segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A PRAGA DA TEORIA CONSPIRATÓRIA E SEUS PREJUÍZOS PARA O BRASIL

Pessoal, lá vou eu falar de futebol. De novo. Mas meu objetivo aqui é ressaltar é um fator cultural que, na minha visão, prejudica o Brasil em todas as áreas; a nossa obsessão por teorias conspiratórias.
Gremista de fé que sou, perdi ontem 90 minutos desta reencarnação assistindo ao jogo do meu time contra o Bahia. Para quem não sabe, o Grêmio era, até este jogo, o mais próximo perseguidor do líder Corinthians, e, provavelmente, o time com mais condições de tirar o título deste ano dos corintianos.
Pois ocorreu que o Grêmio perdeu por 1x0, graças a um pênalti controverso marcado pelo árbitro no último minuto do jogo.
Na internet hoje, pelo menos 90% (a estatística é minha) dos “internautas” que comentam nos principais sites de esporte falam, com absoluta certeza, que o árbitro faz parte da “máfia do apito amigo”, destinada a dar o título ao Corinthians.
Pessoal; sou torcedor fanático do Grêmio, mas este “fanatismo” não é capaz de cegar minha capacidade de raciocínio na hora de ver e entender um jogo de futebol. Partindo-se do princípio que havia mesmo má intenção por parte do árbitro, cabem algumas perguntas;
1) Porque ele esperou o último minuto do jogo para marcar o pênalti? Houve lances de choque na área do Grêmio muito antes disto. Se ele quisesse...
2) Na verdade, o lance só aconteceu porque o time do Grêmio perdeu uma bola boba no meio do campo nos últimos segundos da partida. Se alguém tivesse dado um bico para a lateral o jogo ia acabar ali mesmo. O juiz sabia que isto ia acontecer?
3) Na metade do segundo tempo o Grêmio chutou uma bola na trave do Bahia, em um lance totalmente normal. Ele iria anular o gol?
4) Pelo menos duas vezes durante o jogo Jael, o centroavante neandertal escalado pelo técnico do Grêmio, deixou acintosamente o cotovelo na cara dos adversários. Se o objetivo do juiz era prejudicar o Grêmio, porque não aproveitou para expulsá-lo? (Tudo bem que a diferença de produtividade entre o Jael e um cone é discutível, mas isto é apenas piadinha irônica de um torcedor irritado com a derrota).
Resumindo, o que é preciso entender é que o Grêmio não jogou nada, foi mal escalado e fez um jogo parelho com um dos piores times do campeonato. Jogos parelhos são decididos em detalhes. E um lance duvidoso na área, no finalzinho do jogo, pode ser interpretado pelo juiz de qualquer jeito. Basta dizer que até agora, duzentos “replays” depois, ainda não há consenso entre os comentaristas da TV.
O grande problema é que nós, brasileiros, levamos estas teorias conspiratórias para todas as áreas, por mais estapafúrdias que sejam. No futebol, a mais famosa envolve a suposta “entrega” da final da Copa de 98 para os franceses. Mais uma vez; um simples raciocínio lógico nos diz que nenhum jogador do mundo entregaria uma final de Copa, por dinheiro algum. E no grupo existiam jogadores como Dunga, Leonardo, Cafú, César Sampaio (só para citar alguns), todos cidadãos acima de qualquer suspeita. Só que o imaginário popular é tão forte que até pessoas que nem gostam de futebol “sabem” que aquele jogo foi entregue. Uma vez uma aluna chegou a discutir comigo em sala de aula porque dei este exemplo. Ela me olhou como se eu fosse o maior otário do mundo e despejou; “Ora, todo mundo sabe que este jogo foi comprado!”. E quando eu citei os nomes dos jogadores, ela me fulminou de vez; “eu não entendo nada de futebol, não adianta vir com esta conversa. Este jogo foi comprado, eu sei e todo mundo sabe!”. O jeito foi engolir em seco e prosseguir a aula... Afinal, tentar argumentar com pessoas que têm “certezas pétreas” pode ser perigoso.
Enfim, este é um problema que acontece todas as vezes que se tentar discutir seriamente qualquer coisa no Brasil. Logo vem alguém que “garante” que o Sérgio Moro foi treinado pelo FBI para acabar com a economia brasileira, que o resultado da urna eletrônica é manipulado pela rede Globo, que os incas venusianos já estão na Terra e o Trump é um deles, etc...
Não vou tentar entender este fenômeno, mas o fato é que isto atrapalha o desenvolvimento do Brasil. Assim como atribuir a derrota ao juiz ajuda a mascarar os problemas verdadeiros que o time do Grêmio vem enfrentando nos últimos jogos, depois de ter jogado o melhor futebol do Brasil durante um bom tempo. Na vida real, temos um tempo de mudanças radicais, onde “certezas pétreas” são um obstáculo quase intransponível para o progresso.
Fechando com poesia, fico com as palavras sábias de Caetano Veloso; “ou feia ou bonita, ninguém acredita, na vida real”. É isto aí. Enquanto a gente preferir viver na teoria conspiratória, a vida real só vai piorar.
Até a próxima.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Desconstruindo Maquiavel - uma velha história oriental (falsa) sobre chefes e líderes

Um dos meus passatempos de aposentado é inventar histórias e dizer que são fábulas orientais milenares, para ver se obtenho alguma credibilidade. Coisas de um velho meio doido e, no momento, profundamente mal humorado com a eliminação do Grêmio na Copa do Brasil. Meu personagem preferido é o mestre Bahgdavi Tunda, um homem santo, sábio, mas que não foi dotado da infinita paciência dos mestres orientais – na verdade, é capaz de respostas bem malcriadas quando está de mau humor, principalmente quando alguém pergunta sobre a origem de seu santo nome.
Apresentado o personagem, vamos à historinha.
Bahgdavi Tunda, o Mestre, estava bastante aborrecido com um de seus discípulos, que resolveu se apaixonar pelas ideias de Maquiavel. E um dia perdeu definitivamente a paciência quando o discípulo interrompeu uma de suas aulas sobre liderança e motivação para dizer que “Para um líder, é melhor ser temido do que amado, porque quem te ama pode te trair, mas quem te teme nunca vai te trair”. Reconhecendo a frase do Príncipe, Bahgdavi Tunda deu uma resposta que até hoje é lembrada;
- “Gafanhoto, meu filho, vou te ensinar alguma coisa sobre liderança, traição, medo, respeito e, principalmente, obtenção de resultados.
Basicamente, existem duas formas de alguém exercer a autoridade sobre um grupo; vou chama-los de ‘chefe’ e ‘líder’.
O chefe é aquele que não chegou onde está por mérito próprio, e sabe muito bem disto. Por isto sua maior preocupação na vida é manter-se no cargo. Por conta desta fragilidade, usa o poder como arma, e intimida a equipe. Ele dá ordens, não aceita sugestões nem discordâncias. A equipe o obedece, é claro; mas as tarefas são cumpridas com choro e ranger de dentes, e o resultado final sempre é ruim.
O líder é forte; sabe que alcançou o lugar onde está por competência e confia que seu trabalho pode leva-lo ainda mais longe. Por isto, quando a missão lhe é dada, procura explicar para os seus subordinados o que deve ser feito, discute com eles a melhor forma de executar as tarefas e acompanha atentamente o desenvolvimento do trabalho, preocupando-se com o desempenho de cada um e estando sempre pronto a apoiar os que fraquejam e elogiar os que atingem os objetivos, tudo isto sem perder o bom humor, muito menos a autoridade. A equipe trabalha motivada, e o resultado costuma ser muito bom.
Assim, gafanhoto, sua pequena anta, diga para o seu ridículo ‘Príncipe’ que as palavras dele se aplicam aos maus chefes; se o maior objetivo de sua vida medíocre é agarrar-se ao cargo que ocupa, tudo bem, faça tudo para ser temido e odiado. Mas nunca esqueça que, no dia em que cair, vai cair de quatro. (Nota do autor; conhecendo o temperamento de Bhagdavi Tunda – afinal, ele é um personagem criado por mim - tenho certeza que neste momento ele teve alguns pensamentos profanos e se sentiu tentado a levar adiante a digressão sobre o que acontece quando um cara odiado por todos cai de quatro. Felizmente ele se controlou a tempo e concluiu o raciocínio brilhante). Agora, se você quer realmente fazer um grande trabalho, se o seu objetivo é deixar o mundo melhor do que ele é hoje, se você quer ser feliz e fazer os outros felizes, então trate todos com respeito e humildade, seja firme sem nunca ser autoritário, respeite e se faça respeitar, e, acima de tudo, busque sempre o grande resultado. Pode ser que você tropece, pode ser que alguém algum dia te derrube; mas mesmo os tropeços de um justo acabam servindo como lições para que ele volte sempre melhor.”
E mais não disse, nem lhe foi perguntado.
Grande Mestre Bahgdavi Tunda! Qualquer hora volto para contar outro “causo” dele.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Você sabe a diferença entre educação e treinamento?

Existe, no mercado brasileiro, uma confusão muito grande entre os termos “educação” e “treinamento”. Já fiz esta pergunta para muitas turmas de MBA, e vejo que é difícil o entendimento correto da questão.
Fiel ao meu espírito de “velhinho metido a engraçadinho”, criei uma piada para ilustrar a resposta. A história é a seguinte; vamos supor que você tenha uma filha na faixa de dez anos de idade. Pois bem, um dia a sua filhinha chega em casa e diz que a escola vai começar a dar aulas de educação sexual. Entendo que, se você não for um ogro completo, vai gostar da ideia; afinal, vivemos em uma sociedade altamente erotizada, as crianças têm acesso a muito mais coisas do que antigamente, e a própria vida sexual começa bem mais cedo, portanto quanto mais informação melhor. É claro que você vai procurar se informar direito sobre o que vai ser proposto mas, de um modo geral, a ideia de educação sexual na escola é interessante. Agora imagine a sua querida filhinha chegando em casa e dizendo; papai, hoje estou muito cansada, tivemos um treinamento sexual na escola... Seguramente, não é uma perspectiva interessante, rsrsrs.
Piadinhas a parte, acho que é preciso deixar bem claro este ponto antes de qualquer discussão sobre o assunto. Escrevi recentemente um artigo sobre o “professor ideal” (ver ) e, entre os diversos comentários que recebi, alguns falavam sobre o problema da “interatividade”, ou seja, o aluno também precisa fazer a sua parte. E é exatamente aí que entendo que começa a divisão de águas entre a “educação” e um mero “treinamento”.
Procurando dar um exemplo prático da minha área específica, entendo que um curso de preparação para a certificação PMP é, tipicamente, um “treinamento”; o seu objetivo é passar na prova, e o curso vai ser direcionado para isto. É claro que sempre se aprende alguma coisa aplicável em outras situações, mas o objetivo maior é obter pontos no exame, e prá isto tome simulados e mais simulados. Já um curso de MBA me parece um exemplo típico de “educação”; não é apenas uma questão de transmitir conhecimentos aos alunos, mas sim fazer com que eles se tornem capazes de pensar e criar os seus próprios caminhos. É claro que isto é uma estrada de mão dupla; o melhor professor do mundo não vai colocar um aluno relapso para pensar, ao mesmo tempo em que não adianta o esforço do aluno se o professor não corresponder.
E é neste ponto que o aspecto da experiência do professor e sua capacidade de aceitar e incentivar a discussão em sala se torna muito relevante. Porque gerenciamento de projetos não é uma área que se presta a certezas “monolíticas”; assim como cada projeto é único e individual, cada situação pode ser abordada de várias formas, sem que exista uma única solução correta para que se aplique a todos os casos. O próprio PMBoK nunca se apresentou como uma “metodologia”, mas sim como uma fonte de “boas práticas”, ou seja, você não é obrigado a seguir tudo o que está ali, mas apenas escolher o que lhe parecer relevante para o seu projeto, e aplicar do seu jeito.
Já ouvi dizer que, nos cursos de MBA em algumas universidades americanas, existem aulas em que o professor não leva um material para exposição, apenas entra na sala e pergunta aos alunos; dentro do nosso tema (vamos supor que seja algo tipo “Gerenciamento de Riscos”), o que vocês querem discutir hoje? Pode ser que se trate de mera “lenda urbana”, mas acho a ideia fascinante. É claro que uma abordagem deste tipo exige um esforço muito maior do que o convencional, tanto de professores quanto de alunos, mas tenho certeza que levará a um resultado muito melhor. Usando outra de minhas piadinhas favoritas (realmente, eu sou um velhinho muito engraçadinho), costumo dizer que o processo de ensino e aprendizado, assim como o sexo e o vôlei de praia, é um jogo de dupla, e para obter bons resultados é necessário que um parceiro esteja sempre disposto a ajudar o outro (apenas para concluir a piadinha; é claro que tanto no sexo quanto no vôlei de praia existem os que gostam de colocar mais gente na quadra, mas isto foge ao escopo deste artigo, of course).
Tentando resumir tudo em uma frase só, eu diria que o treinamento te ajuda a aprender sobre história; a educação te torna capaz de mudar a história. E o que a gente mais precisa no Brasil de hoje são professores e alunos com vontade e capacidade para mudar a história.
Enfim, o tema é muito complexo e abrangente, não vai ser esgotado em um único artigo, mas gostaria, mais uma vez, de pedir o feedback dos amigos para esta questão.
Até a próxima.

domingo, 9 de julho de 2017

Em busca do professor ideal – o modelo CED (Conhecimento, Experiência, Didática)

Tivemos, há algum tempo no Linkedin, uma discussão interessante motivada por um questionamento levantado pelo meu amigo Américo Pinto, sobre a necessidade de um professor ter experiência no assunto que ensina. Algo do tipo; como alguém que nunca trabalhou em um projeto poderia dar aulas sobre o assunto? Como pesar os fatores experiência x conhecimento acadêmico (mestrado, doutorado) na hora de escolher um professor?
A pergunta, obviamente, não tem uma resposta objetiva. Meti a minha colher na discussão e propus um modelo semelhante ao CHA (Conhecimento, Habilidade, Atitude), que é aceito como o ideal para definir um bom profissional de gerenciamento de projetos. Minha proposta foi o CED (Conhecimento, Experiência, Didática), que definiria o professor ideal. Recebi comentários simpáticos à minha ideia, e outros nem tanto, mas acabei me sentindo encorajado a aprofundar o tema, que é a proposta central deste artigo.
Na verdade, este é um dilema que conheço desde a minha época de estudante universitário, na querida Escola de Engenharia da UFRGS, no início dos anos 1970. E lembro que sempre achei mais interessantes as aulas dos professores com vivência profissional do que dos “acadêmicos”. Usando os termos que foram popularizados na internet há pouco tempo atrás, achava muito melhor um engenheiro “de raiz” contando as suas histórias do que um “Nutella” enchendo o quadro-negro (quadro-negro? Meu Deus, como eu estou velho!) de equações.
Hoje, em um contexto completamente diferente, a discussão volta. Ao longo de mais de vinte anos dando aulas e assistindo cursos sobre gerenciamento de projetos, acabei desenvolvendo algumas convicções, que passo a expor agora.
O que seria o modelo CED (Conhecimento, Experiência, Didática)?
a) Conhecimento; Gerenciamento de projetos, seguramente, é uma área muito mais “empírica” do que “científica”. Em outras palavras, a construção do conhecimento na área de GP está muito mais atrelada ao acúmulo de experiências do que ao desenvolvimento acadêmico e científico. Desta forma entendo como altamente questionável a exigência de currículo acadêmico (tipo mestrado ou doutorado) para os professores desta área. Antes que alguém me tome como xiita do MSMsC (Movimento dos Sem Mestrado), uma vez que sou um deles, gostaria de esclarecer que considero o conhecimento acadêmico tão importante que resolvi começar um mestrado agora, aos 65 anos. Mas continuo sustentando que, para a área específica de gerenciamento de projetos (favor deixar isto bem claro) acho muito mais importante a vivência prática do que a acadêmica;
b) Experiência; sempre que ouço esta palavra lembro-me da definição de Aldous Huxley (“Experiência não é aquilo que aconteceu com você, mas sim o que você conseguiu aprender com isto”). Em outras palavras, podemos dizer que alguns velhos são experientes, outros apenas velhos. E a diferença está na vontade de aprender, de inovar, de se adaptar às novas realidades. A interação com os alunos é um ponto importante; acho sempre que o melhor professor é o que está disposto a aceitar ideias dos alunos e conduzir uma boa discussão com eles. Infelizmente, muitos ainda acham que são os donos da verdade (e posso afirmar, com toda a certeza do mundo, que com a idade isto só piora). Enfim, existe um “mix” ideal entre conhecimento e experiência. Mas nada disto funciona se não existir o “D”, que passamos a explicar abaixo;
c) Didática; O ponto mais importante de todos na hora de escolher um professor, pelo menos na minha visão, é a capacidade que ele tem de tornar a sua aula interessante e produtiva, que eu chamaria, genericamente, de “Didática”. Vejam bem, é muito importante, neste momento, saber distinguir “transmissão de conteúdo” de “stand-up comedy”. Conheço caras que são geniais como “animadores de plateia”, capazes de “energizar” os alunos com piadas, dinâmicas, jogos, mas, em termos de conteúdo passam muito pouco. Chamo isto de “efeito sabonete” – o cara faz espuma suficiente para encher a banheira toda, mas no final o que ficou de sólido é só uma barrinha deste tamanhinho. Por outro lado, existe o sujeito que sabe tudo, mas, como a água, é inodoro, insípido e incolor, e todo mundo dorme na aula dele. Obviamente o ideal é o equilíbrio – muito difícil de alcançar, seguramente.
Resumindo; o professor ideal teria doses equilibradas destas três qualidades. E nunca podemos esquecer que cursos são como projetos; cada um tem o seu contexto próprio e intransferível. Ou seja, dependendo da proposta do curso, cada uma delas vai ser mais ou menos importante.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A GESTÃO DE MUDANÇAS NA FAMÍLIA REAL BRITÂNICA; UM “CASE” DE SUCESSO

Publiquei um artigo no mês passado sobre a gestão de pessoas (ver http://causosdoherve.blogspot.com.br/2017/05/a-terceira-onda-do-gerenciamento-de.html ). E prometi novos artigos falando sobre três itens que considero fundamentais neste assunto; gestão do conhecimento, gestão de mudanças e gestão de talentos. Resolvi começar pela gestão de mudanças, que é o item que me parece ter maior visibilidade neste momento conturbado do planeta.
Muito se fala sobre as mudanças que caracterizaram os últimos quarenta anos, quando o avanço tecnológico nos proporcionou situações que não eram nem sonhadas pelas gerações anteriores (lembrando sempre que eu tenho mais de sessenta anos e sou testemunha viva destas mudanças incríveis). Só que, além da tecnologia, ocorreram mudanças de pensamento e de atitude que também foram extremamente significativas. E o causo que vou contar agora ilustra muito bem a força dos novos paradigmas comportamentais.
Uma das grandes viradas que presenciei foi a do comportamento feminino. Sim, eu sou do tempo em que as mulheres casavam virgens, casamento era para sempre e a maior honra que uma mulher honesta poderia aspirar era o titulo de “Rainha do Lar”, com direito ao avental todo sujo de ovo, da melosa canção. Lá pelos anos 1960 as coisas começaram a mudar. Não tenho conhecimento suficiente de sociologia ou coisa semelhante para explicar o fenômeno com clareza, mas o fato é que vi acontecer. E posso garantir que foi impressionante verificar que, em pouco mais de trinta anos, a sociedade mudou o suficiente para aceitar um novo comportamento sexual das mulheres, que trouxe a reboque toda uma nova atitude delas diante da vida profissional e pessoal. O tal do empoderamento (eita palavrinha horrorosa!) funcionou e, num período muito curto, a sociedade experimentou uma mudança comportamental sem paralelo na história. E que, em minha opinião, foi benéfica para todos, homens e mulheres, embora ainda existam bolsões de resistência (machistas, religiosos fanáticos e outros. Mas que são hoje uma minoria. É preciso entender que, em termos históricos, meio século é muito pouco tempo, tem gente que não consegue se adaptar tão rapidamente).
Um exemplo bastante ilustrativo disto é o dos dois casamentos mais importantes realizados na atual família real britânica. Em 1981, o Príncipe Charles, herdeiro do trono, se uniu a Lady Diana num casamento de conveniência exatamente idêntico aos da era vitoriana; ela era de família nobre, como tinha que ser, e, entre outras situações anacrônicas e vexatórias, a futura princesa foi submetida a um exame ginecológico para confirmar a sua virgindade. Todos os casamentos reais tinham funcionado deste jeito, desde sempre; só que, fora dos muros do palácio, o mundo não era mais assim. O resultado foi desastroso; confrontados com a nova realidade, Charles e Lady Di protagonizaram um dramalhão que acabou na primeira separação na família real, vexames e traições para todos os lados e, no fim das contas, a trágica morte da princesa, em agosto de 1995.
A reação da família real diante da morte de Lady Di ainda seguiu os padrões tradicionais; ela não tinha direito a um funeral real, afinal era apenas a ex-mulher do príncipe herdeiro. Foi só quando este gesto gerou uma revolta popular quase derrubou uma das monarquias mais tradicionais do mundo, que a realeza britânica começou a entender que as coisas não eram mais como antigamente.
A Rainha Elizabeth foi perspicaz o suficiente para entender a mudança, deu um funeral real a Diana, e, alguns anos depois, teve a chance de conduzir um casamento totalmente diferente para o seu neto William.
William e Kate, uma plebeia, viveram uma história de amor igual à dos jovens de hoje; se conheceram na universidade, seguramente tiveram relações sexuais antes de casar (e muito provavelmente com outros parceiros, antes), enfim, um romance normal no século XXI. Sem neuroses. E o povo aplaudiu.
Talvez a imagem mais simbólica da evolução dos costumes foi a presença, na cerimônia, do grande ídolo do rock Elton John acompanhado de seu companheiro. Em tempos muito pouco distantes, posso assegurar que um casal assumidamente homossexual jamais passaria pela porta da abadia de Westminster, mas o recado do século XXI foi claro o suficiente para ser entendido por toda a família real; o preconceito acabou. Ninguém mais tem o direito de marginalizar alguém por causa de suas preferências sexuais. E Elton John era o melhor amigo da falecida mãe do noivo, portanto seu lugar era na igreja, entrando pela porta da frente, com direito a tapete vermelho. Simples assim.
No fundo, este é um grande “case” de gestão de mudanças bem sucedida. Como em um moderno conto de fadas, a Rainha teve a sabedoria necessária para entender que o mundo não era mais o que ela conhecera quando jovem, aceitou a mudança, e voltou a gozar de grande popularidade junto aos súditos. E demonstrou que mesmo uma instituição milenar como a monarquia britânica tem que entender que há um momento em que a mudança é necessária e não adianta se agarrar à falsa segurança “daquilo que funcionou até hoje”.
Antes de encerrar este artigo que já ficou muito longo, um recado para nós, brasileiros; será que estamos sabendo lidar com esta fantástica possibilidade de mudança que a “Lavajato” está nos proporcionando? Temos, pela primeira vez na história, a possibilidade de mudar nossos conceitos e paradigmas, acabando com a “velha sociedade”, que se reflete na “velha política”. E por isto vejo com muita tristeza que boa parte das pessoas ainda se agarra a teorias conspiratórias, pede a volta do Lula, a volta dos militares, enfim, deve ter gente sonhando até com a volta das capitanias hereditárias. Pessoal; o velho e bom Charles Darwin já nos ensinou que a sobrevivência de uma espécie não depende de sua força, mas sim de sua capacidade de adaptação a mudanças. Os ingleses mostraram o caminho. Cabe a nós aprender a lição. “O passado nunca mais”, cantava o saudoso Belchior, poeta genial que nos deixou recentemente. Eu concordo com ele. Gestão de mudanças já!
Pensem nisto. Até a próxima.

terça-feira, 23 de maio de 2017

A CORRUPÇÃO NOS REPRESENTA. E ADMITIR A DOENÇA É O PRIMEIRO PASSO PARA A CURA

A foto que ilustra este artigo mostra um típico comportamento brasileiro, que deveria nos envergonhar. Um caminhão carregado de caixas de cerveja virou, e podemos ver várias pessoas carregando para casa embalagens do precioso líquido. E não vamos ser preconceituosos e dizer que é coisa de pobres; enquanto a polícia não chega, tem muito classe média, e até alta, que é capaz de parar o carro e catar sua cervejinha de graça no meio da rua. Na verdade, existe uma visão comum de que saquear um caminhão que tombou é um comportamento absolutamente normal, e os policiais, que muitas vezes são obrigados a usar a força para impedir mais saques, são uns chatos, prá dizer o mínimo.
Este é, provavelmente, o pior aspecto da cultura brasileira; a visão de que não há problema em cometer atos ilícitos. Tenho certeza que vai aparecer um espertinho de plantão para dizer que a companhia não vai ter prejuízo, provavelmente existe um seguro para isto, portanto ninguém está lesando ninguém, mas o ponto não é este; o ponto é que você não tem o direito de pegar alguma coisa pela qual você não pagou. Simples assim.
Outra desculpa muito usada é “se eu não pegar alguém vai pegar, portanto estou fazendo papel de otário”. Também não é por aí; se você pensa assim, então deve achar perfeitamente normal que um deputado embolse alguns milhões de reais para aprovar uma emenda que favorece um rico empresário. Afinal, se ele não pegar os outros vão pegar e aprovar a emenda do mesmo jeito. A presunção de que os outros são safados não te dá o direito de ser safado. Em nenhum lugar do mundo.
Sem querer me alongar muito, acho que não precisa ser um gênio para entender que o que sustenta os grandes canalhas somos nós, os pequenos canalhas otários do dia a dia. O cara que se sente o máximo porque conseguiu furar a fila, sonegar imposto de renda usando recibo falso, arrumar um atestado médico para não ir trabalhar e outras cositas mas.
O mais trágico é que este não é apenas um comportamento tolerado, ou aceito; é um comportamento altamente valorizado. Conforme eu disse acima, o cara se sente o máximo. No nosso dia a dia nos comportamos assim, desde jovens; o sujeito que se mata de estudar para ter uma boa nota no colégio é visto como um “nerd” babaca, mas o que suborna o servente que tira a xerox da prova e consegue nota dez sem se esforçar vira o ídolo da turma. Parafraseando o mestre Cazuza, num contexto totalmente diferente; porque é que a gente é assim...
Citando o economista americano Douglass North, ganhador do Prêmio Nobel de 1993; “somos o reflexo das nossas crenças. Se um país valoriza a pirataria, vai produzir os melhores piratas”. O problema do Brasil são os valores cultivados pela sua sociedade (ou seja, nós). E só nós podemos resolver o problema. Entender e ensinar aos nossos filhos que pegar cerveja de um caminhão que virou é errado, não vai resolver tudo, mas, seguramente, vai ajudar muito.
Até a próxima.
Estes e outros textos estão em meu blog, ver http://causosdoherve.blogspot.com.br/2017/05/a-corrupcao-nos-representa-e-admitir.html

sábado, 6 de maio de 2017

O PIOR CEGO É O QUE ACHA QUE OS OUTROS NÃO ESTÃO VENDO - A SANTIDADE DE LULA

Uma das coisas que mais me emociona no cenário político atual do Brasil é a fé inabalável que alguns petistas têm na santidade da figura do Lula. Vou repetir mais uma vez; não tenho nada contra o sujeito achar que o Lula é o maior estadista de todos os tempos, querer que ele volte ao poder e tudo isto. Só não consigo aceitar a ideia de que o maior esquema de corrupção de todos os tempos aconteceu durante o governo dele, envolvendo todos os escalões do PT, e Lula não sabia de nada e não auferiu qualquer vantagem disto. É mais fácil acreditar em duendes (vá lá, tudo bem, também não tenho nada contra quem acredita em duendes)
E cada vez que um novo depoimento chega para comprovar o óbvio, os Lulistas de fé se desdobram em argumentos cada vez mais frágeis para tentar inocentar seu ídolo. As teorias conspiratórias vão incluindo cada vez mais gente, é o Sérgio Moro, o FMI, a rede Globo, as empreiteiras, o Saci Pererê e o Darth Vader, enfim, ninguém no mundo é confiável, só o Lula. Só me resta parafrasear o grande Lulu Santos (o poeta com nome de cachorrinho de madame); o Lula deve ser cheio de charme, afinal, paixão assim não acontece todo dia.
Neste contexto, lembrei uma velha piada de português (será que nestes tempos de histeria politicamente correta ainda é possível contar piada de português? Sei lá, se alguém se ofender eu dou o direito de contar uma piada de gaúcho. Sem rancores).
Mas dizia a anedota que o português ficou viúvo e casou de novo, com uma menina muito mais jovem que ele. Logo começaram as suspeitas e fofocas de que ela estava chifrando o gajo. A coisa chegou num ponto tal que o português resolveu contratar um detetive. Alguns dias depois, o cara chegou com a sua conclusão;
“Olha, seu Manuel, o senhor vai ter que ser forte. Fiquei disfarçado, em frente à sua casa, e fotografei tudo. Ontem mesmo, assim que o senhor saiu para trabalhar, chegou um rapaz alto e bonitão. Sua esposa abriu a porta, deu um beijo nele e colocou-o para dentro de casa. Foram para o quarto e, como se descuidaram e deixaram a janela aberta, eu pude registrar os dois trocando carícias cada vez mais intimas, tirando toda a roupa, e deitando na cama”.
O português, desesperado, perguntou; “E aí, o que aconteceu?”.
“Bom, seu Manuel, aí eles fecharam a janela e eu não consegui ver mais nada. Mas mesmo assim ouvi alguns gemidos lá dentro”.
E o português fuzilou; “Foi pra isto que eu te contratei, ó incompetente? Pra me deixar com dúvidas?”. E demitiu o detetive e continuou casado com a moça.
Não sei se me fiz entender...