Projetos existem desde sempre, e talvez a própria criação do mundo possa ser vista como um projeto – com a vantagem que Deus, o grande Gerente, tinha o poder de fazer milagres e ajeitar tudo do jeito que Ele quisesse. Conforme é do conhecimento geral, o poder dos gerentes de projetos de hoje é muito menor, mas a gente se vira do jeito que dá.
Analisando a caminhada da civilização humana, temos projetos muito antigos que chegaram em bom estado até os dias atuais, como é o caso das Pirâmides do Egito e da Muralha da China. Obviamente, estes projetos foram gerenciados de alguma forma, com as ferramentas disponíveis na época, e acabaram funcionando. É claro que nunca vamos saber quais eram o cronograma original e a estimativa de custos destes projetos, portanto não temos como avaliar o seu sucesso sob o ponto de vista da restrição tripla, mas o fato é que o produto foi entregue, e dura até hoje.
Foi mais ou menos a partir da metade do século XX que os projetos começaram a ganhar uma complexidade maior. As principais forças responsáveis por esta mudança foram o aumento da competitividade, a necessidade de envolver múltiplas disciplinas e os avanços tecnológicos. Muitos autores consideram que o grande marco desta transição foi a corrida espacial; afinal, colocar um homem na Lua era uma tarefa que envolvia desde matemáticos e físicos até nutricionistas e psicólogos, e tudo precisava ser feito num prazo exíguo, visando superar o “outro lado” (na época, as forças envolvidas eram Estados Unidos e União Soviética, representando cada um uma série de simbolismos, tais como capitalismo x comunismo, religiosidade x ateísmo oficial, enfim, vários conflitos que eram importantes na época mas hoje, em alguns casos, já se mostram superados). Em paralelo com o desenvolvimento tecnológico, ferramentas de gestão foram criadas e usadas em um cenário que, seguramente, não tinha paralelo com nenhum momento histórico anterior.
Este aumento exponencial na complexidade dos projetos levantou o questionamento sobre a qualificação específica dos gerentes de projetos – função que sempre existiu, mas era exercida de forma mais ou menos amadorística. É neste contexto que surgem duas organizações com a proposta de discutir gerenciamento de projetos de uma forma profissional; O IPMA, na Europa, em 1964 e o PMI, nos Estados Unidos, em 1969. A visão do gerente de projetos como um profissional diferenciado, com um corpo de conhecimentos próprio (consolidado pelo próprio PMI, alguns anos depois, no PMBoK, Project Management Body of Knowledge), constituiu um marco histórico. E gerou o que eu chamo de “primeira onda”, caracterizada pelo reconhecimento da importância da figura do gerente de projetos, busca de capacitação e certificações, e a certeza de que um gerente qualificado e certificado era a garantia para o sucesso de um projeto.
Em paralelo à capacitação do gerente, o desenvolvimento da informática trouxe um ferramental jamais imaginado; agora era possível construir cronogramas e orçamentos automaticamente, estimar caminhos críticos e sub-críticos, tudo a um simples toque dos dedos.
O resultado de tudo isto é que, durante algum tempo, vivemos a ilusão de que um PMP comandando um MSProject era tudo o que precisávamos para um projeto funcionar e produzir seus resultados a contento.
O problema é que, como diz aquele famoso vídeo humorístico, “a vida é uma caixinha de surpresas”, e logo os resultados começaram a provar que esta ideia era falsa. Era preciso mais que isto para que os projetos funcionassem. E isto nos levou à segunda onda.
Considero que a segunda onda se caracterizou por uma visão mais complexa da gestão de projetos, mas ainda focada em ferramentas. Neste momento, tivemos, entre outras coisas, o desenvolvimento de modelos diferentes dos adotados pelo PMI, outras certificações, a utilização de modelos de maturidade, além de conceitos como PMO, métodos ágeis, Canvas e outros. Esta onda começou no final dos anos 90 e está por aí até agora. É importante notar que ela de forma alguma cancelou a anterior; o PMBOK e a certificação PMP continuam como referências importantes, mas ficou claro que era necessário ir mais fundo na questão. Os resultados melhoraram, e esta onda ainda está em aperfeiçoamento, de modo que muitas pesquisas ainda vão ser concluídas e, seguramente, ainda há um longo caminho a percorrer no aperfeiçoamento destas técnicas e modelos..
Só que o mundo hoje evolui na velocidade da internet, e nem bem esta segunda onda atingiu o seu pico, já vemos surgir uma terceira onda, que, na minha visão, vai ser a mais revolucionária e decisiva de todas.
A base desta terceira onda é entender que projetos são atividades humanas, e não há como melhorar resultados sem colocar o ser humano no centro da ação. Esta nova onda não tem ferramentas computacionais (pelo menos até agora), mas baseia-se em estudos, experiência e visão sobre três assuntos que me parecem os mais importantes, hoje; Gestão de Mudanças, Gestão de Talentos e Gestão do Conhecimento. Como pano de fundo, ficam os aspectos culturais, que sempre influenciam o comportamento humano, para o bem e para o mal. Resumindo tudo em um só conceito, Gerenciamento de Pessoas.
Motivação, Comunicação, Cultura, Conflitos, Liderança, Riscos, enfim, muitas palavras que durante muito tempo foram associadas ao gerenciamento de projetos mas não chegavam a ser levadas a sério (talvez pela complexidade que envolvem e por não se submeterem a regras definidas), são cada vez mais reconhecidas como sendo os aspectos realmente decisivos para que projetos atinjam as suas metas. Colocar estas questões de forma simples e objetiva, demonstrando a todos os stakeholders envolvidos a sua importância, deve ser o grande diferencial do futuro. É fácil? Claro que não. Mas é um campo de estudos que se abre e para o qual teremos que prestar cada vez mais atenção.
Pretendo abordar o assunto com mais detalhe em um próximo artigo, uma vez que este já ficou muito grande. Mas tenho certeza que este será o foco do futuro do gerenciamento de projetos.
Quem viver, verá.
quinta-feira, 4 de maio de 2017
quinta-feira, 2 de março de 2017
O candidato Trump tinha um discurso “de raiz”. O Presidente Trump está começando a adotar um tom mais “Nutella”. Qual deles está certo? Os dois
A brincadeira comparando pessoas “de raiz” com pessoas “Nutella” viralizou nas primeiras semanas de 2017. Desde engenheiros até policiais, passando por mães e cachorros, todo mundo curtiu as versões “de raiz” (radicais e grosseiras) com as versões “Nutella” (politicamente corretas). Normalmente, a versão “de raiz” tinha a simpatia das pessoas o que mostra, mais uma vez, o quanto a sociedade, de um modo geral, está de saco cheio desta neurose “politicamente correta”.
Como sempre acontece com as boas piadas, esta brincadeira tinha um fundo de verdade. Até mesmo pessoas de bom senso não aguentam mais debates exagerados sobre o que é “apropriação cultural” e outras coisas cada vez mais desprovidas de sentido. Na vida real, o voto em Donald Trump, na minha visão, representou isto; a preferência de boa parte da população por um sujeito grosseiro, mas sincero nos seus pontos de vista, em relação a uma candidata-clichê (mulher, defensora de todas as minorias, etc...). Trump ganhou, e, para os que vivem na bolha politicamente correta, sua eleição representou o triunfo da boçalidade sobre a civilização. Menos, pessoal, muito menos. Tenho certeza que muitos dos que votaram em Trump são, efetivamente, racistas, homofóbicos ou machistas, e alguns isto tudo junto, mas uma boa parcela dos votos que ele recebeu foi de gente comum, sem grandes ódios no coração, que apenas se identificou mais facilmente com um candidato “de raiz” do que uma candidata totalmente “Nutella”.
O problema é que treino é treino e jogo é jogo, já dizia o grande craque botafoguense Waldir Pereira, o Didi, um dos maiores jogadores de futebol da história. O discurso de Trump foi forte o suficiente para leva-lo à Casa Branca, mas o dia a dia do poder exigia uma atitude mais moderada. Arrogante e acostumado a mandar e ser obedecido, Trump achou que podia usar na Casa Branca o mesmo estilo do empresário e do candidato. E, depois de um mês de atitudes catastróficas, acabou aprendendo pelo método mais duro; levando porrada.
O resultado é que ontem, na sua mensagem ao congresso, Trump se mostrou muito mais cordeiro do que lobo. Não é novidade; numa democracia, não é possível liderar sem estar disposto a ceder alguma coisa. Também é assim nas boas empresas e nos bons projetos; os melhores gerentes e executivos são aqueles que, mesmo tendo ideias próprias, estão sempre dispostos a ouvir equipes e clientes e buscar soluções de conjunto. É claro que não se pode ser “bonzinho” o tempo todo; mas não se lida com uma organização social (seja um país, uma empresa ou uma equipe de projeto) enfiando goela abaixo dos outros as suas verdades. Usando a frase antológica de Ernesto Che Guevara, “endurecerse, pero sin perder la ternura”.
É fácil fazer isto? Claro que não. Mas é a única saída, numa democracia. E, até prova em contrário, a democracia é a única forma de governo que leva ao progresso de forma duradoura. Trump dá a impressão que começou a entender isto, e ainda tem muito tempo para tentar transformar o que parecia ser a presidência mais atrapalhada da história americana em um governo pelo menos razoável (sinceramente, não acredito que ele tenha competência para uma nota maior que 6, mas... tudo pode acontecer). Espero, sinceramente, que ele entenda o quanto a sua capacidade de dialogar será importante para a paz e a prosperidade do mundo nos próximos quatro anos.
Quem viver, verá.
Como sempre acontece com as boas piadas, esta brincadeira tinha um fundo de verdade. Até mesmo pessoas de bom senso não aguentam mais debates exagerados sobre o que é “apropriação cultural” e outras coisas cada vez mais desprovidas de sentido. Na vida real, o voto em Donald Trump, na minha visão, representou isto; a preferência de boa parte da população por um sujeito grosseiro, mas sincero nos seus pontos de vista, em relação a uma candidata-clichê (mulher, defensora de todas as minorias, etc...). Trump ganhou, e, para os que vivem na bolha politicamente correta, sua eleição representou o triunfo da boçalidade sobre a civilização. Menos, pessoal, muito menos. Tenho certeza que muitos dos que votaram em Trump são, efetivamente, racistas, homofóbicos ou machistas, e alguns isto tudo junto, mas uma boa parcela dos votos que ele recebeu foi de gente comum, sem grandes ódios no coração, que apenas se identificou mais facilmente com um candidato “de raiz” do que uma candidata totalmente “Nutella”.
O problema é que treino é treino e jogo é jogo, já dizia o grande craque botafoguense Waldir Pereira, o Didi, um dos maiores jogadores de futebol da história. O discurso de Trump foi forte o suficiente para leva-lo à Casa Branca, mas o dia a dia do poder exigia uma atitude mais moderada. Arrogante e acostumado a mandar e ser obedecido, Trump achou que podia usar na Casa Branca o mesmo estilo do empresário e do candidato. E, depois de um mês de atitudes catastróficas, acabou aprendendo pelo método mais duro; levando porrada.
O resultado é que ontem, na sua mensagem ao congresso, Trump se mostrou muito mais cordeiro do que lobo. Não é novidade; numa democracia, não é possível liderar sem estar disposto a ceder alguma coisa. Também é assim nas boas empresas e nos bons projetos; os melhores gerentes e executivos são aqueles que, mesmo tendo ideias próprias, estão sempre dispostos a ouvir equipes e clientes e buscar soluções de conjunto. É claro que não se pode ser “bonzinho” o tempo todo; mas não se lida com uma organização social (seja um país, uma empresa ou uma equipe de projeto) enfiando goela abaixo dos outros as suas verdades. Usando a frase antológica de Ernesto Che Guevara, “endurecerse, pero sin perder la ternura”.
É fácil fazer isto? Claro que não. Mas é a única saída, numa democracia. E, até prova em contrário, a democracia é a única forma de governo que leva ao progresso de forma duradoura. Trump dá a impressão que começou a entender isto, e ainda tem muito tempo para tentar transformar o que parecia ser a presidência mais atrapalhada da história americana em um governo pelo menos razoável (sinceramente, não acredito que ele tenha competência para uma nota maior que 6, mas... tudo pode acontecer). Espero, sinceramente, que ele entenda o quanto a sua capacidade de dialogar será importante para a paz e a prosperidade do mundo nos próximos quatro anos.
Quem viver, verá.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Quatro tipos que atrapalham a internet – e a espécie humana, de um modo geral
Faço parte de uma geração que cresceu discutindo política e ideologia. Impedidos pela ditadura de nos manifestar publicamente, discutíamos política na mesa do bar, na casa dos amigos, no colégio e na faculdade, enfim, todo lugar (sempre tomando o cuidado de verificar quem estava ouvindo, é claro). Nesta época aprendi duas coisas que foram importantes para a minha vida toda; respeitar as convicções alheias (tinha amigos reacionários, comunas, alienados, e todo mundo se dava bem) e procurar embasar sempre minhas opiniões com fatos e dados.
Hoje, livres da ditadura e com as infinitas probabilidades que a internet ofereceu, achei que viveríamos a era dourada do debate como fator de criação de entendimento e progresso. Só que, infelizmente, o nível da discussão caiu a tal ponto que cada vez mais tendo a concordar com a frase de Umberto Eco que diz que “a internet deu voz aos imbecis”. Não sei se eles são mesmo a maioria ou se apenas gritam mais alto, mas o fato é que cada vez tenho menos disposição para participar de discussões nas chamadas “redes (anti) sociais”.
Como não posso mudar o mundo, resolvi me divertir um pouco. E, só de brincadeira, imaginei que os culpados por esta situação seriam mosquitos (provavelmente parentes do Aedes Aegipt) que estariam contaminando as pessoas com o vírus da intolerância e da irracionalidade. Procurando sacanear igualmente todo o espectro político e cultural, caracterizei quatro tipos patológicos que circulam pela internet e impedem o debate civilizado. Peço antecipadamente desculpas para os que se sentirem atingidos, eu mesmo me identifiquei com alguns dos sintomas, mas a ideia é apenas tentar abordar a questão de um modo leve e engraçado. Só espero que nenhum fanático se irrite a ponto de querer fazer comigo o que fizeram com os humoristas franceses... bom, afinal eu não sou tão importante assim. Eis os quatro tipos;
1) O que acha que o problema da violência só se resolve com muita porrada;
Mosquito transmissor - Bolsonarum Trumpiaris
Sintomas da doença;
• Acha que se todos os cidadãos de bem andarem armados os bandidos serão mortos e os assaltos acabam;
• Homossexualismo é doença e se cura com porrada;
• Todo o cara que se preocupa com ecologia é boiola;
• Sente saudades do regime militar;
• Acha que o governo devia estimular as chacinas nos presídios porque não se perde nada.
2) O escravo neurótico do “Politicamente correto”
Mosquito transmissor; Minoritarium Rancorosus;
Sintomas da Doença;
• Acha que todo o cara que votou no Trump é machista, racista e homofóbico (não necessariamente nesta ordem);
• Torcedor de futebol que chama o goleiro adversário de “bicha” deveria pegar prisão perpétua;
• Exige sistema de cotas para toda e qualquer coisa (desde o ministério do Temer até a escolha dos atores do Oscar);
• Acha que todos os assaltantes e traficantes deveriam ser soltos, porque são apenas vítimas de uma sociedade preconceituosa e injusta, e a cadeia deveria ser apenas para racistas, homofóbicos e machistas (que, segundo os critérios dele, são cerca de 90% da humanidade);
• Quer proibir a circulação da obra infantil de Monteiro Lobato porque acha que a Tia Anastácia é um exemplo de negra escravizada.
3) O Petista obsessivo
Mosquito transmissor; Luladilmum Sapiens
Sintomas da doença;
• Independente de qual assunto esteja sendo discutido – pode ser futebol, culinária chinesa ou a vida sexual do urso panda – dá um jeito de encaixar a frase “Fora Temer!” e a expressão “mídia golpista” no meio;
• A Rede Globo é responsável por tudo de ruim que acontece no Brasil;
• A Lava Jato foi planejada por multinacionais com o objetivo de entregar o pré-sal para os americanos;
• Tudo de errado que aconteceu na Petrobras é culpa do governo FHC;
• Os filhos do Lula ficaram bilionários porque são talentosos.
4) O Coxinha obsessivo
Mosquito transmissor; Direitistum irrationalis
Sintomas da doença;
• Independente de qual assunto esteja sendo discutido – pode ser futebol, culinária chinesa ou a vida sexual do urso panda – dá sempre um jeito de dizer que a culpa é do PT;
• Antes do governo Lula não existia corrupção no Brasil;
• Jura que o Fidel Castro tinha uma fortuna no exterior;
• Acha que o Chico Buarque é um compositor de merda que ficou rico desviando dinheiro da Lei Roaunet;
• Não lê as crônicas do Veríssimo porque ele é “de esquerda”;
• Acha que todo o sujeito que quer votar no Lula é nordestino, analfabeto e vive de bolsa família.
Pessoal; é só uma brincadeira. Mas podemos pensar um pouco a respeito. Afinal, já dizia o inesquecível Millor Fernandes, “o objetivo do humor é fazer cócegas na inteligência alheia”.
Quem sabe conseguimos debater com um pouquinho menos de intolerância daqui para frente?
Abraço e até a próxima.
Hoje, livres da ditadura e com as infinitas probabilidades que a internet ofereceu, achei que viveríamos a era dourada do debate como fator de criação de entendimento e progresso. Só que, infelizmente, o nível da discussão caiu a tal ponto que cada vez mais tendo a concordar com a frase de Umberto Eco que diz que “a internet deu voz aos imbecis”. Não sei se eles são mesmo a maioria ou se apenas gritam mais alto, mas o fato é que cada vez tenho menos disposição para participar de discussões nas chamadas “redes (anti) sociais”.
Como não posso mudar o mundo, resolvi me divertir um pouco. E, só de brincadeira, imaginei que os culpados por esta situação seriam mosquitos (provavelmente parentes do Aedes Aegipt) que estariam contaminando as pessoas com o vírus da intolerância e da irracionalidade. Procurando sacanear igualmente todo o espectro político e cultural, caracterizei quatro tipos patológicos que circulam pela internet e impedem o debate civilizado. Peço antecipadamente desculpas para os que se sentirem atingidos, eu mesmo me identifiquei com alguns dos sintomas, mas a ideia é apenas tentar abordar a questão de um modo leve e engraçado. Só espero que nenhum fanático se irrite a ponto de querer fazer comigo o que fizeram com os humoristas franceses... bom, afinal eu não sou tão importante assim. Eis os quatro tipos;
1) O que acha que o problema da violência só se resolve com muita porrada;
Mosquito transmissor - Bolsonarum Trumpiaris
Sintomas da doença;
• Acha que se todos os cidadãos de bem andarem armados os bandidos serão mortos e os assaltos acabam;
• Homossexualismo é doença e se cura com porrada;
• Todo o cara que se preocupa com ecologia é boiola;
• Sente saudades do regime militar;
• Acha que o governo devia estimular as chacinas nos presídios porque não se perde nada.
2) O escravo neurótico do “Politicamente correto”
Mosquito transmissor; Minoritarium Rancorosus;
Sintomas da Doença;
• Acha que todo o cara que votou no Trump é machista, racista e homofóbico (não necessariamente nesta ordem);
• Torcedor de futebol que chama o goleiro adversário de “bicha” deveria pegar prisão perpétua;
• Exige sistema de cotas para toda e qualquer coisa (desde o ministério do Temer até a escolha dos atores do Oscar);
• Acha que todos os assaltantes e traficantes deveriam ser soltos, porque são apenas vítimas de uma sociedade preconceituosa e injusta, e a cadeia deveria ser apenas para racistas, homofóbicos e machistas (que, segundo os critérios dele, são cerca de 90% da humanidade);
• Quer proibir a circulação da obra infantil de Monteiro Lobato porque acha que a Tia Anastácia é um exemplo de negra escravizada.
3) O Petista obsessivo
Mosquito transmissor; Luladilmum Sapiens
Sintomas da doença;
• Independente de qual assunto esteja sendo discutido – pode ser futebol, culinária chinesa ou a vida sexual do urso panda – dá um jeito de encaixar a frase “Fora Temer!” e a expressão “mídia golpista” no meio;
• A Rede Globo é responsável por tudo de ruim que acontece no Brasil;
• A Lava Jato foi planejada por multinacionais com o objetivo de entregar o pré-sal para os americanos;
• Tudo de errado que aconteceu na Petrobras é culpa do governo FHC;
• Os filhos do Lula ficaram bilionários porque são talentosos.
4) O Coxinha obsessivo
Mosquito transmissor; Direitistum irrationalis
Sintomas da doença;
• Independente de qual assunto esteja sendo discutido – pode ser futebol, culinária chinesa ou a vida sexual do urso panda – dá sempre um jeito de dizer que a culpa é do PT;
• Antes do governo Lula não existia corrupção no Brasil;
• Jura que o Fidel Castro tinha uma fortuna no exterior;
• Acha que o Chico Buarque é um compositor de merda que ficou rico desviando dinheiro da Lei Roaunet;
• Não lê as crônicas do Veríssimo porque ele é “de esquerda”;
• Acha que todo o sujeito que quer votar no Lula é nordestino, analfabeto e vive de bolsa família.
Pessoal; é só uma brincadeira. Mas podemos pensar um pouco a respeito. Afinal, já dizia o inesquecível Millor Fernandes, “o objetivo do humor é fazer cócegas na inteligência alheia”.
Quem sabe conseguimos debater com um pouquinho menos de intolerância daqui para frente?
Abraço e até a próxima.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
O FUTEBOL NÃO FOI DEVIDAMENTE PREPARADO PARA A NOVA TECNOLOGIA. E DEU NO QUE DEU...
Cercado de grande publicidade estreou, no Campeonato Mundial de Clubes da FIFA, o chamado “árbitro de vídeo”, já utilizado normalmente em diversos esportes.
Depois de passar em branco nas primeiras partidas, hoje o tal árbitro de vídeo tomou sua primeira decisão. E com um equívoco catastrófico; chamou a atenção do juiz para um suposto pênalti (que não havia sido reclamado por ninguém) que, confirmado, acabou resultando no primeiro gol dos japoneses do Kashima, um lance que os ajudou muito a construir a sua vitória.
Uma análise mais precisa mostrou que o jogador que sofreu o pênalti estava em condição ilegal (impedimento) o que, na opinião da maioria dos comentaristas, invalidaria a jogada antes da falta ser cometida. Resumindo; o tal de árbitro de vídeo, idealizado como solução para todos os problemas, acabou virando fonte de discórdia, ao transformar uma jogada que passou despercebida em um lance capital para o resultado do jogo.
Mais do que a choradeira pela derrota do Atlético Nacional de Medellin que, em função dos acontecimentos recentes, tornou-se o terceiro time do coração de todos os brasileiros (o segundo, claro, é a Chapecoense), o fato é que a lambança acabou dando fortes argumentos para os inimigos da tecnologia, aqueles que querem que o futebol continue com suas regras antediluvianas para todo o sempre.
Nestas horas um pouco de embasamento teórico é bom. Lá pelos anos 1990, uma palavra se tornou obrigatória no jargão empresarial; reengenharia. O conceito, criado por Michael Hammer, indicava mais ou menos o seguinte; em função dos avanços tecnológicos, era preciso pensar não apenas em colocar computadores substituindo ou auxiliando seres humanos, mas sim em mudar o processo como um todo. Uma de suas melhores frases era; “Não automatize, destrua!”. Dando um exemplo prático; até os anos 1970, o ato de sacar dinheiro em um banco envolvia uma agência bancária (física) e funcionários para receber o cheque, conferir o saldo e entregar o dinheiro para o cliente, numa operação demorada que só podia ser feita durante o expediente bancário. A tecnologia “reengenheirou” este processo; hoje, basta uma máquina, uma conexão de internet e um cartão para que o cliente possa sacar dinheiro a qualquer hora e em qualquer lugar, sem a menor dificuldade.
Hammer foi criticado por muita coisa que não disse e nem fez (afinal todo o revolucionário sofre este tipo de ataque), mas nada disto invalida a sua teoria. Levando esta situação para o futebol, entendo que a tecnologia tem que ser introduzida, mas junto com mudanças no processo, e isto, aparentemente, não foi feito.
Deixo aqui duas sugestões simples para implementar a mudança;
1) Assim como ocorre no vôlei e no tênis, entendo que o árbitro de vídeo só deve ser consultado quando houver um “desafio”. Ou seja; no caso do pênalti de hoje, seria necessário que, imediatamente após a falta, os japoneses solicitassem a interrupção do jogo, para análise de vídeo. Para evitar que isto se transforme numa estratégia para segurar o jogo, deve-se seguir a mesma regra do vôlei e do tênis; o time só poderá perder três desafios ao longo da partida (ou seja, só pede o desafio quando tiver certeza que foi prejudicado);
2) Detalhe importante; como este tipo de coisa vai gerar interrupções, acho que seria a hora de introduzir uma “reengenharia” que o futebol está pedindo há muito tempo; a cronometragem fora de campo. Chega a ser ridículo que o juiz, com seu cronômetro de pulso, controle o tempo de partida e acrescente o que quiser. Isto valia no tempo em que um cronômetro era artigo raro, e nem se sonhava com placares eletrônicos. Hoje, qualquer um pode ser o “operador do cronômetro”, paralisando-o nos desafios, assim como nas substituições, atendimentos médicos, comemorações de gols, etc... Isto acabaria com boa parte dos problemas que temos hoje (cera, simulação de contusões, atrasos na reposição da bola, etc...). O tempo de jogo poderia ser reduzido para dois tempos de 35 minutos, por exemplo. Tenho certeza que o espetáculo melhoraria muito, e os problemas disciplinares diminuíram bastante.
Enfim, são propostas de um engenheiro absolutamente fanático por futebol e que convive com mudanças tecnológicas todos os dias. E que entende que, assim como nas empresas, a tecnologia no futebol deve ser implantada (é inevitável), mas tomando todos os cuidados necessários para que a mudança seja sempre positiva.
Até a próxima.
Depois de passar em branco nas primeiras partidas, hoje o tal árbitro de vídeo tomou sua primeira decisão. E com um equívoco catastrófico; chamou a atenção do juiz para um suposto pênalti (que não havia sido reclamado por ninguém) que, confirmado, acabou resultando no primeiro gol dos japoneses do Kashima, um lance que os ajudou muito a construir a sua vitória.
Uma análise mais precisa mostrou que o jogador que sofreu o pênalti estava em condição ilegal (impedimento) o que, na opinião da maioria dos comentaristas, invalidaria a jogada antes da falta ser cometida. Resumindo; o tal de árbitro de vídeo, idealizado como solução para todos os problemas, acabou virando fonte de discórdia, ao transformar uma jogada que passou despercebida em um lance capital para o resultado do jogo.
Mais do que a choradeira pela derrota do Atlético Nacional de Medellin que, em função dos acontecimentos recentes, tornou-se o terceiro time do coração de todos os brasileiros (o segundo, claro, é a Chapecoense), o fato é que a lambança acabou dando fortes argumentos para os inimigos da tecnologia, aqueles que querem que o futebol continue com suas regras antediluvianas para todo o sempre.
Nestas horas um pouco de embasamento teórico é bom. Lá pelos anos 1990, uma palavra se tornou obrigatória no jargão empresarial; reengenharia. O conceito, criado por Michael Hammer, indicava mais ou menos o seguinte; em função dos avanços tecnológicos, era preciso pensar não apenas em colocar computadores substituindo ou auxiliando seres humanos, mas sim em mudar o processo como um todo. Uma de suas melhores frases era; “Não automatize, destrua!”. Dando um exemplo prático; até os anos 1970, o ato de sacar dinheiro em um banco envolvia uma agência bancária (física) e funcionários para receber o cheque, conferir o saldo e entregar o dinheiro para o cliente, numa operação demorada que só podia ser feita durante o expediente bancário. A tecnologia “reengenheirou” este processo; hoje, basta uma máquina, uma conexão de internet e um cartão para que o cliente possa sacar dinheiro a qualquer hora e em qualquer lugar, sem a menor dificuldade.
Hammer foi criticado por muita coisa que não disse e nem fez (afinal todo o revolucionário sofre este tipo de ataque), mas nada disto invalida a sua teoria. Levando esta situação para o futebol, entendo que a tecnologia tem que ser introduzida, mas junto com mudanças no processo, e isto, aparentemente, não foi feito.
Deixo aqui duas sugestões simples para implementar a mudança;
1) Assim como ocorre no vôlei e no tênis, entendo que o árbitro de vídeo só deve ser consultado quando houver um “desafio”. Ou seja; no caso do pênalti de hoje, seria necessário que, imediatamente após a falta, os japoneses solicitassem a interrupção do jogo, para análise de vídeo. Para evitar que isto se transforme numa estratégia para segurar o jogo, deve-se seguir a mesma regra do vôlei e do tênis; o time só poderá perder três desafios ao longo da partida (ou seja, só pede o desafio quando tiver certeza que foi prejudicado);
2) Detalhe importante; como este tipo de coisa vai gerar interrupções, acho que seria a hora de introduzir uma “reengenharia” que o futebol está pedindo há muito tempo; a cronometragem fora de campo. Chega a ser ridículo que o juiz, com seu cronômetro de pulso, controle o tempo de partida e acrescente o que quiser. Isto valia no tempo em que um cronômetro era artigo raro, e nem se sonhava com placares eletrônicos. Hoje, qualquer um pode ser o “operador do cronômetro”, paralisando-o nos desafios, assim como nas substituições, atendimentos médicos, comemorações de gols, etc... Isto acabaria com boa parte dos problemas que temos hoje (cera, simulação de contusões, atrasos na reposição da bola, etc...). O tempo de jogo poderia ser reduzido para dois tempos de 35 minutos, por exemplo. Tenho certeza que o espetáculo melhoraria muito, e os problemas disciplinares diminuíram bastante.
Enfim, são propostas de um engenheiro absolutamente fanático por futebol e que convive com mudanças tecnológicas todos os dias. E que entende que, assim como nas empresas, a tecnologia no futebol deve ser implantada (é inevitável), mas tomando todos os cuidados necessários para que a mudança seja sempre positiva.
Até a próxima.
sábado, 26 de novembro de 2016
No meu tempo, isto se chamava "dois pesos e duas medidas"
Da série “coerência é bom e eu gosto”;
Dois “causos” que me mostram que está cada vez mais difícil entender algumas coisas neste estranho mundo de hoje.
Causo 1;
A torcida brasileira resolveu imitar outras e gritar em coro “bicha!” para o goleiro adversário na hora do tiro de meta. Brincadeira de mau gosto, certo, mas duvido que algum goleiro do mundo se ofenda mortalmente com isto. A FIFA considera este ato “intolerável”, aplica uma multa de milhares de dólares e ainda ameaça com outras punições em caso de reincidência.
Por outro lado, a torcida do Corinthians, no jogo contra o Internacional, cantou uma música estúpida, que comemora a morte do jogador Fernandão, ídolo do Colorado (aliás, a do Grêmio já tinha feito isto, num grenal). Nenhuma punição foi cogitada – afinal, é coisa de “torcedor”. Prá mim, na escala de boçalidade, seria dez vezes pior, no mínimo.
Causo 2;
A filhinha sem noção do treinador do Grêmio entra no campo da Arena, a convite do papai, depois do encerramento de um jogo, e tira um monte de “selfies”, deslumbrada. O Grêmio é punido com a perda de um mando de campo, multa e mais não sei o que.
Por outro lado, hoje, torcedores do Náutico, irritados com a derrota do time para o Oeste, invadiram o campo com o jogo em andamento, agrediram jogadores e... o árbitro aguardou, pacientemente, que eles terminassem o serviço e mandou o jogo prosseguir! Ou seja; se o Náutico tivesse um mínimo de competência (felizmente não teve) podia mudar o resultado do jogo. Quero ver o que o tribunal vai decidir, agora. Talvez considerem que a ira dos torcedores era justa e, já que ninguém foi morto, fica tudo por isto mesmo. Mas se a Carol Portaluppi voltar a invadir um gramado vai provavelmente ser presa e banida das arquibancadas para sempre, e o Grêmio vai perder uns 200 mandos de campo.
Sei lá, acho que estou ficando velho...
Dois “causos” que me mostram que está cada vez mais difícil entender algumas coisas neste estranho mundo de hoje.
Causo 1;
A torcida brasileira resolveu imitar outras e gritar em coro “bicha!” para o goleiro adversário na hora do tiro de meta. Brincadeira de mau gosto, certo, mas duvido que algum goleiro do mundo se ofenda mortalmente com isto. A FIFA considera este ato “intolerável”, aplica uma multa de milhares de dólares e ainda ameaça com outras punições em caso de reincidência.
Por outro lado, a torcida do Corinthians, no jogo contra o Internacional, cantou uma música estúpida, que comemora a morte do jogador Fernandão, ídolo do Colorado (aliás, a do Grêmio já tinha feito isto, num grenal). Nenhuma punição foi cogitada – afinal, é coisa de “torcedor”. Prá mim, na escala de boçalidade, seria dez vezes pior, no mínimo.
Causo 2;
A filhinha sem noção do treinador do Grêmio entra no campo da Arena, a convite do papai, depois do encerramento de um jogo, e tira um monte de “selfies”, deslumbrada. O Grêmio é punido com a perda de um mando de campo, multa e mais não sei o que.
Por outro lado, hoje, torcedores do Náutico, irritados com a derrota do time para o Oeste, invadiram o campo com o jogo em andamento, agrediram jogadores e... o árbitro aguardou, pacientemente, que eles terminassem o serviço e mandou o jogo prosseguir! Ou seja; se o Náutico tivesse um mínimo de competência (felizmente não teve) podia mudar o resultado do jogo. Quero ver o que o tribunal vai decidir, agora. Talvez considerem que a ira dos torcedores era justa e, já que ninguém foi morto, fica tudo por isto mesmo. Mas se a Carol Portaluppi voltar a invadir um gramado vai provavelmente ser presa e banida das arquibancadas para sempre, e o Grêmio vai perder uns 200 mandos de campo.
Sei lá, acho que estou ficando velho...
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Na eleição dos horrores, Crivella errou menos e ganhou
O quadro da eleição carioca estava bem definido desde cedo; Crivella iria para o segundo turno, apoiado pelos seus fieis seguidores evangélicos (que, somados aos admiradores que a família Garotinho ainda consegue atrair, chegavam a uns 30% do eleitorado), mas seria derrotado por qualquer um, uma vez que teria dificuldades de formar alianças. Do outro lado do ringue Eduardo Paes, embalado pelo sucesso da Olimpíada e das obras relacionadas a ela, tinha a faca, o queijo e o vinho na mão. Contra ele apenas a sua conhecida incontinência verbal aguda e irreversível, mas a situação era tão absurdamente confortável que nem isto parecia capaz de derrota-lo.
Neste cenário de mar de almirante, era preciso não um erro, mas uma sucessão deles para que as coisas desandassem. E o pior aconteceu. Fazendo um histórico rápido, temos;
a) Eduardo Paes conseguiria eleger um cone, mas não um Luís Paulo. Entre outras coisas, porque cone não bate em mulher (pode ser até utilizado como arma, mas não me parece muito eficiente). Para completar a dupla dinâmica, escolheu como vice a Sra. Cidinha Campos, outrora uma entrevistadora de sucesso, hoje uma senhora descontrolada, cujo desempenho de chefe de claque no debate do primeiro turno ajudou a derrubar mais ainda o pobre candidato do prefeito. Qualquer um seria melhor que Luís Paulo, mas Paes achou que era o senhor do universo. E jogou ao vento a vaga e a vitória no segundo turno, que pareciam certas.
b) Ungido pelos deuses com esta segunda vaga, Marcelo Freixo preferiu ser PSOL do que ser razoável. Resolveu combater o fundamentalismo religioso de Crivella com outro fundamentalismo, o bolivariano, que o Brasil inteiro já expeliu como se fosse um cálculo renal. Repetiu mantras totalmente fora de contexto como “Fora Temer”, “Imprensa golpista”, enfim, só faltou gritar “Não vai ter Copa!” ou alguma sandice equivalente. Além disto, dedicou quase todo o seu tempo a tentar denegrir seu adversário, enfim, bebeu da fonte de ódio e suposta perseguição que alimentou o PT durante algum tempo, mas não funciona mais (sem esquecer que Lula tem muito mais talento para posar de vítima do que ele). Estratégia totalmente errada, que afastou todas as alianças possíveis.
c) Sentindo a inesperada chance de vitória se concretizando, Crivella agiu com sabedoria; colocou-se muito mais como “engenheiro” do que como “bispo”, deu ênfase ao seu lado “técnico e administrador”, escondeu até onde foi possível os aliados inconvenientes (Garotinho, o tio Edir Macedo e outros), chegando ao exagero de chamar os umbandistas de “irmãos” (só não apareceu consultando uma mãe-de-santo porque não foi necessário, afinal o eleitorado espírita não é tão grande assim). Jogou o jogo certo e conseguiu um resultado surpreendente, com quase 60% dos votos válidos.
d) Antes de terminar, uma palavra sobre a mídia; foi quase comovente o esforço que o pessoal da Globo e da Veja fez para tentar derrubar o Crivella (leia-se; rede Record). Valeu tudo; declarações antigas, fotos comprometedoras, frases fora do contexto, enfim, todo o arsenal disponível foi utilizado. E o resultado? Zero. O que deixou claro uma teoria que sustento há muito tempo; este poder quase sobrenatural que alguns atribuem a tal “imprensa golpista” não passa de ilusão. Lula e Dilma não foram derrubados pela imprensa, eles se enrolaram sozinhos. Crivella, aparentemente, era um alvo muito mais fácil, e saiu ileso.
No fim das contas, ficamos com o menor dos dois males. E com a certeza que Crivella terá de governar pisando em ovos de codorna, tal a pressão que vai ter em cima dele.
Que Deus tenha piedade desta cidade olímpica e maravilhosa!
Neste cenário de mar de almirante, era preciso não um erro, mas uma sucessão deles para que as coisas desandassem. E o pior aconteceu. Fazendo um histórico rápido, temos;
a) Eduardo Paes conseguiria eleger um cone, mas não um Luís Paulo. Entre outras coisas, porque cone não bate em mulher (pode ser até utilizado como arma, mas não me parece muito eficiente). Para completar a dupla dinâmica, escolheu como vice a Sra. Cidinha Campos, outrora uma entrevistadora de sucesso, hoje uma senhora descontrolada, cujo desempenho de chefe de claque no debate do primeiro turno ajudou a derrubar mais ainda o pobre candidato do prefeito. Qualquer um seria melhor que Luís Paulo, mas Paes achou que era o senhor do universo. E jogou ao vento a vaga e a vitória no segundo turno, que pareciam certas.
b) Ungido pelos deuses com esta segunda vaga, Marcelo Freixo preferiu ser PSOL do que ser razoável. Resolveu combater o fundamentalismo religioso de Crivella com outro fundamentalismo, o bolivariano, que o Brasil inteiro já expeliu como se fosse um cálculo renal. Repetiu mantras totalmente fora de contexto como “Fora Temer”, “Imprensa golpista”, enfim, só faltou gritar “Não vai ter Copa!” ou alguma sandice equivalente. Além disto, dedicou quase todo o seu tempo a tentar denegrir seu adversário, enfim, bebeu da fonte de ódio e suposta perseguição que alimentou o PT durante algum tempo, mas não funciona mais (sem esquecer que Lula tem muito mais talento para posar de vítima do que ele). Estratégia totalmente errada, que afastou todas as alianças possíveis.
c) Sentindo a inesperada chance de vitória se concretizando, Crivella agiu com sabedoria; colocou-se muito mais como “engenheiro” do que como “bispo”, deu ênfase ao seu lado “técnico e administrador”, escondeu até onde foi possível os aliados inconvenientes (Garotinho, o tio Edir Macedo e outros), chegando ao exagero de chamar os umbandistas de “irmãos” (só não apareceu consultando uma mãe-de-santo porque não foi necessário, afinal o eleitorado espírita não é tão grande assim). Jogou o jogo certo e conseguiu um resultado surpreendente, com quase 60% dos votos válidos.
d) Antes de terminar, uma palavra sobre a mídia; foi quase comovente o esforço que o pessoal da Globo e da Veja fez para tentar derrubar o Crivella (leia-se; rede Record). Valeu tudo; declarações antigas, fotos comprometedoras, frases fora do contexto, enfim, todo o arsenal disponível foi utilizado. E o resultado? Zero. O que deixou claro uma teoria que sustento há muito tempo; este poder quase sobrenatural que alguns atribuem a tal “imprensa golpista” não passa de ilusão. Lula e Dilma não foram derrubados pela imprensa, eles se enrolaram sozinhos. Crivella, aparentemente, era um alvo muito mais fácil, e saiu ileso.
No fim das contas, ficamos com o menor dos dois males. E com a certeza que Crivella terá de governar pisando em ovos de codorna, tal a pressão que vai ter em cima dele.
Que Deus tenha piedade desta cidade olímpica e maravilhosa!
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Geraldo Eustáquio / Letícia Lanz – a inteligência que arrasa com o preconceito
No início dos anos 2000 conheci, em um encontro gerencial da Petrobras, um consultor chamado Geraldo Eustáquio. Participei de alguns eventos coordenados por ele, e sempre me chamou a atenção por sua inteligência e bom humor. Cito até hoje, em sala de aula e em eventuais artigos, algumas das lições que aprendi com ele, e de vez em quando acompanhava seus textos e poesias pela internet.
E foi pela internet que fiquei sabendo, há algum tempo, que ele resolveu adotar uma identidade feminina, com o nome de Letícia Lanz. Na última segunda-feira, quando assistia o programa “Papo de Segunda”, um dos últimos refúgios de inteligência que restam na TV brasileira, vi que Letícia Lanz era a convidada de honra. E ela (ou ele) fez um belíssimo papel, mesmo enfrentando a concorrência dos quatro craques que formam o time permanente do programa (Marcelo Tas, Leo Jaime, Xico Sá e João Marcelo).
Letícia/Geraldo contou sua história com simplicidade, inteligência e bom humor, exatamente como nos tempos de consultoria na Petrobras. Era um homem inteligente, e a impressão que tive é que agora, livre dos seus fantasmas mais íntimos, ficou ainda melhor (não sei se devo chama-lo de “mulher inteligente”; é um ser humano inteligente, e fim de papo).
O mais legal é que ele recusou-se, o tempo todo, a cair na armadilha do coitadismo, do sofrimento, da dor do preconceito, enfim, esta ladainha “politicamente correta” que já se tornou prá lá de chata. Geraldo virou Letícia e pronto; não quer revanche, não ergue bandeiras, não tem ódio no coração. Porque a guerra contra o preconceito não se ganha apenas em batalhas épicas, com passeatas e decisões judiciais; é muito mais eficiente a guerrilha da inteligência, do talento e da convivência no dia a dia. Neste ponto um grande momento do programa foi quando Marcelo Tas, que é pai de uma filha que virou filho, deu um depoimento bem humorado sobre o assunto, citando sua outra filha que, com apenas nove anos na época, foi a pessoa que entendeu com mais facilidade que a irmã agora era irmão. A menina apenas falou; “prá que tanto mistério, ela (ou ele) sempre foi assim!”. Raciocínio infantil, simples e genial. Sem necessidade de cartilhas complexas ou manifestações de rua para ensina-la.
Pessoal; quem não viu, procure o programa no site do GNT, vale a pena desfrutar de uma hora de inteligência e humor de qualidade, coisa quase inexistente no Brasil de hoje, polarizado, agressivo e burro, infelizmente. Fiquei orgulhoso de um dia na vida ter participado de vários debates com Letícia (que na época era Geraldo, mas isto é o que menos importa). E mais uma vez fiquei certo que a maior arma contra o preconceito não é a imposição da neurose politicamente correta que, muitas vezes, não passa de um outro preconceito, às avessas; é a conversa inteligente e, acima de tudo bem humorada.
O resumo da história é; Geraldo, depois de ter nascido homem, ter sido marido, pai e avô, decidiu ser Letícia. Está feliz assim, e cada vez mais talentoso. Um ser humano dos melhores que conheci, um tipo que orgulha a espécie. Usando a linguagem de futebol, que eu adoro, a história dele é uma espécie de 7x1 no preconceito. Sem vitimismo nem lágrimas, pelo contrário, com muito bom humor. Como tem que ser.
E foi pela internet que fiquei sabendo, há algum tempo, que ele resolveu adotar uma identidade feminina, com o nome de Letícia Lanz. Na última segunda-feira, quando assistia o programa “Papo de Segunda”, um dos últimos refúgios de inteligência que restam na TV brasileira, vi que Letícia Lanz era a convidada de honra. E ela (ou ele) fez um belíssimo papel, mesmo enfrentando a concorrência dos quatro craques que formam o time permanente do programa (Marcelo Tas, Leo Jaime, Xico Sá e João Marcelo).
Letícia/Geraldo contou sua história com simplicidade, inteligência e bom humor, exatamente como nos tempos de consultoria na Petrobras. Era um homem inteligente, e a impressão que tive é que agora, livre dos seus fantasmas mais íntimos, ficou ainda melhor (não sei se devo chama-lo de “mulher inteligente”; é um ser humano inteligente, e fim de papo).
O mais legal é que ele recusou-se, o tempo todo, a cair na armadilha do coitadismo, do sofrimento, da dor do preconceito, enfim, esta ladainha “politicamente correta” que já se tornou prá lá de chata. Geraldo virou Letícia e pronto; não quer revanche, não ergue bandeiras, não tem ódio no coração. Porque a guerra contra o preconceito não se ganha apenas em batalhas épicas, com passeatas e decisões judiciais; é muito mais eficiente a guerrilha da inteligência, do talento e da convivência no dia a dia. Neste ponto um grande momento do programa foi quando Marcelo Tas, que é pai de uma filha que virou filho, deu um depoimento bem humorado sobre o assunto, citando sua outra filha que, com apenas nove anos na época, foi a pessoa que entendeu com mais facilidade que a irmã agora era irmão. A menina apenas falou; “prá que tanto mistério, ela (ou ele) sempre foi assim!”. Raciocínio infantil, simples e genial. Sem necessidade de cartilhas complexas ou manifestações de rua para ensina-la.
Pessoal; quem não viu, procure o programa no site do GNT, vale a pena desfrutar de uma hora de inteligência e humor de qualidade, coisa quase inexistente no Brasil de hoje, polarizado, agressivo e burro, infelizmente. Fiquei orgulhoso de um dia na vida ter participado de vários debates com Letícia (que na época era Geraldo, mas isto é o que menos importa). E mais uma vez fiquei certo que a maior arma contra o preconceito não é a imposição da neurose politicamente correta que, muitas vezes, não passa de um outro preconceito, às avessas; é a conversa inteligente e, acima de tudo bem humorada.
O resumo da história é; Geraldo, depois de ter nascido homem, ter sido marido, pai e avô, decidiu ser Letícia. Está feliz assim, e cada vez mais talentoso. Um ser humano dos melhores que conheci, um tipo que orgulha a espécie. Usando a linguagem de futebol, que eu adoro, a história dele é uma espécie de 7x1 no preconceito. Sem vitimismo nem lágrimas, pelo contrário, com muito bom humor. Como tem que ser.
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