domingo, 7 de agosto de 2016

O BOM DEBATE É A CHAVE DO SUCESSO – E NÓS, BRASILEIROS, TEMOS QUE APRENDER ISTO

Desde que me aposentei passei a ser um usuário bem ativo das redes sociais. Afinal, é um bom lugar para rever antigos amigos, e “conversar” sobre diversos assuntos. Como em todo o lugar onde o acesso é livre, sempre existem os tipos mal educados e grosseiros, mas, de um modo geral, sempre foram minoria e havia o recurso de bloqueá-los. Só que, nos últimos meses, estou vendo esta situação sair do controle.
Pouco depois da votação do impeachment, postei um artigo condenando a atitude do deputado Jean Wyllis, que cuspiu no deputado Jair Bolsonaro. Meu artigo não teve qualquer conotação política; se fosse o Bolsonaro a cuspir no Jean Wyllis, minha atitude de condenação seria exatamente a mesma, afinal entendo que ninguém pode cuspir em ninguém, muito menos em plena Câmara dos Deputados. Pois bem, um amigo de longa data me bloqueou, e ainda me deixou um comentário desaforado, dizendo que “não era possível conviver com um cara que defende o Bolsonaro”. E eu não estava defendendo o Bolsonaro, nem sou simpatizante dele...
Ontem, antes da cerimônia de abertura dos Jogos do Rio, um amigo colocou no Face algo como um chamamento para vaiar o Temer. Imediatamente a discussão virtual começou. Coxinha prá lá, petralha prá cá, até que uma moça, criticando um cara que postava “memes” anti-PT sem parar, mandou esta; “Fulano, o wi-fi do hospício deve ser bom, né? Porque você não para de postar”. A resposta do rapaz desceu alguns tons na escala de civilização; “a do puteiro também deve ser boa, porque você não para, também”. Parei de ler ali mesmo. Detalhe; eram dois engenheiros, cinquentões, meus ex-colegas de Petrobras, pessoas de “fino trato”, como se diria antigamente. Ela chamando o cara de louco, ele a chamando de puta.
Minha conclusão é que perdemos totalmente os parâmetros. Só que, otimista que sou, vejo esta crise como oportunidade; é bom que nossa falta de educação e civilidade venha logo para a vitrine, acabando com o mito do “brasileiro cordial e bem humorado” em que acreditamos durante muito tempo. Conforme eu digo sempre, se o brasileiro fosse assim não teríamos 50 mil homicídios por ano (medalha de ouro neste triste quesito). E penso que esta incapacidade de conviver com opiniões diferentes é responsável por boa parte do nosso atraso.
Buscando subsídios para a minha tese, li o excelente livro “Um país sem excelências e mordomias”, escrito pela jornalista Cláudia Vallim sobre a Suécia, onde ela mora há mais de quinze anos. Lá pelas tantas, ela diz que “o esporte preferido dos suecos é o debate”. Veja bem; eles adoram discutir, trocar ideias, e concluir algo. E a partir do momento em que a decisão é tomada, todo mundo trabalha para que seja um sucesso. Sem ressentimentos. Isto explica muito a diferença de nível entre a Suécia e o Brasil.
Outro exemplo que podemos citar é o povo judeu. Não sou judeu, mas acho estatisticamente fantástico que um povo que soma cerca de 15 milhões de pessoas no mundo todo (ou seja, míseros 0,2% da população do planeta) tenha ganho 20% dos prêmios Nobel até hoje, só para ficar em um item. Na área de gerenciamento de projetos, onde atuo, as duas grandes autoridades reconhecidas mundialmente são Aaron Shenhar e Harald Kerzner, ambos judeus. Tentando entender o sucesso deles, chamou-me a atenção uma frase de Jonathan Sacks, rabino-chefe da Comunidade Britânica; “No judaísmo estamos acostumados à discussão. Somos uma religião de debatedores. Só porque discutimos não quer dizer que não possamos ser amigos”. Perfeito. Agora ficou claro.
Enfim, poderia buscar outros milhares de exemplos, mas entendo que a tese é simples; o que faz a grandeza de um povo ou de um país são as boas discussões. E a boa discussão é aquela onde o objetivo não é ganhar nem humilhar o outro, mas chegar a uma boa conclusão. E é este o ponto em que estamos falhando. E cabe a nós mesmos modificar este estado de coisas. Independente de ser coxinha ou petralha.
Para concluir o artigo, uma opinião de “Pepe” Mujica, o folclórico presidente do Uruguai, sem dúvida uma das figuras mais interessantes e respeitáveis da política latina. Ontem, em um seminário em Curitiba, ele disse que a “conta pendente do povo brasileiro é não permitir que o ódio germine por divergências políticas”. Falou e disse, como se falava (e dizia) no meu tempo de jovem.
Resumindo, ou a gente aprende a respeitar a opinião alheia, ou vamos continuar no atoleiro, você decide.
Até a próxima.

sábado, 23 de julho de 2016

O DOPING, O “TUDO POR DINHEIRO” E A DEGRADAÇÃO DO CONCEITO DE ESPORTE

Desde que me entendo por gente sou um verdadeiro fanático por esportes, principalmente os jogos de bola, como futebol, basquete e vôlei. A ideia da competição esportiva me parece ser uma grande metáfora para a trajetória do ser humano na Terra, ou talvez mais ainda; é a demonstração da essência do darwinismo, onde alguns conseguem chegar ao primeiro lugar e os outros ficam pelo caminho. Tudo isto sem mortes, sem nem mesmo gerar inimizades, ao contrário, trazendo respeito e admiração mútua entre os que vencem e os que perdem, além das lições aprendidas (vou fazer melhor na próxima vez). Por tudo isto, sempre vi o esporte como, provavelmente, a mais nobre das atividades humanas.
Tentei jogar basquete, futebol e vôlei mas, infelizmente, minha paixão pela bola nunca foi correspondida, e não passei do estágio de “medíocre” em nada do que fiz. Independente do meu péssimo desempenho no campo e nas quadras, considero que o esporte me foi útil em diversos aprendizados importantes; a importância do trabalho em equipe, o respeito ao adversário, o esforço para melhorar sempre a minha competência (para quem não sabe, as palavras competição e competência têm a mesma origem), e, principalmente, o respeito pelo próprio corpo. Graças ao esporte desenvolvi hábitos saudáveis que são importantes para que eu goze de uma saúde muito boa até hoje, com mais de sessenta anos.
O problema é que o esporte, principalmente em nível de competição, mudou muito nos últimos quarenta anos. Com o desenvolvimento das telecomunicações, os eventos esportivos passaram a ter um impacto global; enquanto os jogos de Pelé e seus contemporâneos eram precariamente transmitidos por redes de TV incipientes, hoje cada gesto de Cristiano Ronaldo e seus pares, dentro ou fora do campo, tem repercussão imediata no mundo todo. Os outros esportes seguiram na mesma toada, e hoje um Usain Bolt, por exemplo, é figura presente, de alguma forma, na vida de todos nós.
As cifras e os interesses envolvidos, obviamente, subiram junto. Em princípio, um fanático por esportes como eu achou ótimo que atletas ficassem milionários e se tornassem referência para milhões de jovens no mundo todo. Só que, em paralelo com isto, o conceito de “competitividade” saiu de controle, transformando-se no “tudo por dinheiro”, imortalizado pelo nosso grande Sílvio Santos.
A nobreza da competição, exaltada por Coubertin no lema dos Jogos Olímpicos, foi substituída por um jogo em que o importante é ganhar, não interessa como. A justificativa são os milhões e milhões de dólares envolvidos. Como no mito de Fausto, atletas, treinadores e dirigentes vendem suas almas ao diabo em troca da fortuna. No caso específico dos atletas, além da alma, o próprio corpo entra na transação, uma vez que todos conhecem as consequências nefastas que estas substâncias causam no organismo no médio e longo prazo.
Resumindo, mais uma vez estamos assistindo ao triste espetáculo da degradação do ser humano quando não consegue ter uma visão maior de respeito aos outros e a si mesmo, que é a base da grandeza do esporte. Treinar, suar, competir, vencer, perder, tudo isto é bom e saudável, trazendo benefícios físicos e psicológicos para a vida toda; jogar sujo pode te levar à glória enganosa e momentânea, mas um dia a verdade vem à tona. E, por favor, poupem o esporte desta coisa suja. Ele é muito maior que isto.
Até a próxima.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

DECISOES POR PÊNALTIS NÃO SÃO JUSTAS. E EU TENHO UMA PROPOSTA PARA ACABAR COM ISTO

Um dos grandes problemas dos torneios de futebol nos últimos anos tem sido o número exagerado de decisões por pênaltis. Desde sempre, os torneios tipo mata-mata (ou seja, aqueles em que o jogo tem que ter um vencedor) sempre previam a existência da prorrogação no caso de empate no tempo normal, e a premissa era que, em trinta minutos extras de jogo, alguém faria um gol e decidiria a parada.
Este sistema funcionou muito bem durante um bom período de tempo, mas o problema é que as técnicas e táticas do futebol foram cada vez mais privilegiando a defesa, de forma que, de uns tempos para cá, as prorrogações raramente têm gols, e o jogo acaba indo para a decisão por pênaltis.
Só para contextualizar historicamente o que estamos falando, em termos de Copa do Mundo, a primeira decisão por pênaltis ocorreu na semifinal de 1982, quando Alemanha e França empataram no jogo e na prorrogação. De lá para cá temos tido decisões por pênaltis em todas as fases de todos os torneios mata-mata do mundo (Eurocopa, Copa América, Libertadores, Copa do Mundo e todos os outros).
O problema é que a decisão por pênaltis é uma coisa totalmente divorciada do jogo de futebol em si. E pode ser muito injusta. Se tomarmos as duas últimas finais de Copa América, por exemplo, o Chile bateu a Argentina duas vezes nos pênaltis, após 240 minutos sem um golzinho sequer, de parte a parte. Será que não teria um jeito de obrigar estes caras a jogar para frente e fazer gols?
Minha sugestão é simples; aplicar, para a prorrogação, regras diferentes das utilizadas para o jogo em si. Algo parecido com o que já se fez no vôlei e no tênis; o tie-break.
Seriam, basicamente, duas mudanças simples e, repito, que valeriam apenas para a prorrogação;
a) Na prorrogação não existiria mais a figura do impedimento. A única coisa que é proibida é o atacante ficar parado dentro da área, esperando a bola e atrapalhando a ação do goleiro.
b) Toda e qualquer falta que seja feita propositalmente, para parar um lance de ataque, será cobrada da meia-lua da área, sem barreira (chance de gol quase tão boa quanto um pênalti).
A ideia é facilitar a vida dos jogadores e times habilidosos e ofensivos. Sem impedimento, a área para troca de passes aumenta; e a segunda regra obrigaria os defensores a pensar duas vezes antes de fazer uma falta para “matar a jogada longe do gol”. Outro detalhe importante é que os bandeirinhas, sem a necessidade de observar os impedimentos, poderiam auxiliar mais ainda os juízes na marcação das faltas.
Enfim, sem mudar muito as regras, acho que teríamos prorrogações emocionantes, proporcionando muitas oportunidades de gol. E o jogo seria decidido de uma forma mais justa, privilegiando quem ataca mais e melhor. Podia dar certo...

quinta-feira, 23 de junho de 2016

INVADE, OCUPA, QUEBRA, XINGA – SERÁ QUE DEMOCRACIA TEM QUE TER BAGUNÇA?

No início dos anos 80 a ditadura militar brasileira apresentava claros sinais de que não iria durar muito. A “abertura democrática”, promovida pelo então ditador João Batista Figueiredo, nada mais era do que um sinal de que o modelo econômico dos militares estava esgotado e eles estavam ansiosos para passar a bola adiante – o que acabou sendo feito.
Neste momento, em que a palavra “democracia” aparecia como um sonho e a possível solução de todos os males do Brasil reuniu-se no time do Corinthians uma geração de jogadores com inegável talento para jogar bola, mas que acabou sobressaindo-se por outro motivo; liderados por Sócrates, um jogador pouco convencional, que juntava à sua técnica refinada dentro de campo uma cultura de alto nível e grande capacidade de liderança, com o apoio de outros craques como o inteligente Vladimir, o rebelde Casagrande e o carismático Biro-biro, criaram um movimento que ficou conhecido como a “democracia corintiana”.
Basicamente, o negócio deles era jogar bola e ganhar muitos campeonatos – coisa que fizeram com muita competência, diga-se. Se fossem jogadores medíocres ninguém lhes daria o mínimo crédito. Mas suas atitudes iam muito além do gramado. E o causo que vamos contar agora diz muito mais respeito a estas atitudes do que ao jogo de bola.
Jogava neste timaço um ponta-direita chamado Ataliba, que, mesmo sem ter a qualidade técnica dos craques do time, resolvia o jogo de vez em quando. Certa vez, ele foi substituído, não gostou (duvido que algum jogador do mundo goste de ser substituído) e saiu soltando palavrões contra o técnico da ocasião, que eu não lembro quem era. A câmera da TV pegou a imagem (é claro que não vivíamos a época de hoje, em que qualquer palavrãozinho que o jogador solte é filmado por todos os ângulos possíveis), e o fato alcançou alguma repercussão na imprensa (também não existiam as famigeradas redes sociais de hoje).
Pressionado, o treinador exigiu da diretoria uma punição para o atleta. Só que Sócrates e seus companheiros vieram em defesa de Ataliba. Até ai tudo normal, é o tipo do episódio que nunca deveria sair dos limites do campo; o cara pede desculpas, o treinador aceita e vida que segue. Mas o argumento que os outros jogadores usaram foi o da “democracia”. Na visão deles, a “democracia” dava ao jogador o direito de xingar o técnico na frente de todo mundo. E é por isto que fiquei com esta história na cabeça.
Este talvez seja um dos mais graves problemas do Brasil; a confusão de conceitos entre “democracia” e “bagunça”. Nenhuma democracia do mundo dá a alguém o direito de destratar o seu gerente, principalmente se estiverem em público; também não é democrático invadir escolas, parar avenidas, manter greves abusivas, xingar autoridades (por mais que eu considere que a administração petista foi um desastre para o Brasil, sempre achei que aquele coral de “Ei, Dilma, vai tomar no (*)” é coisa de selvagens imbecis). No Brasil, infelizmente, este tipo de barbaridade é enquadrado dentro dos limites do “direito sagrado de livre expressão”. E se a polícia bater em alguém, a culpa é da polícia.
O resultado prático de tudo isto é que a melhor característica da democracia, que é a existência do debate livre e saudável entre os divergentes, que pode nos levar a uma negociação boa para todos, fica totalmente prejudicada; e não é por outra coisa que muitos desinformados entendem que a volta da ditadura militar seria uma solução. Pessoal, não precisamos de ditadura (ninguém precisa); precisamos de disciplina e ordem. E isto pode (deve) ocorrer em qualquer estado democrático.
Resumindo, o que o Brasil precisa não é de mudança de regras, mas sim cumprir as mínimas regras de convivência, educação e responsabilidade, que são os pilares de uma estrutura democrática. Invadir, paralisar, quebrar, xingar, nada disto resolve o problema. E a mudança cabe a cada um de nós.
Até a próxima.

domingo, 15 de maio de 2016

Uma pequena aula de história para frear a histeria “politicamente correta”

“Não é possível corrigir o passado, mas, a cada dia, podemos começar a construir um novo futuro” - Chico Xavier.
Diz uma historinha dos anos 1970 que, certa vez, perguntaram a Mao Tse Tung, o grande líder chinês, o que ele achava da influência da Revolução Francesa na História da Humanidade. Mao teria respondido algo do tipo; “ainda é muito cedo para se avaliar as consequências, afinal se passaram menos de dois séculos”. Verdadeiro ou não, o “causo” pode servir de base para algumas conclusões sobre a onda histérica que se levantou a partir do momento em que o Presidente interino Michel Temer anunciou o seu ministério composto apenas por homens brancos – um retrocesso, ou até um crime, na visão de alguns.
Meninos, o tempo é o senhor da razão. Mudanças comportamentais ou de paradigmas acontecem aos poucos, e seus efeitos só serão efetivamente implementadas ao longo de décadas, ou até séculos, conforme observou Mao Tse Tung com muita propriedade (se a historinha for verdadeira, of course). E corrigir o passado é impossível, conforme disse o nosso velho e bom Chico Xavier.
A evolução da participação das mulheres na sociedade começou a acontecer com alguma intensidade a partir da metade do século XX. Só para vocês terem uma ideia, citando dois “causos” particulares, quando entrei para a Escola de Engenharia da UFRGS, em 1971, de um contingente de 400 alunos, apenas 20 (isto mesmo, 5%) eram mulheres. Pior ainda; quando passei no concurso e entrei para a Petrobras, em janeiro/1976, o cargo de “Engenheiro de Equipamentos” era vedado para mulheres, sob a suposição (totalmente estúpida, diga-se), de que elas não poderiam trabalhar em plataformas por correrem o risco de sofrer violência sexual. E como vivíamos uma ditadura militar (que alguns idiotas ainda insistem que “é a solução” para o Brasil), não tinha conversa; era proibido e fim de papo, não tinha a possibilidade de recorrer à justiça (que só existe em estados democráticos). Esta proibição maluca só foi revogada no início dos anos 80, se a memória não me falha.
Numa situação paralela, nos Estados Unidos, na mesma época, o racismo ainda era oficial em alguns estados, e foi só após uma luta dura, que custou a vida de Martin Luther King, John Kennedy e alguns milhares de anônimos, é que as crianças e adolescentes negros conseguiram o direito de estudar em boas escolas e serem tratados como gente.
Os resultados das mudanças começaram a aparecer com intensidade algumas décadas depois, o que é natural. Hoje temos um presidente negro nos Estados Unidos, e tivemos, recentemente, na Petrobras, Graça Foster como a primeira mulher a chegar à presidência da empresa. Nenhum deles precisou usar sistema de cotas; chegaram lá pelas suas qualidades, e porque tiveram o direito de competir em igualdade de condições desde os tempos do colégio.
Assim, entendo que, hoje, ainda temos um número relativamente pequeno de mulheres e/ou negros e/ou outras minorias em postos mais importantes, que ainda é fruto deste (mau) legado histórico. Mas a minha geração vai morrer ou sair do cenário em breve, e a tendência é que as coisas se equiparem. Assim caminha a humanidade, como diz Lulu Santos, o poeta com nome de cachorrinho de madame.
Minha implicância com o politicamente correto vem desta distorção; eles querem corrigir o passado, e acabam atrapalhando o presente, exigindo cotas para isto e para aquilo, sem levar em conta que isto acaba gerando um preconceito ao contrário, que impede em muitos casos, que os mais competentes ocupem os cargos. E o efeito colateral é que isto acaba, sem querer, proporcionando argumentos para radicais como Donald Trump e Bolsonaro, por exemplo (ver meu artigo anterior, "De Bolsonaro a Trump, a volta triunfal do politicamente incorreto).
Resumindo, minha visão é que todos somos seres humanos, e temos as mesmas competências e defeitos. O problema é que, por força de distorções antigas (já superadas), o número de homens que estão hoje na faixa dos 60 anos que tiveram condições plenas de desenvolver suas competências é bem mais significativo que o de mulheres. E isto se reflete (ainda) nas empresas, governos, mercado de trabalho, etc...
Vejo a prova disto nas turmas de MBA onde dou aulas; entre os professores mais “experientes” (leia-se; velhos), os homens são a imensa maioria, mas no pessoal que está na faixa dos quarenta anos, o número de professoras é cada vez mais significativo. E no corpo de alunos (que serão os futuros professores, of course), a coisa está tecnicamente empatada, já tive turmas com mais de 65% de alunas. Ou seja; a integração está se fazendo a cada dia, tudo junto e misturado, como tem que ser. E os competentes sobreviverão, sejam homens ou mulheres.
Por favor, não atropelem o processo, nem tentem corrigir o nosso vergonhoso passado. Só se pode corrigir o futuro. E ele é promissor para todos.

terça-feira, 26 de abril de 2016

A ascensão do cuspe-dô, a nova arte marcial brasileira

Nelson Rodrigues, provavelmente o nosso maior frasista e um cara que entendeu a alma brasileira como poucos, dizia; “O brasileiro é o Narciso às avessas; se puder, cospe na própria imagem”. Nos anos 50, quando eu nasci e Nelson escreveu esta frase, cuspir em alguém era considerado um ato de suprema ofensa, seguramente uma agressão pior até que um soco ou algo assim. Afinal, para dar um soco é preciso tocar no agredido; o cuspe ficava reservado para seres tão abjetos que nos repugnava a ideia de ter qualquer contato físico com eles. E a imagem de alguém cuspindo em si mesmo era forte o suficiente para determinar o tamanho da nossa falta de autoestima, o complexo de vira-latas, na definição do próprio Nelson.
Nem nos seus piores pesadelos o nosso grande escritor poderia imaginar o quanto sua frase seria profética. Nestes tempos trevosos que vivemos, cuspir nos outros virou moda e, pior ainda, passou a ser considerado por muitos como uma atitude justa, quase exemplar, dependendo de quem seja o alvo da cusparada. Conforme sugere o título deste post, talvez estejamos assistindo à criação de uma nova arte marcial. O sufixo “dô”, presente no nome de diversas lutas orientais (judô, aiki-dô, tae-kwon-do), significa “caminho”. No caso deles, o caminho proposto é o do respeito aos outros e da disciplina; já o nosso cuspe-dô louva a cafajestagem e a covardia.
Minha triste conclusão é que, finalmente, o brasileiro perdeu a paciência com este tal de “brasileiro”, o repulsivo ser responsável por todas as nossas mazelas e que sempre é o outro, nunca a gente. No fundo, cada um cospe em si mesmo; na nossa falta de autoestima, na nossa incapacidade de criar um verdadeiro sentimento de nação, mesmo tendo um país com tantas possibilidades.
Espero que, deste fundo de poço moral aonde chegamos, surja uma oportunidade, e finalmente o brasileiro se reconcilie consigo mesmo, aprenda a dialogar e construir. Infelizmente, no momento, o que vemos são atitudes cada vez mais raivosas, agressivas e irracionais. E cuspir, acima de tudo, é um ato “nojento!”, conforme diria, com muita propriedade, o saudoso Tião Macalé, numa definição perfeitamente aplicável ao atual momento político e social que vivemos.
Enfim, quem viver, verá.

terça-feira, 19 de abril de 2016

O circo do congresso repete o circo nosso de cada dia

De todas as “qualidades” apresentadas por nossos ilustres parlamentares no triste espetáculo da votação de domingo (grosseria, burrice, analfabetismo funcional e outras) a que mais me chamou atenção foi a falta de disciplina. Afinal, a solicitação feita foi que cada congressista usasse dez segundos, ou seja; chega ao microfone, fala o voto (sim ou não), e passa a vez. Simples assim. Ninguém cumpriu.
Sempre que se fala em fatores críticos de sucesso para um projeto, que é a área onde trabalho, a disciplina é citada. E, na minha visão, a origem de todos os problemas que temos no Brasil passa por esta simples palavrinha; indisciplina.
O problema da indisciplina do brasileiro é muito maior do que se imagina. O economista Douglass North, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1993, afirma que o mais importante para que um país se desenvolva são as crenças de sua população. Concordo 100% com ele. E uma das crenças mais fortes do imaginário brasileiro é a sua aversão a tudo o que represente autoridade e disciplina.
Posso citar dezenas de exemplos, desde o caos no trânsito até a dificuldade que temos de formar uma fila em qualquer lugar público, mas vou citar um que me incomoda muito; o problema do celular nos aviões. É impressionante como NINGUÉM obedece imediatamente à ordem de desligar o celular. Obedecer à regra é considerado sinal de fraqueza; segundo a frase atribuída a Roberto da Matta, o brasileiro acha que quem segue as regras é babaca. O bonito, charmoso, é continuar falando até levar uma chamada pessoal da aeromoça; aí o sujeito (ou sujeita) desliga, com ar de enfado. Na votação de domingo, várias vezes a campainha teve que ser acionada. E os caras não paravam de falar. O congresso nos representa. Sad but true.
Citando mais um exemplo, Lee Kwan Yew, o lendário líder que comandou a transformação de Singapura, uma minúscula cidade-estado de cinco milhões de habitantes em um dos países mais importantes do mundo, disse que “a democracia não leva necessariamente ao crescimento. O que um País precisa é desenvolver a disciplina e a confiança”.
Afinal, disciplina é coisa de nazista?
Infelizmente, no Brasil, ainda existe uma confusão de conceitos entre disciplina e repressão; resumindo, vemos a disciplina como um entrave à criatividade, por exemplo. Para acabar com este mito, seguem duas frases de indivíduos reconhecidamente criativos;
“Disciplina é liberdade” (Renato Russo, compositor).
“Em relação à propaganda, sou obviamente contra a censura e totalmente a favor de disciplina e legislações” (Washington Olivetto, publicitário).
Na verdade, a disciplina pode até começar pela repressão (em Singapura foi assim), mas se estabelece mesmo no momento em que todas as pessoas entendem que esta é a melhor forma para se viver. A foto que ilustra este artigo mostra um grupo de japoneses esperando para levar para casa sua cota de água potável após o tsunami de março/2011. Veja que todos estão obedecendo à fila, mesmo em um cenário totalmente caótico. Compare esta imagem com a do nosso congresso. Depois, ao invés de dizer que estes políticos não nos representam, pense nas suas atitudes no dia a dia do trânsito, do aeroporto, da fila do supermercado...
Resumindo; a melhora que todos queremos passa, mais que qualquer coisa, por uma renovação de crenças e valores. O já citado Douglass North diz que “um país que valoriza a pirataria vai produzir os melhores piratas”. Uma cultura que valoriza o individualismo e a safadeza vai eleger políticos egoístas e safados. Simples assim.
Existe mais a dizer sobre o assunto, mais este artigo já ficou longo demais. Fica para um próximo.