segunda-feira, 16 de julho de 2018

Zico, Modric e os deuses do futebol; dois craques, duas histórias diferentes

Não sei se muita gente reparou nisto, mas nesta Copa tivemos uma história envolvendo um extraordinário camisa 10 que repetiu, com um final diferente, um episódio de 32 anos atrás.
México, 1986, quartas de final, Brasil x França. Jogo empatado, e de repente Zico enfia uma bola genial para Branco que vai marcar mas é derrubado pelo goleiro. Zico bate o pênalti... e perde. O empate sobrevive à prorrogação e o jogo vai para os pênaltis. Corajoso, como deve ser um líder de verdade, Zico não se deixa abater pelo erro cometido, se oferece para chutar e converte com perfeição. Infelizmente Sócrates e Júlio Cesar perdem suas cobranças, o Brasil é derrotado, volta prá casa e Zico carrega por muito tempo a marca (injusta) de responsável pela eliminação em sua última copa como jogador.
Rússia, 2018, oitavas de final, Croácia x Dinamarca. A prorrogação está quase em seu final quando o craque Modric descola um lançamento preciso para Rebic, que passa pelo goleiro mas é derrubado diante do gol vazio. Capitão e craque do time, Modric bota a bola embaixo do braço, vai para a marca e... bate ridiculamente mal, proporcionando uma defesa firme do goleirão Schmeichel. Decepcionados, os croatas vão para a decisão por pênaltis. Tão líder e craque quanto o Zico de 86, Modric encara o desafio e converte a sua cobrança. Só que, por capricho dos deuses do futebol, o goleiro Subasic pega três chutes dinamarqueses, a Croácia ganha, vai em frente e chega a um surpreendente vice-campeonato. De quebra, Modric é coroado (com justiça) o craque da Copa.
O que isto prova? Rigorosamente nada, apenas que o futebol é fascinante justamente por envolver elementos de imprevisibilidade que só podem ser atribuídos a deuses caprichosos e apaixonados. Zico, o castigado, era um líder acostumado a levar à vitória um time do Flamengo que até os não-flamenguistas, como é o meu caso, lembram com saudades (eu sou do tempo em que, acima da torcida pelo meu clube, estava o amor pela arte do futebol. E aquele Flamengo era fantástico). Os deuses do futebol não concederam a ele e sua grande geração, que incluía Falcão, Sócrates, Éder e o técnico Telê, entre outros, sequer a honra de uma final de Copa do Mundo. Já Modric, o escolhido da vez, está acostumado a fazer um trabalho de operário em um time onde os galácticos são Cristiano Ronaldo, Sérgio Ramos, Kroos e outros. Mas mostrou grandeza e força quando precisou liderar seus irredutíveis companheiros em uma jornada gloriosa. Talvez isto tenha agradado aos deuses.
A lição aprendida é; a liderança tem várias faces e, muitas vezes, aquele baixinho com cara de fuinha, que não cobre o corpo de tatuagens nem ostenta penteados esdrúxulos, não produz lances cinematográficos mas joga com simplicidade e eficiência, pode se mostrar o maior de todos os guerreiros, quando é necessário.
Quanto aos deuses do futebol... bem, eles têm suas próprias regras. Talvez achassem que Zico já tinha ganho muito. E que o mundo precisava conhecer melhor o talento de Modric.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Não temos mais líderes dentro do campo. E a culpa não é dos jogadores

Esta imagem, de 1958, virou um ícone para os brasileiros, dentro e fora do futebol; um país com fama de vira-lata e amarelão nas decisões chega à final da Copa contra a anfitriã Suécia – e já leva um gol com apenas quatro minutos de jogo! Antes que o pânico tomasse conta de todos o meia Didi, então o craque do time (favor lembrar que Pelé era um adolescente, ainda), pega a bola no fundo das redes e vem trazendo-a para o meio de campo, falando para os colegas; calma, nós somos muito melhores e vamos ganhar fácil. O fim da história todo mundo conhece, goleada de 5x2 e o inicio de uma trajetória de sucesso do futebol brasileiro.
Corta para 2002; na estreia na Copa, finalzinho de um jogo complicadíssimo contra a Turquia, 1x1 no placar e o arbitro nos presenteia com um pênalti que, seguramente, não resistiria ao VAR caso existisse na época. O técnico Felipão tinha dois batedores; Ronaldo Fenômeno (que já não estava mais em campo) e Ronaldinho Gaúcho. O próprio Felipão contou que olhou para o dentuço e não sentiu muita firmeza de parte dele. No meio da indecisão, Rivaldo incorporou o Didi de 58, botou a bola embaixo do braço, olhou para o técnico e disse; deixa comigo, professor. Felipão deixou e Rivaldo bateu com perfeição. Ali começava o penta.
E agora, em 2018, o que temos? Não sei se é impressão minha, mas acho que, se por um acaso o técnico Tite for abduzido por marcianos e desaparecer no meio do jogo, o time vai parar de jogar. Não vejo nada parecido com Didi, ou Gerson, ou Carlos Alberto, nem mesmo um Dunga ou um Cafu. E tenho uma teoria sobre isto.
O problema é que quase todos estes garotos têm uma história semelhante; vindos de uma origem humilde, são subitamente promovidos a ídolos e, muitas vezes ainda adolescentes, deixam o país ganhando fortunas consideráveis. Nada contra isto, é claro, mas o fato é que esta transição acaba castrando o desenvolvimento da personalidade necessário para a criação de um líder; o dinheiro vem muito rápido (por favor, nunca digam que vem fácil, eles são talentosos, esforçados e não estão roubando ninguém), e a mudança precoce para um ambiente estranho faz com que eles acabem adquirindo uma personalidade frágil e conformada. A lição é; joga a tua bola, ganha a tua grana e cala a boca. Some-se a isto o ambiente doentiamente policialesco desta praga chamada “redes sociais”, e temos um bando de jovens milionários que só são capazes de repetir os bordões “politicamente corretos” que são ditados pelos seus incontáveis assessores.
Não consigo enxergar nem mesmo um protótipo de líder dentro do nosso time. Thiago Silva talvez seja o que mais se aproxima disto, mas o descontrole emocional que demonstrou em 2014 ainda pesa muito contra ele. Neymar poderia ser este líder, só que, neste aspecto, ele me lembra muito o Ronaldinho Gaúcho; um par de pés geniais, a serviço de uma cabeça conturbada. Não resolve. O próprio “rodizio de capitães”, promovido pelo técnico Tite me parece um reflexo desta situação toda; procura-se um líder.
Enfim, torço sinceramente para que dê tudo certo e o hexa venha, mas vejo com muita preocupação o fato de que não temos um só jogador que pareça capaz de botar a bola embaixo do braço e resolver a parada, quando as coisas não estiverem indo bem.
Quem viver, verá.

terça-feira, 29 de maio de 2018

DISCORDAR É UMA COISA, AGREDIR É OUTRA. QUANDO É QUE VAMOS APRENDER?

Um episódio ocorrido em uma greve é uma das lembranças mais vivas que tenho dos meus quase quarenta anos de Petrobras. O ano era 1991, o presidente era Fernando Collor e nós, funcionários da Petrobras, carregávamos a imagem de vilões do Brasil – os alvos preferidos do então conhecido como “caçador de marajás”, se é que alguém ainda se lembra disto.
Só que a vida real era muito diferente, nosso poder aquisitivo definhava e em setembro, mês do dissidio, recebemos uma proposta indecorosa de 30% de aumento (a inflação já passava de 100% ao ano).
Entramos em uma greve difícil, impopular. E foi no final de um dia muito desgastante, numa assembleia em frente ao EDISE, no centro do Rio de Janeiro, que um carro da Rede Globo estacionou e dele desceu uma equipe de reportagem.
Na época, assim como hoje, havia entre nós pessoas que responsabilizavam a Globo por tudo de mal que existia no País (eu não concordo muito com esta tese, mas esta discussão fica para outro dia). Os ânimos já estavam exaltados e alguns colegas começaram a ensaiar uma vaia para cima deles.
Neste momento, um colega do sindicato tomou o microfone do carro de som e falou; “Pessoal, ninguém aqui gosta da Globo, mas estes caras são trabalhadores como nós. Vamos deixar eles trabalharem”. Não lembro se as palavras foram exatamente estas, mas poucas vezes na vida vi alguém ter uma atitude tão inteligente e oportuna. Ninguém mais incomodou os caras, acho até que alguns deram entrevista e tudo acabou em paz.
Hoje, quando vejo a covardia feita com alguns jornalistas, principalmente com mulheres (desculpem, mas sou do tempo do cavalheirismo explícito), não posso deixar de lembrar este episódio.
E a conclusão, triste, é que andamos muito para trás. O brasileiro simpático e cordial sumiu (na verdade, não sei se ele realmente existiu algum dia ou se isto não passa de uma crendice popular, como o Saci Pererê ou algo assim). Viramos trogloditas. Trabalhador contra trabalhador, povo contra povo. E o pedido que alguns fazem por uma intervenção militar é a “cereja” deste bolo fecal; é a confissão de fracasso de um povo, significa que não conseguimos conviver com nós mesmos, não sabemos lidar com a liberdade nem com a diversidade de opiniões, preferimos pedir que alguém tome conta da gente. A única perspectiva boa é que tenho certeza que nem os militares vão querer descascar este abacaxi.
Enfim, não sei onde isto vai parar. Mas o sentimento é de derrota. Muito pior que os 7x1.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Há exatos sessenta anos o Brasil ganhou a sua primeira Copa do Mundo com planejamento meticuloso e obediência tática. Alguém já te contou esta historia?


Sim, você já ouviu o seu avô dizendo que o Brasil ganhou a Copa de 58 sambando com a bola no pé – tinha até uma musiquinha ufanista da época que dizia isto. Um time que jogava prá frente, e foi o único a fazer cinco gols em uma final de copa. A parte dos cinco gols na final é verdadeira, mas a história toda não é bem assim. Em ano de copa, aproveito para contar este causo na sua versão verdadeira, que é bem diferente da que foi consagrada. De certa forma posso dizer que fui testemunha ocular, afinal, tinha seis anos na época e sempre fui fanático por futebol.
A história, na verdade, começa algum tempo antes. Só para ter uma ideia do nível de amadorismo dos nossos cartolas de então, na Copa de 1954, na Suíça, o último jogo do Brasil na fase de grupos foi contra a Iugoslávia. O empate classificava os dois times – só que ninguém na delegação brasileira sabia disto. O resultado é que o jogo foi 1x1 e o nosso time se esforçou até o final buscando uma vitória que era totalmente desnecessária. Diz a lenda que o capitão iugoslavo Mitic, que arranhava alguma coisa em português, sem entender porque os brasileiros estavam se matando em campo, começou a dizer, baixinho, para quem passava perto dele; “empate é bom... empate é bom...”. Foi só no vestiário que o time ficou sabendo que estava classificado. No jogo seguinte, contra a poderosa Hungria de Puskas, o desgaste inútil, aliado à qualidade do adversário, resultou numa derrota por 4x2 e eliminação.
O resultado deste vexame, somado ao de 1950, já cantado em prosa e verso, fez com que a então CBD (Confederação Brasileira de Desportos – ainda não havia a CBF), tomasse providências interessantes. O recém-empossado presidente João Havelange resolveu que, para a Copa de 58, não teríamos apenas um treinador cuidando de tudo, como era o normal na época; formou-se uma comissão, incluindo, além do técnico Vicente Feola, um preparador físico (Paulo Amaral), um médico (Dr. Hilton Gosling), um dentista (Dr. Mário Trigo) e até um psicólogo (Professor Carvalhaes).
Pausa para falar em João Havelange; considero-o um dos maiores dirigentes esportivos da história do Brasil e do Mundo. A transformação do futebol no negócio bilionário que é hoje teve nele seu principal articulador. Administrador brilhante, quase genial, eu diria. Infelizmente se deixou levar por outros interesses e acabou muito mal a sua trajetória, mas isto é outro papo. Fecho o parêntese.
Inteligente, Havelange foi provavelmente o primeiro a entender que os brasileiros tinham técnica para enfrentar qualquer time do mundo; o problema era a falta de condições físicas e psicológicas. Nossos jogadores, em sua esmagadora maioria, vinham do Brasil do Jeca Tatu; tinham focos dentários, doenças infecciosas e uma preguiça macunaímica para exercícios físicos. Mário Trigo arrancou dezenas de dentes podres, Hilton Gosling cuidou até da alimentação deles, o rigoroso Paulo Amaral deu-lhes um condicionamento privilegiado e Carvalhaes teve a tarefa de convencê-los que eles não eram a pátria de chuteiras; iam apenas jogar um campeonato de futebol. A descontração, dizem, era muito auxiliada por Mário Trigo que, além de bom dentista, era, segundo informações da época, um excelente contador de “causos” e anedotas.
Nova pausa para falar no ambiente da época. O Brasil não conseguia passar de uma espécie de “terceira força” do continente; os uruguaios eram bi-campeões do Mundo e os argentinos os donos da Copa América (então chamado “Sul-Americano”). Entre os argumentos que tentavam justificar os nossos consecutivos fracassos, chegou-se a levantar a hipótese que o mal era que jogadores negros ou mestiços não tinham equilíbrio emocional para disputar jogos decisivos (?). Coincidência ou não, o time que estreou na copa de 58 tinha apenas um negro, Didi (no caso porque o reserva dele, Moacir, também era negro). Em todas as outras posições do time, o escolhido era o que tinha a pele mais clara; isto deixou de fora , entre outros, Djalma Santos, Zito, Pelé, Garrincha e Vavá, que acabaram entrando ao longo do campeonato. Até hoje não se sabe se o motivo foi este mesmo ou é apenas mais uma teoria conspiratória, mas...
Sabendo dos traumas, Feola e seus colegas resolveram estruturar o time de forma a evitar sofrer gols, coisa muito pouco usada em uma época de futebol muito mais ofensivo. A qualidade do grupo era muito boa, e o Brasil montou uma defesa fortíssima, com o excelente goleiro Gilmar, uma dupla de zaga entrosada no Vasco (Bellini e Orlando), um super-craque na lateral esquerda (Nilton Santos) e um marcador implacável na direita (De Sordi). Os jogadores de meio-campo (Dino Sani, mais tarde substituído por Zito, e Didi) ajudavam sempre, e o ponta-esquerda Zagalo, dono de um fôlego invejável, ajudava na recomposição defensiva (muito antes deste termo entrar em moda).
O fato é que o Brasil estreou na fase de grupos enfiando 3x0 na Áustria, depois protagonizou contra os ingleses o primeiro 0x0 da história das Copas, e fechou com um 2x0 contra os soviéticos, na partida eu marcou a estreia de Pelé e Garrincha. Nas quartas de final (vale lembrar que o torneio, na época, tinha apenas 16 times), foi a vez do País de Gales; outro jogo duro, 1x0 com um golzinho chorado de Pelé quase no fim da partida. Quatro jogos, sete gols a favor e zero contra, uma marca totalmente fora do contexto da época. Só para ter uma ideia a França, nossa adversária na semifinal, tinha, nos mesmos quatro jogos, a marca de 15 gols a favor e 7 contra, incluindo um incrível 7x3 nos paraguaios, no seu jogo de estreia. Não por outra coisa este jogo foi anunciado como o duelo entre o alegre e ofensivo futebol dos franceses e a feroz retranca brasileira.
Na hora da verdade, o Brasil fez um gol logo de cara, mas o genial atacante francês Just Fontaine conseguiu, finalmente, vazar a meta brasileira e deixou tudo igual. O jogo tinha um leve predomínio do Brasil quando, próximo dos 30 minutos, um incidente mudou a historia da partida; numa dividida forte com Vavá, o zagueiro francês Jonquet fraturou a perna. Como não havia substituições, a França ficou com um a menos, e o pior é que seus jogadores de frente não tinham o menor cacoete de marcar. Não tendo como recompor a defesa, eles assistiram Pelé fazer três gols no segundo tempo e o Brasil chegar a uma vantagem de 5x1 (no finalzinho Piantoni ainda diminuiu, fechando o placar em 5x2). Uma goleada totalmente fora do contexto normal de um jogo que poderia ser bem mais difícil.
Na final o Brasil pegou o time sueco, que era muito mais fraco que o francês (e, dizem as más línguas, só chegou lá graças a “apitos caseiros” nos jogos contra União Soviética e Alemanha, que tinham equipes bem melhores). Além disto, tivemos finalmente a participação de Djalma Santos, que substituiu o esforçado De Sordi na lateral direita e deu um verdadeiro show de técnica em jogadas com Garrincha. Nem mesmo o surpreendente gol de Liedholm, aos quatro minutos de jogo, abalou os brasileiros, que viraram e golearam com facilidade.
Resumindo, o que passou à historia foi a seleção da ginga, do samba, das goleadas – que só aconteceram nos dois últimos jogos. Mas quem levou o Brasil àquela conquista foi muito mais a seleção do planejamento e da obediência tática.
Reflexão final; por algum motivo que eu não consigo entender, parece que o brasileiro prefere se orgulhar do improviso e do tal “jeitinho” do que ficar feliz com um projeto muito bem planejado e executado. Vá entender...
E quem quiser que conte outra!

terça-feira, 10 de abril de 2018

"Jornalistas livres". Livres de quê?

Da velha e tradicional série “perguntar não ofende”;
Um grupo bastante ativo na internet em defesa das ideias de Lula e do PT é um que se intitula “Jornalistas Livres”.
Fiquei sabendo da existência do grupo quando um bom amigo me repassou um artigo em que eles tentavam provar, usando umas estatísticas meio esquisitas, que a fuga em massa de venezuelanos para o Brasil é uma mentira, inventada provavelmente por aquela rede de TV cujo nome, assim como o do vilão de Harry Potter, não deve ser pronunciado (só vou dar uma dica; é xará de uma agua sanitária e de um biscoito muito popular). Quem quiser conferir está lá (ver https://www.facebook.com/jornalistaslivres/posts/702692683187945).
Confesso que não acreditei nem um pouquinho nesta história, mas entendo que cada um tem o direito de mostrar as coisas do seu jeito afinal, conforme diz o senador da República e filósofo ocasional Romário Farias, “Falar, até papagaio fala”.
A dúvida que se instalou em meu espírito refere-se ao nome do grupo, “Jornalistas Livres”. Livres de quê, exatamente? Então existem “Jornalistas Presos” e ninguém me contou nada? Até onde sei, no Brasil, isto aconteceu nos tempos da ditadura militar, de memória nem um pouco saudosa. Hoje, este tipo de perseguição política só acontece em países como Cuba, Coreia do Norte e outros – cujos regimes, por estranho que pareça, parecem gozar da simpatia dos tais “Jornalistas Livres”... Freud deve explicar. Eu não sei, nunca li Freud.
Enfim, quero deixar clara a minha posição em favor de todos os jornalistas livres do Brasil, seja qual for a merda que eles falem!
Que se publique merda, que se leia merda, e que cada um selecione a merda que lhe convém. Só não vale jogar merda na cara dos outros.
Egalité, Fraternité, Liberté e Merdé. É o recado aqui do Hervé (rimou!)
Tenho dito.

sábado, 17 de março de 2018

De Luther King a Marielle Franco; a luta negra demais continua

Da longa série “será que a gente tem que explicar tudo?”;
“Cada negro que for, mais um negro virá, para lutar, com sangue ou não, com uma canção, também se luta, irmão”.
Em 1967, Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli juntaram seus talentos e compuseram o “Tributo a Martin Luther King”, de onde tirei a frase acima (ver a soberba interpretação do Simona em https://www.youtube.com/watch?v=FH0Ws4Sw0ZE) . O brutal assassinato de Luther King, pouco mais de um ano depois, fez com que a canção virasse quase um hino à integração racial, cantado com fervor por todos os inimigos do racismo, entre os quais este que vos fala (então com 16 anos). Meio século depois, o estúpido crime contra a vereadora Marielle me trouxe tudo isto de volta.
Antes que alguém diga que milhares de pessoas são mortas todos os dias, gostaria de levantar um ponto; um assassinato politico tem outra dimensão. Claro que não sou insensível à violência urbana ou no campo, mas matar friamente alguém apenas porque ousa levantar a voz contra uma situação vigente é muito pior, pelo menos na minha visão. É um crime contra a liberdade de pensamento. E o pensamento é o que empurra a humanidade para frente.
Não concordo com as teses do PSOL, provavelmente jamais votaria nesta moça, mas tenho certeza que ela era sincera em tudo o que dizia e fazia. Costumo dizer que não existe a luta dos negros, das mulheres ou dos homossexuais; existe a luta pela melhora do mundo. Não vejo Martin Luther King como um herói da raça negra; é um herói da raça humana, à qual eu também pertenço, até prova em contrário. Em outras palavras, ele não melhorou a vida de um grupo, tornou o mundo melhor para todos. É claro que existem racistas até hoje, mas é uma espécie cada vez mais em extinção. A realidade vai acabar passando por cima deles, é questão de tempo..
Por pensar assim, fico chocado quando vejo gente fazendo piadas com o assassinato. E também com gente que tenta tirar proveito político da situação – como alguns que dizem que os que mataram Marielle são os mesmos que querem prender Lula. Sem comentários...
Resumindo, a justa luta de Marielle continua. Porque, conforme ensinava a mesma canção, “luta negra demais, é lutar pela paz, para sermos iguais”. A luta é pela paz, pela liberdade de expressão. E nesta luta negra demais, todos são irmãos e iguais – o que inclui até um sujeito idoso, branco, heterossexual, engenheiro, gremista, espírita e fã do capitalismo, que nem eu.
Espero que me entendam.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Reflexões sobre um aviso muito direto (ou; a triste história de um pastor de caranguejos)

A placa que ilustra este texto teria sido colocada por traficantes em uma favela do Rio de Janeiro. É um típico caso de “seria cômico, se não fosse trágico”. Seguramente os traficantes não estão preocupados com o meio ambiente, ou com a possibilidade do lixo acumulado produzir enchentes, estão apenas facilitando a organização dos seus negócios. E, conhecendo a indisciplina que caracteriza o brasileiro (e o carioca em especial), deixam bastante claro que, em caso de desobediência, o cara vai levar um tiro na mão. Nada muito violento (para os parâmetros deles, é claro), apenas uma lembrança para o resto da vida. Não é preciso dizer que a área está imaculadamente limpa.
Uma história puxa outra, e recordo o causo do japonês e do quebra-molas, que me foi contado por um amigo. Ele trabalhava em uma multinacional com sede no Japão. Um dia o “big boss” da empresa resolveu vir ao Rio de Janeiro conhecer a filial daqui, e coube a este meu amigo o trabalho de cicerone. O japa ficou hospedado no então Hotel Meridién, em Copacabana. De manhã cedo meu amigo passou por lá e foi levando o chefão para a fábrica, em Jacarepaguá. Como todos os estrangeiros que chegam pela primeira vez no Rio, o cara estava muito impressionado com as belezas da cidade, sempre maravilhosa.
O papo vinha tranquilo até que, próximo à fábrica, tiveram que reduzir a velocidade do carro para passar em um quebra-molas. Depois veio um segundo, um terceiro... até que o japonês não aguentou mais e perguntou porque colocavam aquilo no meio da rua. Meu amigo respondeu o óbvio; aquilo estava ali para obrigar os carros a reduzir a velocidade. Singelamente, o japonês perguntou se não era mais fácil colocar uma placa indicando a velocidade máxima. Neste momento meu amigo fingiu que não ouviu e tentou mudar de assunto. Como explicar o inexplicável?
O resumo da história é bastante triste, para nós todos; nenhum povo civilizado entende porque no Brasil as pessoas não conseguem ter o mínimo de disciplina, pensar o mínimo nos outros, obedecer às regras mais elementares. O reflexo deste comportamento nos nossos projetos é o absurdo aumento dos custos; é muito mais caro um quebra-molas do que uma placa, mas se ninguém obedece à placa... Esta desobediência obriga a controles pesados. E é por isto que temos leis complicadíssimas, fiscalização pesada, enfim, toda uma parafernália que se reflete em ineficiência e custos excessivos.
Lembro que uma vez, ao lidar com uma equipe extremamente rebelde, usei a expressão “pastor de caranguejos” para descrever o meu trabalho com eles. Eu me desgastava o tempo todo tentando levar adiante um projeto, enquanto cada um do time queria fazer do seu jeito. Se eu não consegui resolver o problema (e nenhum gerente no Brasil consegue, basta ver os nossos resultados), os traficantes deram um jeito bem objetivo; com um AR-15 na mão do gerente as pessoas subitamente se tornam educadas e dispostas a seguir as regras.
A pergunta é; será que tem que ser deste jeito? Talvez eu esteja viajando na maionese, mas me parece que o fato de uma percentagem significativa da população brasileira hoje apoiar ostensivamente a volta da ditadura militar tem a ver com isto. Particularmente, considero esta posição um retrocesso vergonhoso, mas o fato é que não aproveitamos os trinta anos de democracia que tivemos para aprender a debater com educação, conviver com civilidade e obedecer às regras. E quando o caos se instala, a quartelada aparece como uma solução. Quem não aprende por bem, acaba aprendendo por mal, já dizia a minha sábia avó, lá de Santa Maria da Boca do Monte.
Enfim, quem viver, verá.