terça-feira, 29 de maio de 2018

DISCORDAR É UMA COISA, AGREDIR É OUTRA. QUANDO É QUE VAMOS APRENDER?

Um episódio ocorrido em uma greve é uma das lembranças mais vivas que tenho dos meus quase quarenta anos de Petrobras. O ano era 1991, o presidente era Fernando Collor e nós, funcionários da Petrobras, carregávamos a imagem de vilões do Brasil – os alvos preferidos do então conhecido como “caçador de marajás”, se é que alguém ainda se lembra disto.
Só que a vida real era muito diferente, nosso poder aquisitivo definhava e em setembro, mês do dissidio, recebemos uma proposta indecorosa de 30% de aumento (a inflação já passava de 100% ao ano).
Entramos em uma greve difícil, impopular. E foi no final de um dia muito desgastante, numa assembleia em frente ao EDISE, no centro do Rio de Janeiro, que um carro da Rede Globo estacionou e dele desceu uma equipe de reportagem.
Na época, assim como hoje, havia entre nós pessoas que responsabilizavam a Globo por tudo de mal que existia no País (eu não concordo muito com esta tese, mas esta discussão fica para outro dia). Os ânimos já estavam exaltados e alguns colegas começaram a ensaiar uma vaia para cima deles.
Neste momento, um colega do sindicato tomou o microfone do carro de som e falou; “Pessoal, ninguém aqui gosta da Globo, mas estes caras são trabalhadores como nós. Vamos deixar eles trabalharem”. Não lembro se as palavras foram exatamente estas, mas poucas vezes na vida vi alguém ter uma atitude tão inteligente e oportuna. Ninguém mais incomodou os caras, acho até que alguns deram entrevista e tudo acabou em paz.
Hoje, quando vejo a covardia feita com alguns jornalistas, principalmente com mulheres (desculpem, mas sou do tempo do cavalheirismo explícito), não posso deixar de lembrar este episódio.
E a conclusão, triste, é que andamos muito para trás. O brasileiro simpático e cordial sumiu (na verdade, não sei se ele realmente existiu algum dia ou se isto não passa de uma crendice popular, como o Saci Pererê ou algo assim). Viramos trogloditas. Trabalhador contra trabalhador, povo contra povo. E o pedido que alguns fazem por uma intervenção militar é a “cereja” deste bolo fecal; é a confissão de fracasso de um povo, significa que não conseguimos conviver com nós mesmos, não sabemos lidar com a liberdade nem com a diversidade de opiniões, preferimos pedir que alguém tome conta da gente. A única perspectiva boa é que tenho certeza que nem os militares vão querer descascar este abacaxi.
Enfim, não sei onde isto vai parar. Mas o sentimento é de derrota. Muito pior que os 7x1.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Há exatos sessenta anos o Brasil ganhou a sua primeira Copa do Mundo com planejamento meticuloso e obediência tática. Alguém já te contou esta historia?


Sim, você já ouviu o seu avô dizendo que o Brasil ganhou a Copa de 58 sambando com a bola no pé – tinha até uma musiquinha ufanista da época que dizia isto. Um time que jogava prá frente, e foi o único a fazer cinco gols em uma final de copa. A parte dos cinco gols na final é verdadeira, mas a história toda não é bem assim. Em ano de copa, aproveito para contar este causo na sua versão verdadeira, que é bem diferente da que foi consagrada. De certa forma posso dizer que fui testemunha ocular, afinal, tinha seis anos na época e sempre fui fanático por futebol.
A história, na verdade, começa algum tempo antes. Só para ter uma ideia do nível de amadorismo dos nossos cartolas de então, na Copa de 1954, na Suíça, o último jogo do Brasil na fase de grupos foi contra a Iugoslávia. O empate classificava os dois times – só que ninguém na delegação brasileira sabia disto. O resultado é que o jogo foi 1x1 e o nosso time se esforçou até o final buscando uma vitória que era totalmente desnecessária. Diz a lenda que o capitão iugoslavo Mitic, que arranhava alguma coisa em português, sem entender porque os brasileiros estavam se matando em campo, começou a dizer, baixinho, para quem passava perto dele; “empate é bom... empate é bom...”. Foi só no vestiário que o time ficou sabendo que estava classificado. No jogo seguinte, contra a poderosa Hungria de Puskas, o desgaste inútil, aliado à qualidade do adversário, resultou numa derrota por 4x2 e eliminação.
O resultado deste vexame, somado ao de 1950, já cantado em prosa e verso, fez com que a então CBD (Confederação Brasileira de Desportos – ainda não havia a CBF), tomasse providências interessantes. O recém-empossado presidente João Havelange resolveu que, para a Copa de 58, não teríamos apenas um treinador cuidando de tudo, como era o normal na época; formou-se uma comissão, incluindo, além do técnico Vicente Feola, um preparador físico (Paulo Amaral), um médico (Dr. Hilton Gosling), um dentista (Dr. Mário Trigo) e até um psicólogo (Professor Carvalhaes).
Pausa para falar em João Havelange; considero-o um dos maiores dirigentes esportivos da história do Brasil e do Mundo. A transformação do futebol no negócio bilionário que é hoje teve nele seu principal articulador. Administrador brilhante, quase genial, eu diria. Infelizmente se deixou levar por outros interesses e acabou muito mal a sua trajetória, mas isto é outro papo. Fecho o parêntese.
Inteligente, Havelange foi provavelmente o primeiro a entender que os brasileiros tinham técnica para enfrentar qualquer time do mundo; o problema era a falta de condições físicas e psicológicas. Nossos jogadores, em sua esmagadora maioria, vinham do Brasil do Jeca Tatu; tinham focos dentários, doenças infecciosas e uma preguiça macunaímica para exercícios físicos. Mário Trigo arrancou dezenas de dentes podres, Hilton Gosling cuidou até da alimentação deles, o rigoroso Paulo Amaral deu-lhes um condicionamento privilegiado e Carvalhaes teve a tarefa de convencê-los que eles não eram a pátria de chuteiras; iam apenas jogar um campeonato de futebol. A descontração, dizem, era muito auxiliada por Mário Trigo que, além de bom dentista, era, segundo informações da época, um excelente contador de “causos” e anedotas.
Nova pausa para falar no ambiente da época. O Brasil não conseguia passar de uma espécie de “terceira força” do continente; os uruguaios eram bi-campeões do Mundo e os argentinos os donos da Copa América (então chamado “Sul-Americano”). Entre os argumentos que tentavam justificar os nossos consecutivos fracassos, chegou-se a levantar a hipótese que o mal era que jogadores negros ou mestiços não tinham equilíbrio emocional para disputar jogos decisivos (?). Coincidência ou não, o time que estreou na copa de 58 tinha apenas um negro, Didi (no caso porque o reserva dele, Moacir, também era negro). Em todas as outras posições do time, o escolhido era o que tinha a pele mais clara; isto deixou de fora , entre outros, Djalma Santos, Zito, Pelé, Garrincha e Vavá, que acabaram entrando ao longo do campeonato. Até hoje não se sabe se o motivo foi este mesmo ou é apenas mais uma teoria conspiratória, mas...
Sabendo dos traumas, Feola e seus colegas resolveram estruturar o time de forma a evitar sofrer gols, coisa muito pouco usada em uma época de futebol muito mais ofensivo. A qualidade do grupo era muito boa, e o Brasil montou uma defesa fortíssima, com o excelente goleiro Gilmar, uma dupla de zaga entrosada no Vasco (Bellini e Orlando), um super-craque na lateral esquerda (Nilton Santos) e um marcador implacável na direita (De Sordi). Os jogadores de meio-campo (Dino Sani, mais tarde substituído por Zito, e Didi) ajudavam sempre, e o ponta-esquerda Zagalo, dono de um fôlego invejável, ajudava na recomposição defensiva (muito antes deste termo entrar em moda).
O fato é que o Brasil estreou na fase de grupos enfiando 3x0 na Áustria, depois protagonizou contra os ingleses o primeiro 0x0 da história das Copas, e fechou com um 2x0 contra os soviéticos, na partida eu marcou a estreia de Pelé e Garrincha. Nas quartas de final (vale lembrar que o torneio, na época, tinha apenas 16 times), foi a vez do País de Gales; outro jogo duro, 1x0 com um golzinho chorado de Pelé quase no fim da partida. Quatro jogos, sete gols a favor e zero contra, uma marca totalmente fora do contexto da época. Só para ter uma ideia a França, nossa adversária na semifinal, tinha, nos mesmos quatro jogos, a marca de 15 gols a favor e 7 contra, incluindo um incrível 7x3 nos paraguaios, no seu jogo de estreia. Não por outra coisa este jogo foi anunciado como o duelo entre o alegre e ofensivo futebol dos franceses e a feroz retranca brasileira.
Na hora da verdade, o Brasil fez um gol logo de cara, mas o genial atacante francês Just Fontaine conseguiu, finalmente, vazar a meta brasileira e deixou tudo igual. O jogo tinha um leve predomínio do Brasil quando, próximo dos 30 minutos, um incidente mudou a historia da partida; numa dividida forte com Vavá, o zagueiro francês Jonquet fraturou a perna. Como não havia substituições, a França ficou com um a menos, e o pior é que seus jogadores de frente não tinham o menor cacoete de marcar. Não tendo como recompor a defesa, eles assistiram Pelé fazer três gols no segundo tempo e o Brasil chegar a uma vantagem de 5x1 (no finalzinho Piantoni ainda diminuiu, fechando o placar em 5x2). Uma goleada totalmente fora do contexto normal de um jogo que poderia ser bem mais difícil.
Na final o Brasil pegou o time sueco, que era muito mais fraco que o francês (e, dizem as más línguas, só chegou lá graças a “apitos caseiros” nos jogos contra União Soviética e Alemanha, que tinham equipes bem melhores). Além disto, tivemos finalmente a participação de Djalma Santos, que substituiu o esforçado De Sordi na lateral direita e deu um verdadeiro show de técnica em jogadas com Garrincha. Nem mesmo o surpreendente gol de Liedholm, aos quatro minutos de jogo, abalou os brasileiros, que viraram e golearam com facilidade.
Resumindo, o que passou à historia foi a seleção da ginga, do samba, das goleadas – que só aconteceram nos dois últimos jogos. Mas quem levou o Brasil àquela conquista foi muito mais a seleção do planejamento e da obediência tática.
Reflexão final; por algum motivo que eu não consigo entender, parece que o brasileiro prefere se orgulhar do improviso e do tal “jeitinho” do que ficar feliz com um projeto muito bem planejado e executado. Vá entender...
E quem quiser que conte outra!

terça-feira, 10 de abril de 2018

"Jornalistas livres". Livres de quê?

Da velha e tradicional série “perguntar não ofende”;
Um grupo bastante ativo na internet em defesa das ideias de Lula e do PT é um que se intitula “Jornalistas Livres”.
Fiquei sabendo da existência do grupo quando um bom amigo me repassou um artigo em que eles tentavam provar, usando umas estatísticas meio esquisitas, que a fuga em massa de venezuelanos para o Brasil é uma mentira, inventada provavelmente por aquela rede de TV cujo nome, assim como o do vilão de Harry Potter, não deve ser pronunciado (só vou dar uma dica; é xará de uma agua sanitária e de um biscoito muito popular). Quem quiser conferir está lá (ver https://www.facebook.com/jornalistaslivres/posts/702692683187945).
Confesso que não acreditei nem um pouquinho nesta história, mas entendo que cada um tem o direito de mostrar as coisas do seu jeito afinal, conforme diz o senador da República e filósofo ocasional Romário Farias, “Falar, até papagaio fala”.
A dúvida que se instalou em meu espírito refere-se ao nome do grupo, “Jornalistas Livres”. Livres de quê, exatamente? Então existem “Jornalistas Presos” e ninguém me contou nada? Até onde sei, no Brasil, isto aconteceu nos tempos da ditadura militar, de memória nem um pouco saudosa. Hoje, este tipo de perseguição política só acontece em países como Cuba, Coreia do Norte e outros – cujos regimes, por estranho que pareça, parecem gozar da simpatia dos tais “Jornalistas Livres”... Freud deve explicar. Eu não sei, nunca li Freud.
Enfim, quero deixar clara a minha posição em favor de todos os jornalistas livres do Brasil, seja qual for a merda que eles falem!
Que se publique merda, que se leia merda, e que cada um selecione a merda que lhe convém. Só não vale jogar merda na cara dos outros.
Egalité, Fraternité, Liberté e Merdé. É o recado aqui do Hervé (rimou!)
Tenho dito.

sábado, 17 de março de 2018

De Luther King a Marielle Franco; a luta negra demais continua

Da longa série “será que a gente tem que explicar tudo?”;
“Cada negro que for, mais um negro virá, para lutar, com sangue ou não, com uma canção, também se luta, irmão”.
Em 1967, Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli juntaram seus talentos e compuseram o “Tributo a Martin Luther King”, de onde tirei a frase acima (ver a soberba interpretação do Simona em https://www.youtube.com/watch?v=FH0Ws4Sw0ZE) . O brutal assassinato de Luther King, pouco mais de um ano depois, fez com que a canção virasse quase um hino à integração racial, cantado com fervor por todos os inimigos do racismo, entre os quais este que vos fala (então com 16 anos). Meio século depois, o estúpido crime contra a vereadora Marielle me trouxe tudo isto de volta.
Antes que alguém diga que milhares de pessoas são mortas todos os dias, gostaria de levantar um ponto; um assassinato politico tem outra dimensão. Claro que não sou insensível à violência urbana ou no campo, mas matar friamente alguém apenas porque ousa levantar a voz contra uma situação vigente é muito pior, pelo menos na minha visão. É um crime contra a liberdade de pensamento. E o pensamento é o que empurra a humanidade para frente.
Não concordo com as teses do PSOL, provavelmente jamais votaria nesta moça, mas tenho certeza que ela era sincera em tudo o que dizia e fazia. Costumo dizer que não existe a luta dos negros, das mulheres ou dos homossexuais; existe a luta pela melhora do mundo. Não vejo Martin Luther King como um herói da raça negra; é um herói da raça humana, à qual eu também pertenço, até prova em contrário. Em outras palavras, ele não melhorou a vida de um grupo, tornou o mundo melhor para todos. É claro que existem racistas até hoje, mas é uma espécie cada vez mais em extinção. A realidade vai acabar passando por cima deles, é questão de tempo..
Por pensar assim, fico chocado quando vejo gente fazendo piadas com o assassinato. E também com gente que tenta tirar proveito político da situação – como alguns que dizem que os que mataram Marielle são os mesmos que querem prender Lula. Sem comentários...
Resumindo, a justa luta de Marielle continua. Porque, conforme ensinava a mesma canção, “luta negra demais, é lutar pela paz, para sermos iguais”. A luta é pela paz, pela liberdade de expressão. E nesta luta negra demais, todos são irmãos e iguais – o que inclui até um sujeito idoso, branco, heterossexual, engenheiro, gremista, espírita e fã do capitalismo, que nem eu.
Espero que me entendam.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Reflexões sobre um aviso muito direto (ou; a triste história de um pastor de caranguejos)

A placa que ilustra este texto teria sido colocada por traficantes em uma favela do Rio de Janeiro. É um típico caso de “seria cômico, se não fosse trágico”. Seguramente os traficantes não estão preocupados com o meio ambiente, ou com a possibilidade do lixo acumulado produzir enchentes, estão apenas facilitando a organização dos seus negócios. E, conhecendo a indisciplina que caracteriza o brasileiro (e o carioca em especial), deixam bastante claro que, em caso de desobediência, o cara vai levar um tiro na mão. Nada muito violento (para os parâmetros deles, é claro), apenas uma lembrança para o resto da vida. Não é preciso dizer que a área está imaculadamente limpa.
Uma história puxa outra, e recordo o causo do japonês e do quebra-molas, que me foi contado por um amigo. Ele trabalhava em uma multinacional com sede no Japão. Um dia o “big boss” da empresa resolveu vir ao Rio de Janeiro conhecer a filial daqui, e coube a este meu amigo o trabalho de cicerone. O japa ficou hospedado no então Hotel Meridién, em Copacabana. De manhã cedo meu amigo passou por lá e foi levando o chefão para a fábrica, em Jacarepaguá. Como todos os estrangeiros que chegam pela primeira vez no Rio, o cara estava muito impressionado com as belezas da cidade, sempre maravilhosa.
O papo vinha tranquilo até que, próximo à fábrica, tiveram que reduzir a velocidade do carro para passar em um quebra-molas. Depois veio um segundo, um terceiro... até que o japonês não aguentou mais e perguntou porque colocavam aquilo no meio da rua. Meu amigo respondeu o óbvio; aquilo estava ali para obrigar os carros a reduzir a velocidade. Singelamente, o japonês perguntou se não era mais fácil colocar uma placa indicando a velocidade máxima. Neste momento meu amigo fingiu que não ouviu e tentou mudar de assunto. Como explicar o inexplicável?
O resumo da história é bastante triste, para nós todos; nenhum povo civilizado entende porque no Brasil as pessoas não conseguem ter o mínimo de disciplina, pensar o mínimo nos outros, obedecer às regras mais elementares. O reflexo deste comportamento nos nossos projetos é o absurdo aumento dos custos; é muito mais caro um quebra-molas do que uma placa, mas se ninguém obedece à placa... Esta desobediência obriga a controles pesados. E é por isto que temos leis complicadíssimas, fiscalização pesada, enfim, toda uma parafernália que se reflete em ineficiência e custos excessivos.
Lembro que uma vez, ao lidar com uma equipe extremamente rebelde, usei a expressão “pastor de caranguejos” para descrever o meu trabalho com eles. Eu me desgastava o tempo todo tentando levar adiante um projeto, enquanto cada um do time queria fazer do seu jeito. Se eu não consegui resolver o problema (e nenhum gerente no Brasil consegue, basta ver os nossos resultados), os traficantes deram um jeito bem objetivo; com um AR-15 na mão do gerente as pessoas subitamente se tornam educadas e dispostas a seguir as regras.
A pergunta é; será que tem que ser deste jeito? Talvez eu esteja viajando na maionese, mas me parece que o fato de uma percentagem significativa da população brasileira hoje apoiar ostensivamente a volta da ditadura militar tem a ver com isto. Particularmente, considero esta posição um retrocesso vergonhoso, mas o fato é que não aproveitamos os trinta anos de democracia que tivemos para aprender a debater com educação, conviver com civilidade e obedecer às regras. E quando o caos se instala, a quartelada aparece como uma solução. Quem não aprende por bem, acaba aprendendo por mal, já dizia a minha sábia avó, lá de Santa Maria da Boca do Monte.
Enfim, quem viver, verá.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A liturgia dos Lulistas

Da série “Rir é o melhor remédio”;
Já que os fiéis seguidores de Lula prometeram ficar em frente ao tribunal em Porto Alegre no dia 24, e sei que o calor lá não dá moleza nesta época do ano, resolvi sugerir alguma coisa para eles fazerem para passar o tempo. Já que o “Lulismo” cada vez mais se assemelha a uma religião fundamentalista (ou crê, ou morre), sugeri uma liturgia, tipo uma missa campal. Obviamente, teremos que ter um cumpanheiro Líder, que vai fazer as vezes do sacerdote. A coisa ficou mais ou menos assim;
Parte 1) Oração de Abertura;
(Sacerdote, ou Cumpanheiro Líder); Creio em Lula, o que veio nos salvar, a alma mais pura, casta e honesta deste País;
(Todos); Eu acredito!
S – Eu acredito nas palestras de 200 mil dólares!
T (de joelhos) – Eu acredito! Eu acredito!
S – Eu acredito que, mesmo sendo o Presidente da República, Nosso Guia nunca soube nem se envolveu em nenhum dos escândalos de corrupção que aconteciam à sua volta!
T – Eu acredito! Eu acredito!
S – Acredito que Lulinha, herdeiro do Sagrado Sangue do Nosso Mestre, enriqueceu porque é o Ronaldinho Gaúcho dos negócios!
T – Eu acredito! Eu acredito!
Parte 2) Das maldições;
S – Morte ao Juiz Sérgio Moro, e a todo judiciário brasileiro, que ousou julgar Nosso Guia e, pior que isto, agora quer condená-Lo!
T (com cara de mau e dedo em riste) – Morte ao Judiciário! Morte ao judiciário!
S – Morte aos companheiros traidores que apontaram vários fatos que contrariaram a Santa Inocência de Nosso Guia!
T – Morte aos fatos! Morte aos fatos!
S – Que a santa aura de Nosso Guia me impeça de ouvir qualquer coisa inventada pelo demônio, pela imprensa golpista ou pela tal de zelite e me faça raciocinar e duvidar d’Ele!
T – Morte ao raciocínio! Morte ao raciocínio!
Parte 3) Das bênçãos e cântico final (inspirado numa linda canção do Chico Buarque);
S – Nosso Guia sobreviverá a tudo e todos, e nos trará a bonança no Seu Sagrado terceiro mandato. E, ao contrário da cumpanheira Dilma, aquela que Ele mal conhecia e nunca apoiou e que só fez merda, vai trazer o País de volta ao caminho certo. Em Lula, com Lula e por Lula!
T (de joelhos) – Santo! Santo! Santo!
S – Cantemos todos em coro;
T – Ai esta terra ainda irá cumprir sua sina bela / ainda irá tornar-se / uma enorme Venezuela!
Todos; Amém!
(Repetir esta liturgia 400 vezes, ou até acabar o julgamento, o que vier primeiro).
Se alguém ficar muito chateado comigo, repito uma frase do genial humorista Jaguar, do Pasquim, em plena ditadura militar; “Falando sério, a seriedade é anti-humana. O nazismo, por exemplo, era sério pacas”.
Abraços

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Viajando na maionese – como uma inocente piadinha pode nos levar a uma reflexão pesada sobre projetos, crenças e resultados

Entre muitas mudanças significativas que a sociedade viveu a partir da segunda metade do século XX, uma das mais profundas foi a chamada revolução da sexualidade. É incrível verificar que, há pouco mais de meio século, vivíamos em um mundo em que as moças “de família” casavam virgens, não havia divórcio, o homossexualismo era visto como uma aberração e otras cositas más. No novo contexto da liberação sexual, o ser humano literalmente se lambuzou, e surgiu a piada (com certo fundo de verdade, como ocorre com todas as boas piadas) de que os investimentos na área médica estavam sendo direcionados muito mais para a correção de disfunção erétil dos homens e melhoria estética das mulheres do que para a cura do mal de Alzheimer, por exemplo. O que levava à conclusão que, em alguns anos, teríamos uma geração em que os velhinhos teriam o pinto duro, as velhinhas os peitos e glúteos firmes, mas ninguém mais saberia prá que serve isto tudo. Hahaha.
Por incrível que possa parecer, esta inocente piadinha pode nos levar a reflexões bem mais profundas. Afinal, conforme digo sempre, projeto significa investir hoje para receber amanhã. E isto é o que torna o gerenciamento de projetos tão difícil; afinal, você tem que convencer a equipe, o cliente e todos os stakeholders que o sofrimento que estamos passando hoje vai valer a pena. Isto vale para qualquer projeto, desde a reforma do banheiro de casa até a construção de uma plataforma de petróleo. Matematicamente é o tal de VPL, mas, na vida real, a coisa é bem mais complicada.
E é justamente nesta hora que a cultura e as crenças se tornam importantes. A piadinha acima resume uma crença; é preferível aumentar o prazer sexual que se preocupar com o futuro do cérebro. Se levarmos esta reflexão adiante, esta é uma visão hedonista; satisfação agora, e o futuro que se exploda, ou seja, exatamente o inverso da receita do projeto de sucesso. Talvez isto ajude a entender o fracasso de quase todos os grandes projetos brasileiros; não estamos preocupados com o longo prazo, todo mundo quer é se divertir agora. Para quem gosta de contextos históricos, esta crença deve ter sido herdada dos desterrados que vinham para cá com o objetivo de encher os bolsos e arrumar um jeito de voltar para Portugal. Bem diferente da colonização americana, por exemplo, liderada por famílias que sofriam perseguições religiosas e atravessaram o oceano para construir um novo país. É uma explicação simplória para a diferença de nível entre os dois países (que têm mais ou menos a mesma idade), mas não deixa de ter sentido.
Trazendo toda esta historia para um “case” que eu conheço bem demais, acho realmente impressionante que algumas pessoas atribuam os problemas que a Petrobras atravessa hoje aos seus gestores atuais. Numa empresa do tamanho da Petrobras, posso garantir para vocês, as decisões levam sempre algum tempo até se refletirem em fatos reais. É a velha diferença entre dirigir um transatlântico e uma lancha. Citando alguns exemplos que eu vivi lá dentro (onde trabalhei de 1976 até 2014), a liderança que a empresa alcançou em tecnologia offshore no início dos anos 2000 começou com um forte programa de capacitação implantado ainda na época dos militares, no final dos anos 70; já os desastres e vazamentos catastróficos que estouraram na mão de Reichstul, no final do século XX (REPAR, baía da Guanabara, afundamento da P-36), foram fruto de uma política suicida de redução de custos que começou nos governos Sarney e Collor. Hoje, a empresa vive a ressaca de uma política igualmente suicida de investimentos em projetos conduzidos num viés totalmente político, que levaram o endividamento a níveis estratosféricos e não deram retorno algum (como o COMPERJ, onde foram enterrados cerca de 15 bilhões de reais). Num contexto muito semelhante, as décadas perdidas de 80 e 90 do século passado foram geradas por decisões erradas da ditadura militar, principalmente em função dos choques de petróleo (quando muitos dos que hoje criticam Lula só faltaram dizer que aquilo era “uma marolinha”...).
Resumindo, o que temos no Brasil, desde sempre, independente de quem ocupe o poder, é esta característica cultural de maximizar o hoje e esquecer o amanhã. Fazendo uma frase, eu diria que o Brasil vai ser o País do futuro no dia em que a gente resolver pensar seriamente no futuro. Ou algo parecido. A reforma da Previdência é um bom exemplo; salta aos olhos a necessidade de implementar este projeto, o mundo inteiro já fez, só que na terra brasilis ninguém quer abrir mão do que tem hoje. É óbvio que quando o barco afundar vai sobrar prá todo mundo, mas alguém está preocupado com isto? Afinal, carnaval está chegando e... vida que segue.