, proporcionando uma defesa firme do goleirão Schmeichel. Decepcionados, os croatas vão para a decisão por pênaltis. Tão líder e craque quanto o Zico de 86, Modric encara o desafio e converte a sua cobrança. Só que, por capricho dos deuses do futebol, o goleiro Subasic pega três chutes dinamarqueses, a Croácia ganha, vai em frente e chega a um surpreendente vice-campeonato. De quebra, Modric é coroado (com justiça) o craque da Copa.
O que isto prova? Rigorosamente nada, apenas que o futebol é fascinante justamente por envolver elementos de imprevisibilidade que só podem ser atribuídos a deuses caprichosos e apaixonados. Zico, o castigado, era um líder acostumado a levar à vitória um time do Flamengo que até os não-flamenguistas, como é o meu caso, lembram com saudades (eu sou do tempo em que, acima da torcida pelo meu clube, estava o amor pela arte do futebol. E aquele Flamengo era fantástico). Os deuses do futebol não concederam a ele e sua grande geração, que incluía Falcão, Sócrates, Éder e o técnico Telê, entre outros, sequer a honra de uma final de Copa do Mundo. Já Modric, o escolhido da vez, está acostumado a fazer um trabalho de operário em um time onde os galácticos são Cristiano Ronaldo, Sérgio Ramos, Kroos e outros. Mas mostrou grandeza e força quando precisou liderar seus irredutíveis companheiros em uma jornada gloriosa. Talvez isto tenha agradado aos deuses.
A lição aprendida é; a liderança tem várias faces e, muitas vezes, aquele baixinho com cara de fuinha, que não cobre o corpo de tatuagens nem ostenta penteados esdrúxulos, não produz lances cinematográficos mas joga com simplicidade e eficiência, pode se mostrar o maior de todos os guerreiros, quando é necessário.
Quanto aos deuses do futebol... bem, eles têm suas próprias regras. Talvez achassem que Zico já tinha ganho muito. E que o mundo precisava conhecer melhor o talento de Modric.
sexta-feira, 29 de junho de 2018
Não temos mais líderes dentro do campo. E a culpa não é dos jogadores
Esta imagem, de 1958, virou um ícone para os brasileiros, dentro e fora do futebol; um país com fama de vira-lata e amarelão nas decisões chega à final da Copa contra a anfitriã Suécia – e já leva um gol com apenas quatro minutos de jogo! Antes que o pânico tomasse conta de todos o meia Didi, então o craque do time (favor lembrar que Pelé era um adolescente, ainda), pega a bola no fundo das redes e vem trazendo-a para o meio de campo, falando para os colegas; calma, nós somos muito melhores e vamos ganhar fácil. O fim da história todo mundo conhece, goleada de 5x2 e o inicio de uma trajetória de sucesso do futebol brasileiro.
Corta para 2002; na estreia na Copa, finalzinho de um jogo complicadíssimo contra a Turquia, 1x1 no placar e o arbitro nos presenteia com um pênalti que, seguramente, não resistiria ao VAR caso existisse na época. O técnico Felipão tinha dois batedores; Ronaldo Fenômeno (que já não estava mais em campo) e Ronaldinho Gaúcho. O próprio Felipão contou que olhou para o dentuço e não sentiu muita firmeza de parte dele. No meio da indecisão, Rivaldo incorporou o Didi de 58, botou a bola embaixo do braço, olhou para o técnico e disse; deixa comigo, professor. Felipão deixou e Rivaldo bateu com perfeição. Ali começava o penta.
E agora, em 2018, o que temos? Não sei se é impressão minha, mas acho que, se por um acaso o técnico Tite for abduzido por marcianos e desaparecer no meio do jogo, o time vai parar de jogar. Não vejo nada parecido com Didi, ou Gerson, ou Carlos Alberto, nem mesmo um Dunga ou um Cafu. E tenho uma teoria sobre isto.
O problema é que quase todos estes garotos têm uma história semelhante; vindos de uma origem humilde, são subitamente promovidos a ídolos e, muitas vezes ainda adolescentes, deixam o país ganhando fortunas consideráveis. Nada contra isto, é claro, mas o fato é que esta transição acaba castrando o desenvolvimento da personalidade necessário para a criação de um líder; o dinheiro vem muito rápido (por favor, nunca digam que vem fácil, eles são talentosos, esforçados e não estão roubando ninguém), e a mudança precoce para um ambiente estranho faz com que eles acabem adquirindo uma personalidade frágil e conformada. A lição é; joga a tua bola, ganha a tua grana e cala a boca. Some-se a isto o ambiente doentiamente policialesco desta praga chamada “redes sociais”, e temos um bando de jovens milionários que só são capazes de repetir os bordões “politicamente corretos” que são ditados pelos seus incontáveis assessores.
Não consigo enxergar nem mesmo um protótipo de líder dentro do nosso time. Thiago Silva talvez seja o que mais se aproxima disto, mas o descontrole emocional que demonstrou em 2014 ainda pesa muito contra ele. Neymar poderia ser este líder, só que, neste aspecto, ele me lembra muito o Ronaldinho Gaúcho; um par de pés geniais, a serviço de uma cabeça conturbada. Não resolve. O próprio “rodizio de capitães”, promovido pelo técnico Tite me parece um reflexo desta situação toda; procura-se um líder.
Enfim, torço sinceramente para que dê tudo certo e o hexa venha, mas vejo com muita preocupação o fato de que não temos um só jogador que pareça capaz de botar a bola embaixo do braço e resolver a parada, quando as coisas não estiverem indo bem.
Quem viver, verá.
Corta para 2002; na estreia na Copa, finalzinho de um jogo complicadíssimo contra a Turquia, 1x1 no placar e o arbitro nos presenteia com um pênalti que, seguramente, não resistiria ao VAR caso existisse na época. O técnico Felipão tinha dois batedores; Ronaldo Fenômeno (que já não estava mais em campo) e Ronaldinho Gaúcho. O próprio Felipão contou que olhou para o dentuço e não sentiu muita firmeza de parte dele. No meio da indecisão, Rivaldo incorporou o Didi de 58, botou a bola embaixo do braço, olhou para o técnico e disse; deixa comigo, professor. Felipão deixou e Rivaldo bateu com perfeição. Ali começava o penta.
E agora, em 2018, o que temos? Não sei se é impressão minha, mas acho que, se por um acaso o técnico Tite for abduzido por marcianos e desaparecer no meio do jogo, o time vai parar de jogar. Não vejo nada parecido com Didi, ou Gerson, ou Carlos Alberto, nem mesmo um Dunga ou um Cafu. E tenho uma teoria sobre isto.
O problema é que quase todos estes garotos têm uma história semelhante; vindos de uma origem humilde, são subitamente promovidos a ídolos e, muitas vezes ainda adolescentes, deixam o país ganhando fortunas consideráveis. Nada contra isto, é claro, mas o fato é que esta transição acaba castrando o desenvolvimento da personalidade necessário para a criação de um líder; o dinheiro vem muito rápido (por favor, nunca digam que vem fácil, eles são talentosos, esforçados e não estão roubando ninguém), e a mudança precoce para um ambiente estranho faz com que eles acabem adquirindo uma personalidade frágil e conformada. A lição é; joga a tua bola, ganha a tua grana e cala a boca. Some-se a isto o ambiente doentiamente policialesco desta praga chamada “redes sociais”, e temos um bando de jovens milionários que só são capazes de repetir os bordões “politicamente corretos” que são ditados pelos seus incontáveis assessores.
Não consigo enxergar nem mesmo um protótipo de líder dentro do nosso time. Thiago Silva talvez seja o que mais se aproxima disto, mas o descontrole emocional que demonstrou em 2014 ainda pesa muito contra ele. Neymar poderia ser este líder, só que, neste aspecto, ele me lembra muito o Ronaldinho Gaúcho; um par de pés geniais, a serviço de uma cabeça conturbada. Não resolve. O próprio “rodizio de capitães”, promovido pelo técnico Tite me parece um reflexo desta situação toda; procura-se um líder.
Enfim, torço sinceramente para que dê tudo certo e o hexa venha, mas vejo com muita preocupação o fato de que não temos um só jogador que pareça capaz de botar a bola embaixo do braço e resolver a parada, quando as coisas não estiverem indo bem.
Quem viver, verá.
terça-feira, 29 de maio de 2018
DISCORDAR É UMA COISA, AGREDIR É OUTRA. QUANDO É QUE VAMOS APRENDER?
Um episódio ocorrido em uma greve é uma das lembranças mais vivas que tenho dos meus quase quarenta anos de Petrobras. O ano era 1991, o presidente era Fernando Collor e nós, funcionários da Petrobras, carregávamos a imagem de vilões do Brasil – os alvos preferidos do então conhecido como “caçador de marajás”, se é que alguém ainda se lembra disto.
Só que a vida real era muito diferente, nosso poder aquisitivo definhava e em setembro, mês do dissidio, recebemos uma proposta indecorosa de 30% de aumento (a inflação já passava de 100% ao ano).
Entramos em uma greve difícil, impopular. E foi no final de um dia muito desgastante, numa assembleia em frente ao EDISE, no centro do Rio de Janeiro, que um carro da Rede Globo estacionou e dele desceu uma equipe de reportagem.
Na época, assim como hoje, havia entre nós pessoas que responsabilizavam a Globo por tudo de mal que existia no País (eu não concordo muito com esta tese, mas esta discussão fica para outro dia). Os ânimos já estavam exaltados e alguns colegas começaram a ensaiar uma vaia para cima deles.
Neste momento, um colega do sindicato tomou o microfone do carro de som e falou; “Pessoal, ninguém aqui gosta da Globo, mas estes caras são trabalhadores como nós. Vamos deixar eles trabalharem”. Não lembro se as palavras foram exatamente estas, mas poucas vezes na vida vi alguém ter uma atitude tão inteligente e oportuna. Ninguém mais incomodou os caras, acho até que alguns deram entrevista e tudo acabou em paz.
Hoje, quando vejo a covardia feita com alguns jornalistas, principalmente com mulheres (desculpem, mas sou do tempo do cavalheirismo explícito), não posso deixar de lembrar este episódio.
E a conclusão, triste, é que andamos muito para trás. O brasileiro simpático e cordial sumiu (na verdade, não sei se ele realmente existiu algum dia ou se isto não passa de uma crendice popular, como o Saci Pererê ou algo assim). Viramos trogloditas. Trabalhador contra trabalhador, povo contra povo. E o pedido que alguns fazem por uma intervenção militar é a “cereja” deste bolo fecal; é a confissão de fracasso de um povo, significa que não conseguimos conviver com nós mesmos, não sabemos lidar com a liberdade nem com a diversidade de opiniões, preferimos pedir que alguém tome conta da gente. A única perspectiva boa é que tenho certeza que nem os militares vão querer descascar este abacaxi.
Enfim, não sei onde isto vai parar. Mas o sentimento é de derrota. Muito pior que os 7x1.
Só que a vida real era muito diferente, nosso poder aquisitivo definhava e em setembro, mês do dissidio, recebemos uma proposta indecorosa de 30% de aumento (a inflação já passava de 100% ao ano).
Entramos em uma greve difícil, impopular. E foi no final de um dia muito desgastante, numa assembleia em frente ao EDISE, no centro do Rio de Janeiro, que um carro da Rede Globo estacionou e dele desceu uma equipe de reportagem.
Na época, assim como hoje, havia entre nós pessoas que responsabilizavam a Globo por tudo de mal que existia no País (eu não concordo muito com esta tese, mas esta discussão fica para outro dia). Os ânimos já estavam exaltados e alguns colegas começaram a ensaiar uma vaia para cima deles.
Neste momento, um colega do sindicato tomou o microfone do carro de som e falou; “Pessoal, ninguém aqui gosta da Globo, mas estes caras são trabalhadores como nós. Vamos deixar eles trabalharem”. Não lembro se as palavras foram exatamente estas, mas poucas vezes na vida vi alguém ter uma atitude tão inteligente e oportuna. Ninguém mais incomodou os caras, acho até que alguns deram entrevista e tudo acabou em paz.
Hoje, quando vejo a covardia feita com alguns jornalistas, principalmente com mulheres (desculpem, mas sou do tempo do cavalheirismo explícito), não posso deixar de lembrar este episódio.
E a conclusão, triste, é que andamos muito para trás. O brasileiro simpático e cordial sumiu (na verdade, não sei se ele realmente existiu algum dia ou se isto não passa de uma crendice popular, como o Saci Pererê ou algo assim). Viramos trogloditas. Trabalhador contra trabalhador, povo contra povo. E o pedido que alguns fazem por uma intervenção militar é a “cereja” deste bolo fecal; é a confissão de fracasso de um povo, significa que não conseguimos conviver com nós mesmos, não sabemos lidar com a liberdade nem com a diversidade de opiniões, preferimos pedir que alguém tome conta da gente. A única perspectiva boa é que tenho certeza que nem os militares vão querer descascar este abacaxi.
Enfim, não sei onde isto vai parar. Mas o sentimento é de derrota. Muito pior que os 7x1.
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